Avelino Pinheiro

Avelino Pinheiro

Portugal discute Ronaldo e marca um golo com a decisão da UE sobre a Mina da Borralha

Portugal voltou a dividir-se em torno de Cristiano Ronaldo. A saída do estágio da seleção e o diferendo com Jorge Jesus deram origem a uma discussão sobre o lugar do capitão, as decisões do treinador e o interesse da equipa. Como tantas vezes acontece, o futebol mais uma vez ocupa o centro da conversa nacional, mobilizando opiniões, paixões e certezas.

Não é difícil perceber porquê. Cristiano Ronaldo é muito mais do que um jogador de futebol. É um símbolo de ambição, disciplina e superação, alguém que construiu uma carreira extraordinária através do trabalho e de uma exigência pessoal raramente vista. Mas uma equipa não vive apenas das qualidades individuais dos seus jogadores. Precisa de objetivos comuns, confiança, responsabilidade e capacidade de colocar o talento de cada um ao serviço de todos.

O episódio mostra como o futebol nos mobiliza e como é difícil encontrar acordo mesmo quando todos queremos que Portugal ganhe. Mas há factos que se impõem. É um ponto pacífico a ideia de que Ronaldo é um dos jogadores mais talentosos da história de Portugal. E é também um ponto pacífico o desejo de todos os portugueses de que o país tenha mais desenvolvimento e oportunidades. 

É nesta lógica que uma decisão que acaba de chegar de Bruxelas merece ser celebrada como um golo nacional. A Comissão Europeia selecionou a Mina da Borralha, um projeto de extração subterrânea de tungsténio em Montalegre, como Projeto Estratégico da União Europeia. Entre os 46 projetos incluídos nesta nova lista, a Borralha destaca-se como o único projeto português. Desta vez, foi um território do interior a colocar Portugal em evidência perante a Europa.

A importância desta decisão vai muito além do reconhecimento de um projeto mineiro. Representa a valorização de um recurso geológico nacional num momento em que a Europa procura reforçar a sua autonomia estratégica, diversificar as fontes de abastecimento e reduzir vulnerabilidades em matérias-primas essenciais à sua economia. Este é, portanto, um facto, bem como também o é a oportunidade que a mineração traz ao país.

O tungsténio, também conhecido como volfrâmio, possui propriedades únicas, nomeadamente a sua elevada dureza e resistência a temperaturas muito elevadas. É utilizado em ferramentas industriais e em diversas aplicações tecnológicas, incluindo setores como o aeroespacial e a defesa. Num contexto internacional marcado pela competição pelo acesso a matérias-primas críticas, dispor de recursos próprios e de projetos capazes de os desenvolver assume uma importância económica e estratégica crescente.

Ao reconhecer a Mina da Borralha, a Europa reconhece também o potencial dos recursos geológicos de Trás-os-Montes. E isso merece ser sublinhado. Durante demasiado tempo, os territórios do interior foram frequentemente associados à distância, à perda de população e à falta de oportunidades. No entanto, esses mesmos territórios possuem recursos naturais, conhecimento, património e capacidade para participar ativamente na construção do futuro económico do país.

A oportunidade também agrega o desafio de transformar este potencial em valor real. Não basta possuir recursos no subsolo, é necessário conhecimento científico, competência técnica, investimento, planeamento e uma visão de longo prazo. É preciso articular empresas, instituições públicas, universidades, trabalhadores e comunidades locais, reconhecendo que o sucesso de um projeto desta dimensão não se mede apenas pela sua viabilidade económica, mas também pela forma como se integra no território e contribui para o seu desenvolvimento.

Também aqui a comparação com o futebol faz sentido. Uma equipa pode reunir jogadores extraordinários e, ainda assim, não alcançar os seus objetivos se não souber trabalhar em conjunto. Da mesma forma, um país pode dispor de recursos valiosos e perder oportunidades se não conseguir mobilizar as suas capacidades, tomar decisões consistentes e criar condições para que os projetos avancem com responsabilidade.

Na Borralha, esse caminho exige rigor técnico, responsabilidade ambiental e diálogo permanente com as populações. O desenvolvimento mineiro do século XXI tem de ser acompanhado por uma atenção exigente à água, aos solos, à biodiversidade e à qualidade de vida das comunidades. A proteção ambiental não deve ser encarada como um obstáculo exterior ao desenvolvimento, mas como parte integrante da sua conceção e execução. A confiança constrói-se com transparência, monitorização, cumprimento das obrigações e capacidade de responder às preocupações legítimas das pessoas.

Portugal pode continuar a discutir os seus protagonistas desportivos, pois isto faz parte da paixão que temos pelo futebol. Mas seria bom que também soubesse celebrar as conquistas que surgem longe dos grandes estádios e dos holofotes mediáticos. Desta vez, o destaque veio de Montalegre, e é importante que saibamos reconhecer o valor desta jogada, afinal, o maior golo de um país é construir, com responsabilidade, o seu futuro. 

Avelino Arantes Pinheiro

Geólogo, Professor e diretor do projeto da Mina da Borralha.


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