Carlos Ferreira

Carlos Ferreira

Aldeias: nascimento, vida e morte!

Perante a trágica realidade da grave doença demográfica que fustiga o mundo rural europeu, em Portugal coincidente com o interior do país, embora não faça parte da agenda dos de Lisboa e Porto, discute-se imenso a problemática do despovoamento do nosso interior: sobretudo o desaparecimento e morte da rede de aldeias. Mas hoje tudo se debate de forma imediata e parcial, frequentemente com viés politiqueiro ou conjuntura de conveniente campanha eleitoralista, e de preferência, nas redes sociais.

Todos os textos têm que ser curtos e simplistas, sob pena de não serem lidos. Como nem tudo pode ser encaixado nesse formato, sobre o nascimento, a vida e morte das aldeias portuguesas, faço neste artigo reflexão de tentame multifacetado, com abordagem cronológica, mas sem o formalismo e rigidez da escrita académica, aplicando um pendor prático retirado da rede de aldeias transmontanas, mais especificamente, as mirandesas. Tento uma escrita simples e direta. Não enuncio soluções, carreio apenas muitos factos interligados e algumas considerações.

Por comodidade de pensamento, somos levados a pensar que assim foi desde sempre, mas, também as entidades territoriais, tal as aldeias: nasceram, vivem e morrerão. Se todos os fenómenos têm uma causa, que muitas vezes radica em razões muito antigas e continuadas, por vezes recentes e pontuais, procuremos o que se esconde, por entre os vários véus sobrepostos ao que eu gosto de chamar: os ciclos longos e os ciclos curtos.

Para nos situarmos no friso histórico, e escrutinarmos os ciclos longos, lancemos mão dos três grandes períodos da história europeia: a Antiguidade (até ao séc. V), a Idade Média (do séc. V a XV), a Idade Moderna (do séc. XV aos nossos dias).

No ponto de vista do povoamento, na Antiguidade da Península Ibérica, sedentarizaram-se boa parte das populações que aqui viveram durante o período Neolítico, sobretudo em pequenos Castros amuralhados, situados em lugares altaneiros e com boa visibilidade circundante e condições privilegiadas de defesa. Nessa altura ainda existiam grandes rebanhos de herbívoros selvagens nas nossas latitudes, tal como hoje ainda existem em África. As gravuras de Foz Côa atestam essa realidade. Portanto, à população desse tempo, bastava-lhe observar a forma como se moviam, conhecer a sua localização e depois ir caçando as presas à medida que necessitavam para a sua alimentação. A agricultura não era necessária!

A propriedade privada não existia, e, praticada de forma comunitária, a principal atividade económica era a pastorícia extensiva desenvolvida nos territórios baldios pertencentes a toda a comunidade presente, naquele tempo, sociedades agropastoris ditas de ascendência Celta. Os Zoelas, ou Zelas, povoavam então com várias tribos (Desoncos, Tridiavos, Avolgigos, Visaligos, Cabruagenigos, …) o nordeste transmontano.

Já no fim da Antiguidade, a chegada dos romanos à Península Ibérica no séc. II a.C., traz-nos a língua latina e o direito romano, com a inerente implantação progressiva da propriedade privada e o seu fracionamento gradual. Durante o domínio do Império Romano, o Estado é forte e a guerra, a cargo das especializadas Legiões romanas, com seus oficiais e legionários, financia-se com os impostos recolhidos no império, sobretudo com os rendimentos gerados pela alta extração mineira: metais preciosos (ouro e prata) e metais para a metalurgia (cobre, ferro, estanho, chumbo, …). Nascem muitas cidades disseminadas que organizam e administram o território, concentrando-se nelas boa parte da população. O período da Antiguidade acaba no séc. V com o desmoronamento do Império Romano, precipitado por desavenças políticas internas, por invasões, e sobretudo, grandes migrações bárbaras vindas da Europa Central e de Leste, nomeadamente Suevos e Godos, que depois organizam o território em pequenos reinos medievais.

Começa aqui a Idade Média que podemos dividir em Alta e Baixa Idade Média. A primeira desenrola-se entre o séc. V e X e a segunda entre o séc. X e XV.

Durante a Alta Idade Média, dá-se um enorme fenómeno de regressão urbana e o despovoamento das cidades fundadas pelos romanos. Boa parte delas desaparece, tal Conímbriga ou Ammaia, entre outras. Tal como desapareceu a rede de povoados castrejos, que até então foi o modelo de povoamento mais adaptado aos povos recolectores-caçadores-pastores, mas que agora deixava de reunir condições para atrair novos povoadores trabalhadores da terra. O território recebe várias migrações e confronta-se constantemente com saques, invasões e outras convulsões militares: primeiro uma multiplicidade de invasões bárbaras e depois as invasões árabes. O cristianismo inicia a sua disseminação por todo o Ocidente. Com a mobilização e reorganização dos antigos nobres dos reinos Godos refugiados no norte das Astúrias, no séc. VIII, inicia-se a reconquista cristã, expulsando paulatinamente durante quatro séculos, para o norte de África, os infiéis sarracenos.

No séc. X inicia-se a Baixa Idade Média. O Mundo vive um regime demográfico primitivo, com elevadas taxas de natalidade e mortalidade, crescimento muito reduzido, contando então com uma população que rondaria os 300 milhões de almas. O território que hoje é Portugal tinha menos de meio milhão de habitantes. A esperança média de vida não ia além dos 25 anos. O terço mais a norte da Península Ibérica, encontrando-se relativamente pacificado, ficaram criadas todas as condições para o nascimento de um novo modelo de povoamento: AS ALDEIAS.

No tempo do aparecimento das aldeias, consolidam-se também os vários reinos medievais cristãos da Península Ibérica. “Trás-os-Montes, nem sequer precisou ser conquistado, porque aqui nasceu Portugal”.

Tal a lhéngua mirandesa, oriundas do latim popular, durantes vários séculos enriquecido por novas influências que o metamorfoseiam em “Caldo Romance Latino”, autonomizam-se, aprofundam-se, diferenciam-se e afirmam-se neste tempo, as várias línguas românicas peninsulares. A língua do rei era a língua da corte, portanto, por cada reino, apuraram-se do diverso “Caldo Romance Latino”, várias línguas diferenciadas, pese embora com múltiplos traços comuns, tal os muitos filhos de uma mesma mãe, são todas parecidas e todas diferentes: em fisionomia (morfologia), personalidade (sintaxe), haveres (léxico) e prestígio (oficialidade).

Dá-se, entretanto, um crescimento demográfico relevante, e, entre o ano 1000 e o ano 1347 (início da peste negra), a população europeia multiplica-se por três. É exatamente a meio deste período, em 1172, que numa doação feita por Dom Afonso Henriques ao cavaleiro Petro Menendiz, então conhecido pela alcunha “L Tiu”, por o ter ajudado nas suas lutas expansionistas contra os infiéis, que temos a primeira notícia onde se faz menção da “Terra de Miranda” enquanto circunscrição administrativa medieval, aparecendo igualmente pela primeira vez o nome de várias das nossas aldeias mirandesas: Palaçoulo, Algoso, São Pedro da Silva, Vilar Seco, Águas Vivas, Atenor e Turtulhas. Noutros documentos medievais contemporâneos e ligeiramente posteriores, todas as outras aldeias terão direito a notícia escrita.

Depois da queda do Império Romano, o Estado tinha perdido imenso peso e o financiamento da guerra deixou de ser feito com o dinheiro dos impostos, passando a ser financiada através da atribuição de terras e senhorios. O Feudalismo, enquanto sistema político, económico e social, instala-se. À classe social dos “servos da gleba” são distribuídas terras para arrotear e trabalhar, que apesar de serem homens livres, em caso algum as podem abandonar. Esses “servos da gleba” prestam vassalagem a um senhor a quem pagam imposto, sobretudo em força de trabalho (são eles que constituem a principal mão-de-obra que constrói os castelos e muralhas medievais) e géneros, organizando-se em pequenas aldeias e seus termos. Em troca recebem do seu senhor, segurança, proteção e pacificação militar do território, com possibilidade de se abrigarem e protegerem dentro do seu castelo em caso de escaramuças e guerreios.

Com o nascimento das aldeias, germina também a SOCIEDADE DO CAMPESINATO, baseada na economia de subsistência e no trabalho familiar. Processa-se uma imensa ruralização da sociedade. As cidades e o seu tipo de vida contraem-se, a cultura urbana e literária entra em declínio e perde significado enquanto estatuto social, sendo promovidos os valores ligados à família e ao parentesco, à lealdade, ao amanho da terra, à honra, ao temor e obediência canónica. Às crenças, adoração ao sol e ancestrais deuses pagãos dos velhos caçadores-recolectores-pastores, sucedem-lhe por inteiro o deus cristão com toda a panóplia hierarquizada dos respetivos santos. Em várias colinas e cimos ermos, são construídas pequenas capelas que se instalam no local de velhos locais de culto pagão, resacralizando-os.

No interior de cada aldeia existe pelo menos uma nascente de água comunitária, normalmente em forma de fonte de mergulho, que abastece parcamente a comunidade em água. São construídas em cada localidade uma igreja de estilo românico ou gótico, copiadas umas pelas outras, regularmente ampliadas e requalificadas, para darem resposta contínua ao crescimento dos paroquianos. Toda a população sem exceção era regida pelo seu pároco e devia praticar a fé cristã e seguir o calendário hagiológico (cada dia é dedicado a um santo e o ano desenrola-se subordinado a um conjunto de festas religiosas cristãs com maior ou menor importância anual): o Natal (solstício de inverno), a Páscoa (equinócio de primavera), os santos populares (solstício de verão), as santas das festas das colheitas – Senhora do Naso e da Ribeira (equinócio de outono).

O universo inteiro dos vivos é a aldeia de per si e o seu termo, totalmente referenciado por uma panóplia de topónimos que têm origens em aspetos muito diversificados: o relevo, a geologia, a qualidade do solo, a existência de água, a localização de atividades específicas, …. O universo dos mortos enterrados no cemitério da aldeia, reparte-se por três reinos diferenciados em função do bem ou mal praticado em vida: o reino dos infernos, o reino do purgatório e o reino dos céus.

Há uma reduzida circulação de pessoas e de moeda. Cada aldeia é autárcica, por isso, os campos do seu termo, devem dar-lhe autossuficiência energética, económica, social, alimentar e religiosa: praticamente nada entra e nada sai. Nada se compra e nada se vende. A carne de porco e as várias colheitas, são guardadas, conservadas e armazenadas para o ano inteiro: tudo é produzido para o consumo local e autossuficiência anual das famílias alargadas e seus animais. Quando o ano é de más colheitas e estas se acabam antes de tempo, passa-se fome e morre-se desnutrido. Há empobrecimento genético. O território é cada vez mais arroteado, desmatado, trabalhado, laborado, repartido e privatizado, dado as terras serem transmitidas em herança de pais para filhos.

O velho comunitarismo celta das sociedades agropastoris de antanho perde vigor, a atividade do amanho da terra sobrepõe-se à criação de gado extensiva. Dois grupos competidores no formato de exploração do território, entram em concorrência e conflito permanente: os pastores e os camponeses. Os primeiros, sem terra, são continuadores da ancestral sociedade agropastoril, necessitam do termo para apascentar os seus rebanhos, enquanto os segundos, proprietários, são os agentes de uma nova ordem económica e social, que necessita do termo para praticar as suas várias culturas e daí retirar o seu sustento. As terras pertencem-lhe, mas os rebanhos exercem imensa pressão de pastoreio sobre o território, invadem frequentemente as culturas, danificam-nas e comem-nas. Esta conflitualidade latente e permanente é aliviada pela construção de muros, pelo afolhamento do termo e pela existência de baldios comunitários remanescentes das sociedades agropastoris da Antiguidade celta, que ainda vão resistindo ao crescente arroteamento e divisão em glebas, tal as áreas mais montanhosas, as Arribas do Douro, as encostas íngremes dos vales encaixados de linhas de água e alguns espaços de floresta clímax, como a Trindade perto de Fonte Aldeia (Miranda), a envolvência das minas de santo Adrião (São Pedro de Miranda), ou o Romeu (Mirandela), que serviam para aprovisionamento comum em cortiça, lenha e mato. A propriedade privada trazida pelos romanos ganha todos os dias adeptos. A oliveira e a vinha têm grandes incrementos de plantio. O vinho além de ser a bebida fermentada que constituiu a droga social autorizada é o sangue de Cristo, o pão o corpo, todos os dias celebrados em eucaristia sagrada. O azeite para lá de assumir uma crescente importância na alimentação, é também o óleo sagrado que arde permanentemente na lamparina do altar-mor de cada igreja. Os cereais, o centeio e o trigo, ocupam a maior parte dos solos aráveis. São construídos “cerrados” (lameiros), “enclausures” (prados murados), para receberem o gado vacum mais exigente em trato.

A paisagem, paulatinamente, dada a necessidade de uma elevada multiplicidade de culturas para a sobrevivência da comunidade aldeã, transforma-se num mosaico policromático rico e diverso, que alimenta uma flora e fauna selvagens que estabelecem relações estreitas de grande interação com as várias culturas praticadas pela comunidade aldeã.

Apesar de ser dada continuidade aos rituais e crenças pagãs mais arreigadas, instala-se paulatinamente a tradição dos ritos cristãos, que muitas vezes integram, absorvem e readaptam os ancestrais rituais pagãos. O compassar das estações do ano, dita o tempo que passa, desenrolando-se de forma circular. Cada novo ano começa com as sementeiras e acaba com as colheitas, para recomeçar incessantemente a cada nova resolução que a Terra completa à volta do Sol.

Incrementa-se e densifica-se uma complexa relação de parentescos, familiares e extrafamiliares, que regem de forma muito eficaz, as relações sociais dentro da comunidade camponesa aldeã. Os laços do parentesco de sangue declinam-se até ao quarto e quinto grau, mas mesmo assim criam-se novos laços de parentesco que pressupõem o enriquecimento da entreajuda nos trabalhos do campo e o apaziguamento da conflitualidade social da comunidade: os sogros, genros e noras; os compadres e comadres; os padrinhos e madrinhas; os enteados e enteadas; os mordomos de santos são companheiros e companheiras, os da mesma idade são praças, os do mesmo nome tocaios, as confrarias e congregações dos santos produzem irmãos e confrades.

A aldeia produziu os seus próprios artesãos e outras profissões especializadas, que são exercidas em acumulação com os trabalhos do campo: carpinteiros, pedreiros, canteiros, ferreiros, sapateiros, ferradores, tecedeiras, alfaiates, latoeiros, albardeiros, oleiros, barbeiros, tanoeiros, cardadores, boteiros (odreiros), cesteiros, escrinheiros, outros taberneiros, alcoviteiras, curandeiros, bruxos e adivinhos. Pelo menos nas aldeias mirandesas, até ao fim dos anos 70 do séc. XX, boa parte dos serviços prestados por estes artesãos, conjuntamente com os serviços do padre, eram pagos anualmente em género, nomeadamente cereal. A cultura folclórica é disseminada pelos trovadores, outros saltimbancos e aleijados, que percorrem as terras de forma nómada.

Podemos falar de uma sociedade sem luxo e sem lixo, dado não existir acesso ao bem-estar e infraestruturas básicas, mas onde tudo era completamente reciclado e incorporado na cadeia produtiva. A energia para o aquecimento, a confeção das refeições e iluminação era sobretudo de origem vegetal: lenha, carvão vegetal, azeite e sebo animal.

A força de trabalho era fornecida pelo conjunto dos braços da família alargada e pelos animais de carga e tração: burros, vacas, mulas e raros cavalos. A rede de caminhos era radial concêntrica, sobretudo estruturada em função das necessidades de acessos ao trabalho dos campos do termo e às aldeias contíguas. A tecnologia, alfaias e artefactos utilizados para trabalhar a terra era a que tinha sido transferida pelos romanos e árabes: o carro de vacas, o arado, o tear, a nora, a cegonha ou picota. Os fertilizantes utilizados provinham da compostagem do estrume fermentado dos vários animais de trabalho e pastoreio, assim como da compostagem de palha e mato que era recolhido, utilizado nas camas dos animais, na juncagem das igrejas, nas ruas enlameadas da aldeia e caminhos vicinais.

A alimentação era baseada quase exclusivamente na produção local: cereal de trigo e centeio; castanha e bolota; alguns legumes da horta; frutas da época e alguns frutos secos; carne de porco salgada e conservada em enchidos, vaca, ovinos, caprinos, galinhas, ovos, patos, perus, coelhos e alguma caça; queijo e leite de vaca, de ovelha e cabra. Muito mais tarde, os almocreves trazem algum peixe salgado e seco: bacalhau, polvo, sardinha e outros peixes em barrica e salmoura.

Entre o séc. X e o séc. XV, o sistema de povoamento das aldeias estrutura-se, cresce, densifica-se e aprofunda-se, mormente durante os reinados de Dom Sancho I o “Povoador”, Dom Afonso III, Dom Dinis e Dom Fernando I, que em 1375 promulga a “Lei das Sesmarias”, fixando os trabalhadores rurais às terras para reduzir o despovoamento, obrigando os proprietários a cultivar as terras mediante pena de expropriação. A atribuição de cartas de foral, cartas de couto (a ordens religiosas e militares) e a criação de coutos de homiziados (Miranda), sobretudo nas áreas remotas de fronteira, que acolhiam criminosos, libertando-os das penas em que tivessem incorrido, muito contribuíram para o fortalecimento da rede remota de aldeias. Existia uma necessidade absoluta em povoar todo o território até às fronteiras, para que não existissem terras de ninguém, para não comprometer a hegemonia do reino em consolidação.

Na diversidade do espaço e tempo europeus, embora haja uma multiplicidade grande no tipo de evolução e amadurecimento deste paradigma de povoamento, no séc. XV, com os alvores da Idade Moderna, começam a desenhar-se os primeiros sinais de fadiga deste modelo, dado que a possibilidade de continuar sempre a distribuir e arrotear mais e mais terras, se esfalfava. Por seu lado, o lento, mas regular crescimento demográfico, foi sendo periodicamente resfriado e corrigido pelas muitas pestes e outras pandemias ocorridas, que assim regulavam a capacidade de carga do território naquele modelo de exploração, assim como a população que cada termo das aldeias podia alimentar.

Mudada a capital do reino desde 1255 para Lisboa, sobretudo a partir dos meados do séc. XIV, em detrimento do desenvolvimento territorial do reino já com fronteiras bem estabilizadas, são-nos voltadas as costas, e, com a ajuda dos dinheiros da burguesia endinheirada, o grande objetivo de Portugal, passa a ser a imensa empresa da expansão marítima, que para o efeito, começa a extorquir recursos demográficos das aldeias para embarcarem nas naus. Dom Afonso V toma mesmo o cognome de “Africano”, dado o interesse e esforço que faz para descobrir e conquistar praças nesse continente.

No começo do séc. XVI, com Dom Manuel I, atinge-se o apogeu do Império Português. Descobre-se o caminho marítimo para a Índia (1498), o Brasil (1500), conquista-se Goa e Malaca (1510). Mais tarde, trazidos das Américas, a rede de aldeias enriquece a sua alimentação com produtos como a batata, o tomate, o feijão, o pimento, as abóboras, …, mas volta de novo a ser solicitada para ceder população destinada ao povoamento dos novos territórios ultramarinos. O mundo, apesar de ainda se manter num regime demográfico primitivo com elevadas taxas de fertilidade e mortalidade, com crescimento lento, conta agora com uma população que ronda os 700 milhões de habitantes. Portugal já tinha mais de 1 milhão de habitantes.

Inicia-se neste século a mundialização, onde as trocas e o comércio mundial atinge fluxos nunca antes pensados. A partir de então, o pressuposto central da autarcia, onde nada entrava e nada saía, nada se comprava e nada se vendia, que norteou o nascimento da rede de aldeias, inverte-se totalmente. O mundo iniciou uma nova era: a partir de agora, tudo entra e tudo sai. Tudo se compra e tudo se vende. Para evacuar alguns excedentes da produção camponesa e para abastecimento em produtos vindos do exterior da aldeia, é criada a partir de então uma densa rede de feiras que tinha datas certas a nível mensal e anual.

Num país que pouco sentiu as grandes transformações que trouxe consigo a Revolução Industrial do séc. XVIII, em que os métodos de produção artesanais são substituídos pelas cadeias de maquinaria, pelo menos na Terra de Miranda, para a rede de aldeias e para a Sociedade Camponesa, este fado de crescente abandono continua até meados do séc. XX, prolongando-se em Trás-os-Montes a Idade Média, mais quinhentos anos que no resto da Europa. Inicia-se a revolução demográfica, com elevadas taxas de natalidade e redução das taxas de mortalidade, com mais rápido incremento do crescimento populacional. Pela primeira vez o mundo conta com mais de 1000 milhões de almas e a esperança média de vida estica até os 40 anos. Portugal conta agora com uma população de pouco mais de 2 milhões de habitantes.

À Revolução Industrial, vem somar-se o Capitalismo: sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, onde toda a produção se destina ao mercado para obtenção de fins lucrativos. Tudo se compra e tudo se vende. As características centrais deste sistema incluem, além da propriedade privada, a acumulação de capital, o trabalho assalariado pago em dinheiro, a troca voluntária, um sistema de preços e mercados competitivos. Numa economia aberta de mercado, a tomada de decisões e o investimento são determinados pelos proprietários dos fatores de produção nos mercados financeiros e de capitais, enquanto os preços e a distribuição de bens são principalmente determinados pela concorrência no mercado. A circulação de moeda e pessoas é global. Lentamente, extinguem-se os artesãos e as manualidades.

Durante o período do Estado Novo, Portugal é uma ditadura que se fecha comercial e politicamente. Deus, Pátria e família, é o lema propagandeado pelo regime, que traz de volta a apologia do rural com todos os seus ancestrais valores. Em meados do séc. XX, dá-se a explosão demográfica global: as taxas de natalidade são altas e as taxas de mortalidade baixas. O crescimento demográfico é exponencial. O mundo conta agora com 3000 milhões de habitantes. Portugal ronda os 8,5 milhões de habitantes. Em 1970 a esperança média de vida é de 70 anos. A extrema pobreza ainda grassa nas aldeias abandonadas a si mesmas, mas o crescimento demográfico permitido pela quebra da mortalidade, faz com que as aldeias sejam obrigadas a libertar grandes contingentes populacionais para as migrações clandestinas: primeiro para as Américas, depois para a Europa e colónias ultramarinas, e, por fim, para as áreas metropolitanas do nosso litoral.

O Estado Novo desenvolve várias tentativas para transformar o país numa aldeia autárcica e autossuficiente. Além da difusão do cooperativismo em vários setores agrícolas, a medida que teve maior impacto, são as “campanhas do trigo”, levadas a cabo entre 1929 e 1960. O mercado global não entra em Portugal, a produção de trigo é subsidiada de forma a compensar a reduzida produtividade. São utilizadas novas sementes. Recorre-se pela primeira vez à utilização generalizada de adubos químicos e são instalados celeiros centrais por todo o país. Dá-se uma mecanização crescente da produção. A Sociedade Agrícola vem substituir a Sociedade Camponesa. O setor agrícola continua a libertar imensa população ativa para o setor industrial e dos serviços. Os combustíveis fosseis substituem todas as outras fontes clássicas de energia. As dependências externas das aldeias agravam-se. Os solos sofrem imensa pressão e depauperam-se. As várias vias-férreas drenam a produção para os sítios de consumo e trazem adubos importados do Chile. As avultadas remessas de divisas enviadas pelos emigrantes, mantêm a rede de aldeias sob perfusão e alimentam os cuidados continuados. A maior parte dessas remessas são orientadas para a construção de casa nova e não para o fomento de negócios. O núcleo original aglomerado das aldeias com casas juntinhas construídas com materiais autóctones degrada-se e erma-se, mas o seu perímetro alarga-se imenso e explode de casas novas dispersas, construídas em grande parte com materiais alóctones. Alguns fenómenos localizados de instalação de grandes investimentos extrativos, tal algumas minas ou as barragens do Douro Internacional, trazem muita mão de obra assalariada, mas que depressa se vai embora, dado o fecho das explorações ou o término das obras.

A democracia implantada com o 25 de abril de 1974, refunda o poder local democrático das freguesias e sobretudo dos municípios. Com o aprofundar e estabilização do poder local, sobretudo os municípios do interior, passam desde então a fagocitar-se, a tentar cada um de per si obter mais influência, a digladiar -se pelas pargas migalhas que vão recebendo. A Administração Central de Lisboa e Porto divide para reinar. As aldeias acolhem muitos dos setecentos mil retornados das ex-colónias que retonificam a sua dinâmica. A grande generalidade das aldeias acede à infraestruturação básica: eletricidade, água canalisada, esgotos, arruamentos, acessibilidades, telefone, cuidados de saúde primários. O aumento da escolaridade obrigatória, retira a juventude das aldeias cada vez mais cedo: primeiro para as sedes de concelho e distrito e depois para o litoral onde estão implantados os centros universitários que os acolhem. Só a partir de 1980 o interior pode ofertar ensino superior universitário, sobretudo através do Ensino Superior Politécnico. Quanto mais os jovens estudam, menos possibilidades têm de voltar a instalar-se nas suas aldeias de nascimento. Sem jovens, a fertilidade demográfica das aldeias cai a pique. A típica pirâmide demográfica de base alargada e cimo pontiagudo, transformou-se numa urna: base quase inexistente e o cimo tremendamente engrossado!

Em 1986 Portugal adere à União Europeia. Temos agora duas capitais que, ainda mais longe, decidem a nossa vida: Lisboa e Bruxelas. Passamos a receber grandes remessas de ajudas financeiras destinadas ao mundo rural e às aldeias. Chega mais maquinaria pesada e moderna vendida pelos países desenvolvidos da Europa Central. Durante mil anos, o continuado fracionamento da propriedade, transformou os termos numa miríade de minifúndios, que agora condicionam uma verdadeira mecanização e modernização da atividade agrícola. A dependência externa das aldeias continua a agravar-se. Os subsídios vieram para ficar, ocupando o papel que tinham desempenhado as remessas de emigrantes.

O setor social, as Câmaras Municipais e os organismos descentralizados do Estado, são dos poucos empregadores. O setor agrícola representa menos de 5% da população ativa. Ficam sobretudo aqueles que não seguiram os estudos até ao fim. A transmissão dos saberes no cultivo da terra, deixa de fazer-se de pais para filhos. A escola e a formação profissional desempenham esse papel. A paisagem agrícola e o tipo de culturas praticadas sofrem uma revolução. O modelo extrativo praticado em relação às aldeias e seus territórios, primeiro pelos senhores feudais, a seguir pelo Estado Central de Lisboa e depois pela União Europeia de Bruxelas, mantem-se intacto e ad aeternum.

Portugal equipou-se com uma rede de autoestradas, IPs e ICs, que, como em todo o lado, levam e trazem. Num país retangular com apenas 200 Km de largura, grosso modo, uma faixa litoral de 30 Km, concentra 80% da população portuguesa, 90% dos fluxos turísticos, 90% da oferta em Ensino Superior, 80% da economia, do tecido empresarial e da criação de riqueza. No tempo da globalização e dos serviços, as cidades afirmam-se como o modelo de povoamento mais habilitado e preferido das populações. Os saberes académicos, a cultura e o trabalho no setor dos serviços, ganham cada vez mais prestígio social em detrimento da cultura da terra e da família. Uns vivem nas aldeias, outros nas cidades, mas todos somos urbanos por igual. Primeiro a rádio, de seguida a televisão e depois a internet, harmonizou os saberes, a cultura, os costumes, os gostos, as rotinas, a alimentação, o modo de vida, a língua. O calendário hagiológico e as festas dos santos perderam toda a vitalidade. Numa República Laica como a portuguesa, sobretudo no interior, ainda se mantêm imensas bolsas com relações de conivência e compadrio político-religioso medieval, mas mesmo assim, a clientela das celebrações litúrgicas e eucarísticas, envelheceu tremendamente, e, as igrejas, esvaziam-se mais e mais a cada dia que passa. A sua musealização e aculturação está em marcha. Muitas capelas em ruínas e mosteiros abandonados, através de programas variados, são alvo de requalificação para equipamentos turísticos e culturais. Os festivais temáticos com os artistas que vêm de fora, as feiras de produtos da terra com os artistas que vêm de fora, as feiras medievais com os artistas que vêm de fora, as sunset feast com os artistas que vêm de fora, outras fests e celebrações com os artistas que vêm de fora, afirmam-se como o novo paradigma festivo. Por variadíssimas razões, a vocação sacerdotal também entrou em colapso total, porque as paróquias aldeãs eram o principal emissor de jovens para os seminários e depois o destino dos sacerdotes formados, e agora também este modelo de povoamento aldeão entrou em colapso total.

Apesar de atualmente a Europa e Portugal perderem população, no começo do III milénio, no ano de 2010, o mundo abarrota-se com 7000 milhões de habitantes, mais de 60% concentrada em áreas urbanas. Portugal atinge o seu pico populacional e conta com mais de 10,5 milhões de habitantes. A esperança média de vida ronda aqui os 80 anos. Extingue-se quase por completo a rede de feiras criadas no período medieval. A feira agora fica no hipermercado da sede de concelho, que propõe produtos do mundo inteiro, menos os produzidos localmente. As nossas aldeias nunca tiveram tantas casas novas, mas estão todas vazias. Sobram-lhe apenas os muito velhos, frágeis e sós, depositados em lares cinéreos que pululam por todo o lado.

Em 2012, a austeridade ditada pela Troica, desertificou ainda mais as aldeias, retirando-lhe a proximidade de várias instituições do Estado. A regionalização consignada na Constituição continua por cumprir e é totalmente condicionada por referendos que dependem dos votos das populações urbanas do litoral. Trás-os-Montes é o território mais subdesenvolvido da União Europeia e continua integrado numa região de convergência, onde, vá-se lá saber como, o Porto e a sua região metropolitana, também fazem parte. Há várias aldeias que já perderam o seu último morador. À custa da velocidade ganha com os combustíveis fosseis, o cultivo dos termos vai-se mantendo graças à agricultura de subsistência praticada a tempo parcial nos fins-de-semana, pelos mais de cinquenta anos, a quem se lhe corta o coração por abandonar a herança de cultivos e terras dos pais e avôs. A pastorícia extensiva está a dar os últimos suspiros. Os produtos e raças certificadas baseiam-se em pequenas produções artesanais e não conseguem preços de mercado que aportem rendimentos apetecíveis. Entretanto vão-nos entretendo com programas de apanha de cogumelos selvagens e outras pantominas. Com o despovoamento e a desertificação do território das aldeias, que se soma às alterações climáticas, a acumulação de material combustível nos termos é exponencial: quando faz calor, um território ermo só pode arder descontroladamente todos os dias, apesar da União Europeia comprar todos os dias mais e mais meios aéreos para os combater!

Desde o início dos anos 2000 que Portugal tem tido várias séries de anos com saldos migratórios positivos, mas as aldeias pouco ou nada têm beneficiado. Pelo contrário, os melhores dos seus jovens recém-formados, já nem sequer é Lisboa e o Porto que os captura, são literalmente extorquidos para contribuírem à criação de riqueza e avanço tecnológico dos países mais desenvolvidos da União Europeia, que lhe pagam mais, e, entretanto, Pedro Abrunhosa canta: “quero voltar para os braços da minha mãe”. Não será possível desenvolver atividades como o turismo rural, em aldeias idílicas plantadas no meio da natureza, mas totalmente desertas, sem que exista massa crítica para continuar as tradições que atraem os turistas e a quem estes tiram fotos como se estivessem num parque jurássico humano ao ar livre. Ouço muitas vezes visitantes espanhóis queixarem-se: “és que el pueblo está vacío. Nó hay gente”. Os antigos emigrantes dos idos anos 70 e 80 até teriam vontade de regressar, mas, entretanto, vão alimentando o negócio de uma panóplia de carrinhas táxi, que fazem viagens semanais regulares entre a sua casa na aldeia e a sua casa na Europa. Não podem abandonar a companhia dos filhos e netos que se instalaram e fizeram definitivamente vida no país que os viu nascer, lhes ensinou outra língua e os integrou. Por outro lado, “na maison do Portugal, tratar da santé, fica mais longe”! Nem sequer há “supermarché” nem café!

Não é possível voltar a povoar as aldeias como aconteceu com a “Lei das Sesmarias”, porque as pessoas são livres e não se podem obrigar a viver onde não o desejam, sobretudo onde o território tem índices de desenvolvimento muito precários e depauperados. O mercado de mão-de-obra na União Europeia é livre, e cada um, pode trabalhar onde mais lhe oferecem e onde mais deseja.

O Estado Português de Lisboa, ultimamente com a conivência de Bruxelas, paulatinamente, além de ter feito de Portugal uma carreira junto ao mar, fez do interior um conjunto de áreas classificadas e reservas ambientais. Ao longo de vários séculos, concentrou a população, as atividades produtivas e as instituições do Estado, apenas nas cidades do litoral, mormente em Lisboa e Porto. Criou então um país a duas velocidades, porque se alheou da parte interior e concentrou os investimentos continuados apenas na faixa litoral. Fez ainda melhor: selou e perpetuou este modelo, porque numa democracia, quem não tem população não tem votos, nem voz. Quem não tem votos nem voz, não interfere nos resultados eleitorais, nem influencia a definição das políticas públicas de investimento e desenvolvimento. Por outro lado, o novo modelo de povoamento urbano, mostra cada vez mais, os seus longos dentes de sabre, que são as suas imensas externalidades marginais negativas (poluição, acessibilidades, abastecimentos, crise habitacional, excluídos, crise energética), que, a todo o custo é obrigatório acudir, por aí viverem todos os eleitores. As várias opções têm sempre as suas consequências e os seus revezes.

Algumas tentativas têm sido pensadas para paliar o descalabro da morte dos nossos povoados: a “industrialização” de algumas aldeias com manufaturas de cariz artesanal, mas que não atraem nem fixam mão de obra qualificada, nem se rejuvenescem; a criação de redes de aldeias turísticas (aldeias de xisto, aldeias históricas, aldeias de Portugal, Geoparques, Rotas de tudo e não sei quê, classificações UNESCO, …). Mas os fluxos humanos e os resultados têm sido sempre parcos e não repõem os desfalques, nem equilibram os défices.

Depois da pandemia de 2020, o teletrabalho tem-se afigurado como uma solução para os novos povoadores, os nómadas digitais, que, durante uma parte do ano, prefeririam viver longe do inferno das cidades, mas as nossas redes de alta velocidade internet ainda não oferecem grande cobertura nem garantia. A eletricidade ainda falha demasiadas e inopinadas vezes. A oferta habitacional de qualidade não está disponível no mercado de arrendamento. Os organismos públicos que deveriam e poderiam encabeçar esse movimento pelo teletrabalho, têm imensa dificuldade em sair da rigidez dos antigos modelos de organização dos horários laborais presenciais. A digitalização e desmaterialização ainda nos doi imenso.

O modelo de povoamento das aldeias e a Sociedade do Campesinato, nasceu sob um conjunto de pressupostos que, um milénio passado, se inverteram integralmente. A nível global, até a Amazónia perde todas as suas comunidades ancestrais de indígenas! O grande problema é que esta nossa sociedade envelhecida sofre imenso de presbiopia, tem pequena capacidade de focagem, e tudo o que se lhe apresenta demasiado perto dos olhos, fica desfocado.

Os antropólogos, folcloristas e outros estudiosos da tradição, já muito tempo que andam a recolher material para que fique memória bastante, mas há sempre quem resista.

Ninguém merece morrer abandonado, mas durar mil anos não é para qualquer um.

Resta-nos a esperança dos cuidados paliativos serem de qualidade, porque todos merecem morrer em paz. Este modelo de povoamento das aldeias, talvez um dia, noutro século, noutro milénio qualquer, noutro formato, qual fénix que ressurge das próprias cinzas ainda mais resplandecente, volte de novo a reviver.

Não quero ser velho do restelo, não procuro resolver nada, nem sequer encontrar a vacina que cure este mal. Ainda não há remédio para o cancro e o das aldeias já está integralmente metastizado. Quis apenas falar como quem reza um longo desabafo que me oprime.

Não serei eu a atirar com a toalha ao chão, mas o chão irá puxar-nos por ela todos os dias, extorquindo-nos os últimos filhos queridos para longe!

Boa parte das aldeias poderão não se salvar, mas que o Interior de Portugal tem soluções e é viável, disso não tenho a mínima dúvida: basta haver vontade a sério. A discussão sobre as soluções, faz-se muito melhor, uma vez que se conhecem as causas.

Enquanto espero uma outra dimensão, leio o poema de Fracisco Niebro e “Deixo-me Quedar”.

 

Carlos Ferreira 2022

 

DEIXA-TE QUEDAR (mirandés)

DEIXA-TE FICAR (português)

 

Deixa-te quedar

alheno al tiempo angurriado:

guarda las ambuças de berano

adonde tous claros uolhos bében

i nien selombra de rumiacos bulhe.

 

Amadurórun tous fruitos

cun pencinos filados sien telar:

áspara ye la seda cun que l crecer se biste.

Çpon-se l outonho i nas brigadas

inda relhúzen falsos ls trampos.

 

Apedura l segredo

cun q’anfrisgas l sol pulas

jinelas adonde s’apláquia l delor

de suonhos a que podeste pítulas i canhos

cumo s’angrola l pan de las rabeiras.

 

Deixa te quedar

até que spérten las semientes

que s’arramórun pulas manhanas que scabeste

anquanto zgrílan an tue huorta dies que bálen anhos

i tue risa angolhida aceinha ua çpedida mansa.

 

Poniste madrugadas

an colgadeiros de passos i mirares

cordones de necras anféitan tous pardones

i chóran patrielhas de ls galhos que aspéran

la poda cun que sonhabas nius i mundos.

 

Yá nun percisas d’aguçar

dies pa sbarrenar peinhas de pan:

ampalpa l oulor que l’aire trai nas benas

squece l acarreio ambelesado an lhargas séstias

i acende cabeços anfenitos an tous calhados uolhos.

 

Deixa te quedar,

yá tenes de sobra mundos i caminos

muita calor creciu nas adiladas

sacamos nós la carga angrimos carreirones

mas tu queda até que l

puial se buolba calho.

 

 

Deixa-te ficar

alheio ao tempo enrugado:

mantém as mãos-cheias de verão

onde teus claros olhos bebem

e nem sombra de algas se movem.

 

Amadureceram os teus frutos

com pedúnculos fiados sem tear:

áspera é a seda com que o crescer se veste.

Põe-se o outono e nos abrigos

ainda brilham falsas as colheitas.

 

Frui o segredo

com que enfias o sol pelas

janelas onde se acalma a dor

de sonhos a que podaste renovos e ramos

como se engrola o pão fingido.

 

Deixa-te ficar

até que acordem as sementes

que se espalharam pelas manhãs que escavaste

enquanto brotam na tua horta dias que valem anos

e o teu riso engolido acena uma despedida mansa.

 

Plantaste madrugadas

Penduradas em passos e olhares

cordões de pedrinhas enfeitam teus muros

e choram líquenes dos galhos que esperam

a poda com que sonhavas ninhos e mundos.

 

Já não precisas afiar

dias para rebentar penedos de pão:

apalpa o cheiro que o ar traz nas veias

esquece o acarrejo sonolento em amplas sestas

e acende colinas infinitas em teus calados olhos.

 

Deixa-te ficar

já te sobram mundos e caminhos

muito calor cresceu nos pousios

sacamos nós a carga ajustamos carreiros

mas tu fica até que o

poial se vire calo.

 

 

Pintura de Pieter Bruegel o “Novo” - Aldeia: paisagem com camponeses


Partilhar:

+ Crónicas