Luis Ferreira

Luis Ferreira

Um namoro especial

Todos os anos e já lá vão uns séculos, comemoramos o dia de S. Valentim, que não tendo namorada, ficou como o padroeiro dos namorados, ou algo semelhante. Na realidade, nada tinha de santo, mas o destino sacrificou-o e facilmente foi elevado a essa categoria.

É facto que hoje muitos são os que são sacrificados pelo destino e não se tornam santos e ainda bem, pois se o fossem, haveria mais santos que laicos ou algo assim. Afinal, tudo depende do facto sobre o qual impende o julgamento que os absolve ou os condena.

Mas voltando ao dia de S. Valentim, o que é realidade é a aproximação que se verifica entre os casais, sejam namorados ou casados, que acorrem a festejar o dia e a relação. O namoro reacende-se nesse dia e tudo se prepara para uma comemoração íntima que se efetiva num almoço ou num jantar a dois. É o reviver, o efetivar ou consumar uma relação que se deseja duradoura e feliz. O dia passou e todos comemorámos como pudemos na esperança de que para o próximo ano voltemos a festejar e a prometer continuarmos o trilho da confiança, do amor, da felicidade e do quanto mais melhor.

Mas não se pense que o dia de S. Valentim só se aplica aos que deambulam pela rua de mãos dadas, abraçados, mostrando a sua felicidade a todos quantos por eles passam. Nada escondem e nada temem. Não. De facto não é preciso esperar pelo dia de S. Valentim para namorar ou pedir alguém em namoro. O comprometimento surge quando é necessário e quando há entendimento das partes interessadas. Quando isso não acontece, andam um atrás do outro e não chegam a vias de facto. E este tipo de namoro descomprometido pode durar meses ou anos sem que haja entendimento. Porquê? Simplesmente porque não pontos comuns que consigam unir os interessados. Não há confiança. Não há cimento para os unir. Isto acontece nos nossos governantes. Curioso? Não.

Na realidade quando as eleições deram o resultado que conhecemos, já antes tínhamos assistido a um pedido de compromisso da coligação ao partido socilalista. Este não quis e foi pedir namoro a quem se andava a oferecer, mesmo sabendo que a diferença entre ambos era enorme. Mas o que interessava era atingir determinados objectivos e os meios não estavam em discussão.

A verdade é que o governo foi formado e o partido socialista está onde queria e de mãos dadas com os namorados ocasionais que serviram os seus interesses, mas não os de S. Valentim. Contudo, nessa altura a coligação governativa anterior logo informou que não queria nenhum comprometimento mais tarde com o partido socialista, quando o namoro entre os de esquerda se desfizesse. E também todos vaticinámos que a duração do namoro seria curta, ou seja, não duraria um mandato.

Pois, quatro meses depois, as coisas estão a complicar-se. Esqueceram-se de que para um namoro ser efetivo é preciso ser apadrinhado por quem tem interesses mais altos e neste caso não é o S. Valentim nem o pai ou a mão de qualquer um dos envolvidos. É quem os obriga a cumprir as regras de boa convivência, do comprometimento e do respeito, ainda que perto da subserviência. Bruxelas será a madrasta, ou o padrasto a quem têm de pedir licença para continuar o namoro e se as regras que se quebrarem, o namoro fica altamente comprometido.

O que se está a verificar no momento presente é precisamente o oposto do que Costa pretendia. O mesmo é dizer que, mesmo sabendo os riscos que corria neste namoro a três, ou quatro, não quis retroceder e aceitar a mão de quem lha estendia com segurança. Hoje vê-se confrontado com as exigências de Bruxelas e com as de quem com ele se associaram. E são verdadeiras. Não há volta a dar. Ou se cumpre, ou não se cumpre e a segunda determina o fim da coligação parlamentar.

Ora a pensar nesse desenlace, Costa já estendeu a mão ao PSD, como que a pedir um namoro antecipado, pedindo-lhe que considere essa aproximação em nome de uma estabilidade que se deseja urgentemente. Perante um Orçamento inseguro e desacertado que não agrada à esquerda e que já acenou a bandeira de aviso, Costa tremeu e veio a terreiro pedir consensos a quem os tinha oferecido e que ele recusou, talvez porque não gostou da cor dos olhos da namorada!! Enfim.

Hoje e perante tal panorama, Costa está um pouco perdido além de extremamente comprometido e o pedido de namoro a que se submeteu teve como resposta um Não redondo, tal como o que ele tinha dado. Não é uma questão de revanchismo certamente, mas é o corolário de um sistema cada vez mais complicado e que é preciso resolver.

Perante tais desígnios, qual será o desenlace? Acaba-se um namoro e inicia-se outro ou será que a infidelidade vai entrar pela porta grande e desestabilizar todo o sistema? Já conhecemos os jogos de cintura que Costa é capaz de fazer e por isso não será de admirar que acabe por arvorar alguma infidelidade nos namoros com a esperança de que nenhum dos namorados se atreva a negar a relação.

E se assim for, valha-nos S. Valentim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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