A importância de se debater ideias e projetos com respeito e argumentos
Quando um jovem faz as malas para procurar trabalho fora de Portugal, há uma família que fica a contar os dias até ao próximo regresso. Há também uma terra que perde alguém que poderia trabalhar, criar uma empresa, constituir família e participar na comunidade. Em Trás-os-Montes, discutir o desenvolvimento é discutir essa possibilidade de ficar. Uma questão desta importância merece um debate à altura.
Preocupa-me que a discussão sobre o futuro dos nossos territórios seja tantas vezes desviada para a desqualificação de pessoas. Ataca-se quem apresenta uma proposta, desrespeitam-se profissionais e difundem-se informações falsas. A repetição de uma acusação acaba por ocupar o lugar dos argumentos. Entretanto, as perguntas que realmente interessam às famílias continuam à espera de respostas.
Uma sociedade que deseja decidir bem precisa de saber discordar. Ouvir, consultar fontes, confrontar argumentos e reconhecer o conhecimento de quem estuda os assuntos são condições essenciais para uma discussão séria. Pessoas com opiniões diferentes podem partilhar a mesma preocupação com a água, a paisagem, a saúde e o futuro dos seus filhos.
O trabalho de engenheiros, investigadores e técnicos pode e deve ser questionado. Essa apreciação deve incidir sobre os métodos, os dados e as conclusões. Desrespeitar a dignidade de um profissional ou insinuar intenções sem fundamento empobrece a discussão e afasta a comunidade do esclarecimento de que precisa.
Portugal tem oportunidades que merecem ser desenvolvidas com inteligência. O mar, a agricultura, a floresta, o turismo, a indústria, a energia, a ciência e a tecnologia oferecem possibilidades que se podem complementar. Transformar o que produzimos, valorizar os recursos disponíveis e aproximar o conhecimento das empresas são caminhos para criar emprego qualificado e melhores rendimentos.
Trás-os-Montes precisa de participar nesse futuro. Os produtos agrícolas, o património, a paisagem, os recursos naturais e o conhecimento das suas instituições podem sustentar atividades capazes de dar novas oportunidades à população. Aproveitar essas valências de forma sustentável exige pensar a economia, o ambiente e as necessidades das famílias em conjunto.
A mineração faz parte dessa discussão. Existem estudos sérios realizados para a implementação desta indústria, que devem ser conhecidos e considerados no debate público. Há conhecimento técnico e profissionais cujo trabalho merece respeito. Discutir os projetos com base nessa informação permite compreender as soluções propostas, esclarecer dúvidas e avaliar o seu contributo para o desenvolvimento regional.
Aos críticos, deixo o desafio de participarem nesta conversa com argumentos e propostas. Precisamos de debater os melhores caminhos para aproveitar aquilo que Portugal tem, preservando os recursos e criando oportunidades. A divergência pode ajudar a melhorar soluções, a identificar dificuldades e a encontrar respostas mais adequadas. Para isso, é necessário conhecer as propostas e discutir o seu conteúdo.
As famílias querem saber como poderão viver melhor. Querem oportunidades para os filhos, trabalho com perspetivas, serviços públicos e condições para construir uma vida na sua terra. Estas aspirações devem estar presentes em qualquer discussão sobre sustentabilidade. O futuro de um território depende também da capacidade de acolher e manter as pessoas que lhe dão vida.
O debate racional é a única saída para construirmos decisões partilhadas sobre a herança que deixaremos às próximas gerações. Devemos-lhes um território cuidado e uma economia capaz de lhes oferecer escolhas. Partir deve continuar a ser uma liberdade. Ficar precisa de se tornar uma possibilidade real.
É essa responsabilidade que nos deve levar a debater ideias com respeito e argumentos.
Avelino Arantes Pinheiro
Geólogo, Professor e diretor do projeto da Mina da Borralha.