Manuel Igreja

Manuel Igreja

Um mundo que nem por isso

Quando eu era rapaz novo, assim que comecei a abrir os olhos para o mundo com as suas voltas, pessoa que rondasse a idade em que se começa a olhar para a sombra própria, sentia nascer-se-lhe uma esperança numa vida melhor, mais justa e mais equilibrada para todos em qualquer lugar.

Um jovem deitava os olhos em frente e sentia que tinha o futuro na mão, embrulhado em optimismo e entrelaçado com generosidade. Sentia dentro de si, uma força inabalável e uma fé sem limites. Regra geral transbordava duma alegria que fazia questão de espalhar em seu redor.

Sabia, ou pelo menos pensava que sabia o seu lugar no mundo numa vida que tinha como eterna e que percorria a divertir-se, a curtir, a asneirar, e a tentar evoluir em prol de uma causa. Sonhava e tentava realizar os seus sonhos ignorando a palavra impossível.

No entanto e a páginas tantas, no tempo em que os meus verdes anos já se viam ao longe ao dobrar da esquina, chegou o admirável mundo novo, como outro em qualquer época, com as suas coisas boas e com as sua coisas más, mas agora, com mais boas que más. Parecia pelo menos.

A tecnologia maravilha-nos a toda a hora permitindo que o impensável esteja na palma da mão. Num ápice se faz uma interligação, num repente se sabe de alguém. O tempo deixou de ter a mesma medida, o mesmo compasso de espera.

Tudo urge, tudo emerge, mas logo tudo desaparece. Falta o tempo porque há pressa, e há pressa porque escasseia o tempo. O mundo foi-se estreitando à medida que deixou de se olhar para o lado e para o horizonte para lá da ponta do nariz de cada qual.

As causas acerca das coisas começaram a faltar na proporção que o conhecimento foi e vai rareando suplantado pelas opiniões à flor da pele germinadas e surgidas da forma mais fácil e mais conveniente. Não duram porque são descartáveis apesar de debitadas em jeito de quem dá cartas em mesa de jogo.

Com o primeiro quarto do século vinte e um vivido, cada ser humano é cada vez mais uma ilha em cujo chão campeia a ignorância espalhada segundo interesses perfeitamente direcionados. E as maiorias vão, e as maiorias temem, remando na direcção apontada e recomenda pelos vendedores de feira, sábios utilizadores dos megafones da manipulação.

Palradores com a palavra certa no momento exato, proclamam o ódio e a intolerância sugerindo mesinhas para os males do mundo. Apesar do seu ar retardado, são ladinos a picar as emoções. As turbas ululantes aderem e aplaudem repetindo cenários terríveis há poucas décadas vistos e sofridamente vividos.

Mas não o sabem. Ignoram porque não sonham. Não querem saber sequer, porque alguém lhes roubou a decência e porque vivem quotidianos de muita inquietação com toda a frequência. Só o primarismo acomoda. Grassa em dias em que não seria suposto. Manda e comanda. Falta saber é se o mundo anda ou desanda.

Não sei. Sei é que me apetece dizer que vivemos num mundo que nem por isso…


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