Basta trocar o 10 pelo 24 de Junho para acertar a história de Portugal
Portugal nasceu na tarde de 24 de Junho de 1128. Só em 23 de maio de 1179, o Papa Alexandre III, através da bula Manifestis Probatum, reconheceu a sua independência, 51 anos depois da batalha de S. Mamede, travada em Guimarães. Esse foi o primeiro dia de Portugal, o mesmo em que D. Teresa deixou de gerir o Portus Cale, passando essa gerência para o domínio do seu filho Afonso Henriques, uma vez que o conde D. Henrique, seu pai, já tinha falecido.
Guimarães, como berço da nacionalidade e também do seu fundador, tem a responsabilidade de zelar pela verdade histórica. Mas, por vezes, parece ser a primeira a traí-la. Basta o exemplo da destruição da legenda que estava gravada no centro da cidade, no chão do Largo do Toural, pelo município então liderado por António Magalhães. Aquando das obras para a Capital Europeia da Cultura 2012, varreram a data “1111” em latim, que celebrava o nascimento de Afonso Henriques.
Trago este testemunho a debate para justificar os dois anos que faltam para se completarem os 900 exactos do nascimento de Portugal.
Foi no final da primeira década deste século que o signatário, travou na imprensa nacional e regional, forte contestação ao desleixo que a Academia Portuguesa de História permitiu, quando a sua presidente, Manuela Mendonça, recém-falecida, assumiu, num congresso em 2009, em Viseu, que iria substituir os manuais escolares da História de Portugal, por novos compêndios com a “teoria de Viseu”, ensinando que o rei fundador tinha nascido naquela cidade beirã, e não em Guimarães.
Com o estatuto de meio século de vimaranensismo, e já fora dos compromissos éticos do funcionalismo público, travei intenso labor contestatório em busca da verdade histórica.
O investigador viseense A. de Almeida Fernandes (1917-2002), medievalista histórico dos lados de Lamego, num rol de livros e revistas, a meio do seu percurso, desdisse o que disse antes e proclamou-se o «pai duma história nova». O que dissera no volume I sobre Afonso Henriques, disse mais tarde, o contrário. E a Academia de História colocou-se ao seu lado. O disparate só não pegou devido à intervenção de José Mattoso, que sempre defendera a tradição, seguindo o critério da ausência de documentos científicos.
Foi por toda esta crise científica que, em 2009, as autarquias de Viseu e Guimarães se anteciparam à comemoração que devia ter sido em 2011, sabendo-se que o nosso primeiro rei nasceu em 25 de julho (entre 1109/1111, não há certeza absoluta do ano). Para repôr o bom senso e defender a tradição histórica, uma centena de cidadãos, descomprometidos com a política partidária, entre 2011 e 2019 passaram, com o apoio da União das três freguesias da cidade de Guimarães, a levar um ramo de flores ao sopé da estátua de Afonso Henriques, no dia 25 de Julho.
Em 2019 o signatário deste texto foi convidado por dois amigos do referido grupo de cidadãos, a fundarem a associação a que chamámos: Grã Ordem Afonsina, para defender a verdade histórica e acertar a cronologia nacional.
Neste 10 de Junho o país vai voltar a desperdiçar o feriado nacional, que deveria transitar para o dia 24 do mesmo mês. Porque foi em 24 de junho, do ano 1128, que Portugal nasceu. Em tempos que lá vão, no dia 10 de Junho comemorava-se o “dia da Raça”. Houve muitas efemérides que visavam celebrar os seus heróis. Assim nasceu o “dia da Raça”. De Camões não há certezas: nem no dia, nem no local nascimento, e muito menos o que tem a ver com as comunidades Portuguesas.
Ao invés: dia 24 de junho enobrece a data do nascimento da Portugalidade e também da democracia. Não se compreende que 52 anos depois da liberdade, não haja coragem para acertar as mais simbólicas datas nacionais. Todos os anos, nestes dias se formalizam apelos aos dirigentes decisivos para que se consagre 24 de Junho como “Dia Um de Portugal”. Todos os presidentes da República têm sido abordados. O atual presidente do município vimaranense, Ricardo Araújo, desde o ato de posse fez intervenções com essa promessa. Guimarães tem fortes motivações para arregaçar as mangas e fixar definitivamente a cronologia nacional, sobretudo agora, quando se prepara a celebração condigna dos 900 anos da existência de Portugal. Que melhor forma de unir a Lusofonia, através da quarta língua mais falada do planeta?
Todos os quatro Chefes do Estado, eleitos pelo Povo, mencionaram esta incoerência. Pela clareza eleitoral do quinto, presume-se que José Seguro seja consensual em tão evidente matéria. Portugal já tem muitos feriados políticos e religiosos. E todos devemos ser assertivos em não criar mais feriados. Na qualidade de corresponsável da Grã Ordem Afonsina, que há sete anos formalizou tão importante proposta, entendo que a solução para esta causa, em vez de criar mais um feriado, será aconselhável passar para 24 de junho o atual feriado do dia 10 desse mês.
Barroso da Fonte
Legenda da foto:
1111 - A data que Guimarães “oficializou” para o nascimento de D. Afonso Henriques. Estes números romanos (MCXI) estavam desenhados no piso do Largo do Toural, antes de serem destruídos pelas obras de remodelação que aquele espaço sofreu aquando da Capital Europeia da Cultura 2012.