Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Meu Pai

O meu pai, foi o melhor pai do mundo. Não que tenha sido melhor que qualquer outro, pois cada qual acha o seu o maior, mas foi-o porque era e é o meu. Eu é que não fui nem sou o melhor filho do mundo. Não porque seja mau filho, mas sim porque não sou único. Depois e também, porque acho que uma pessoa nunca é suficiente bom filho por nunca atingir o patamar do pai e da mãe. A dívida que um filho tem perante eles, é incomensurável, impagável e inevitável, mesmo que seja repetida ao longo dos milénios e das gerações desde sempre e para sempre. Não fosse ela e tudo se acabaria. Aos nossos pais, devemos a vida. Foram eles que nos geraram. Deram-nos o ser e o estar. No entanto, qualquer filho, jamais teve ou terá o poder de dar vida ao pai ou à mãe. Não estamos a essa altura no poder. Bem que eu gostava de ter estado nos momentos próprios. Pudesse eu num querer dar de novo alento e vida ao meu pai. Ainda tentei, mas não consegui apesar de todo o esforço. Nunca quis ser um deus, mas naqueles segundos dava tudo para o ser. Só para isso. O resto não importa. Aliás seu eu fosse um deus, não acrescentava nada ao meu pai. Não que ele fosse extraordinariamente extraordinário e perfeito. Não o era porque era humano. Mas tinha tudo o que dele precisei enquanto seu filho. Nunca me faltou em nada porque me deu tudo, inclusivamente a capacidade de sonhar que me faz ser do tamanho do mundo. Entre esse tudo que me deu e mais a minha mãe, está incluído um tesouro sem par pelo menos aos meus olhos. Tem a forma e o conteúdo do seu exemplo de viver honradamente e em permanente esforço na construção do ninho protector em que me criaram e a mais os meus irmãos. Tiveram a capacidade de nos moldar e nos preparar quer para as felicidades, quer para as agruras da vida. Por isso resistimos, construímos e vivemos sem olhar de cima para baixo, a não ser que seja para ajudar alguém a erguer-se. Na nossa aldeia que é a maior do mundo, porque dela vieram todas as coisas se podem ver no universo, o meu pai lutou, testemunhou, aprendeu, ensinou, sofreu, granjeou, colheu, alegrou e alegrou-se. Mas agora partiu cumprindo o seu destino de perecer. Unicamente me resta continuar a aprender com o que ele foi. Morreu de velho, por isso é como se tivesse ardido uma biblioteca. Juro que vou continuar a virar cada página de cada livro para que seja cada vez mais um bom filho e um bom cidadão.

Sentado numa nuvem com a forma de banco de madeira onde vai continuar a contar estórias, ele vai gostar de  me ver  a tentar seguir as migalhas de pão que ele deixou no caminho em direcção à terra para lá do arco-íris entre o antes, o agora e o depois.


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