Manuel Igreja

Manuel Igreja

Os patifes

Tenho para mim que se eu mencionar aquele patife que você caro leitor ou leitora conhece, logo cada qual identificará alguém que assim considera. Por entre os muitos que conhecemos só de nome ou pessoalmente, há sempre alguém em que se coloque tão indesejável etiqueta.

Está nos livros. Quer dizer, assim como também está que qualquer um de nós é suscetível de assim ser tido por alguém e algures com razão ou sem razão, pois isto das opiniões, é como dizia o outro, cada qual tem a sua e se a quiser dar tem toda essa liberdade desde que não abuse.

No entanto, e seja como for, é certo e sabido que hoje em dia, o sentimento mais geral é que o mundo está cheio de patifes e que chove nele como na rua, pois chegamos a um ponto em que se perdeu a noção do que é certo e do que é errado, dando-se até o caso de somente existir vergonha quando as patifarias são colocadas ao léu.

Até aí, qualquer patife o pode ser pavoneando a sua magnificência vaidosamente exibida sob a forma de luxo, mesmo que a maioria saiba que a vida não pode ser feita e vivida com atitudes ao nível do lixo. Tudo se desculpa, tudo se finge, desde que as patifarias não afetem e não cerquem o redor individual e os interesses mais imediatos.

O resto são cantigas sem moral e sem costumes. O problema, é que infelizmente parece que as modas tendem a virar usos mesmo com muitos abusos. Por isso é que vai esbatendo a fronteira concreta entre o certo e o errado e se vai perdendo a noção entre a verdade e a mentira, entre o que é certo e o que é errado.

Voltando aos patifes. Como disse, há aqueles que estão mesmo ao virar das esquinas dos nossos quotidianos nas ruas da nossa cidade, vila ou aldeia, e há aqueles que estão longe, com quem nunca nos cruzamos nem no trânsito, mas que são os que mais influenciam o nosso modo de vida.

Nisto, permitam que vos diga que são muitos e estão em toda a parte com muito engenho e com muita arte. Por isso, devido a eles, é que o mundo está prestes a tombar e mesma a desconchavar-se. Espero estar engando, começamos a ter razões para ficarmos pálidos e com as almas caiadas de negro.

Vai-se-nos esmorecendo a esperança num mundo cada vez melhor como nos prometeram e como podia perfeitamente ser. Condições quase absolutas e objetivas não faltam. Cria-se cada vez mais riqueza a toda a hora, existe suporte, mas o problema são os patifes travestidos de gente séria e de visão alargada.

No decurso das últimas décadas fomos incautos. Permitimos que os patifes ascendessem e reluzissem. Deixamos que nos tomassem por lorpas quando eles se disseram iguais a nós e se mostraram preocupados com o nosso bem, ainda que no fundo soubéssemos não se importavam nem importam com o nosso mal.

Agora estamos nisto. Na Rússia o patife maior entre os patifes, acende o lume mesmo ao lado do barril da pólvora que pode mandar tudo pró maneta e apavora a seu bel-prazer. Na América o patife mor com cabelo alaranjado, espalha o seu rasto e leva milhões numa viagem mental até ao tempo dos índios e dos cobóis.

Veremos como diz o cego. Mas quanto aquilo dos patifes. Deixe que lhe diga a si que chegou até aqui no seu ler, que de modo algum acho que o é, porque se o fosse, digo eu, me abandonava lá mais atrás. Para aí no meio. Caso me ache digno, dê-me a mão e vamos em frente.

Os patifes jamais vencerão.


Partilhar:

+ Crónicas

O palco para o Papa

Baralhar e tornar a dar

O Catar e o catano

O Douro e a escala

A Bedford

A Mulher duriense

O pacote e os tolos

Voar

Os Sonhos