Parti de Bragança há já catorze anos. É o destino partilhado por tantos brigantinos que, nascidos aqui, foram procurar noutras paragens aquilo que a sua terra não lhes pôde oferecer. Nem todos os anos regresso, nem sempre agosto me traz de volta às Festas da Cidade, mas, quando o faço, encontro nelas aquilo que sempre representaram para tantos de nós, o pretexto e o palco do reencontro, o momento em que uma comunidade dispersa pelo país e pelo mundo se reencontra, por alguns dias, na terra que continua a ser sua.
Numa terra historicamente marcada pela emigração, agosto é o mês em que a geografia humana de Bragança volta, por breves semanas, a aproximar-se da sua geografia afetiva. As Festas são parte desse reencontro e a sua organização nunca constituiu, por isso, um assunto menor para o Município.
Tratando-se este ano das primeiras Festas organizadas pelo executivo socialista em quase três décadas, era natural que suscitassem particular curiosidade. Que marca deixaria um executivo que se apresentou ao eleitorado prometendo fazer mais, fazer melhor e fazer diferente? Que inovação introduziria, a menos de um ano de mandato, num programa que durante tantos anos fora pensado e executado por executivos social-democratas?
A resposta parece ter ficado aquém das expectativas. A estrutura fundamental do programa manteve-se praticamente inalterada relativamente aos anos anteriores e a principal novidade consistiu no alargamento do número de dias de festejos. Citando o ex-líder do Governo a que pertenceu a nossa atual edil, António Costa, noutro contexto e noutra época: foi pouquexinho!
Comentou-se, e não por poucos, uma menor adesão do público às diversas iniciativas. Naturalmente que não está em causa formular juízos sobre a qualidade artística de quem atuou, já que tais juízos seriam sempre altamente subjetivos. O que está em causa é a capacidade de um cartaz gerar expectativas, mobilizar diferentes públicos e transformar cada noite num acontecimento capaz de trazer as pessoas à cidade.
Fica por saber se a opção de alargar a duração das Festas não terá produzido o efeito paradoxal de a mais dias no calendário corresponder uma menor intensidade em cada um deles. Se assim tiver sido, talvez tivesse sido preferível concentrar recursos num programa mais curto, mas mais ambicioso e mais mobilizador. Como seguramente qualquer pessoa compreenderá, as Festas da Cidade não se medem pelo número de dias que ocupam no calendário, mas pela capacidade que tem de mobilizar cidadãos e turistas.
Ao desapontamento com o programa somou-se um outro, relacionado com o espetáculo pirotécnico da tradicional «noite do arraial». Foram várias as manifestações de desilusão que ouvi no final. Não passou igualmente despercebida a coincidência entre as cores predominantes do espetáculo e aquelas que há cerca de um ano se destacavam na campanha autárquica socialista.
A surpresa aumentou quando, terminado o fogo, a própria Presidente da Câmara subiu ao palco para apresentar o momento musical que se seguiu. O gesto, invulgar no contexto institucional, não pode deixar de suscitar a seguinte questão: onde termina a legítima representação do Município e onde começa a personalização da comunicação institucional em torno de quem, circunstancialmente, preside aos seus destinos?
As Festas da Cidade pertencem à cidade! Não pertencem ao executivo que em cada momento governa o Município, nem podem constituir instrumento de promoção pessoal de quem exerce transitoriamente o poder municipal. A personalização do poder e a excessiva exposição dos seus titulares são práticas que a tradição política em que se inscreve o atual executivo sempre afirmou combater quando as reconheceu noutros grupos, movimentos ou partidos. É, por isso, particularmente contraditório vê-las agora reproduzidas em Bragança, sob o mandato autárquico socialista.
Seria, porém, um erro reduzir a atual reflexão sobre as Festas deste ano a um cartaz pouco mobilizador, a um fogo de artifício dececionante ou à subida da Presidente da Câmara a um palco. A questão essencial é necessariamente outra.
As Festas da Cidade de Bragança são um momento privilegiado de convívio e de reencontro de uma comunidade que é muito maior do que a população que aqui reside durante todo o ano. A comunidade brigantina vive em Lisboa, no Porto, em França, na Suíça, no Luxemburgo e em tantos outros lugares para onde sucessivas gerações tiveram de partir. Durante alguns dias de agosto, uma parte significativa dessa comunidade regressa a casa.
Perder a capacidade de mobilizar essas pessoas significa perder muito mais do que público numa noite de concertos. Significa desperdiçar uma oportunidade de reforçar os vínculos dos brigantinos entre si e com este território. Significa também enfraquecer a projeção de Bragança enquanto capital de distrito e desperdiçar a possibilidade de atrair visitantes de outros concelhos, de outras regiões e da vizinha Espanha, com o consequente impacto na restauração, na hotelaria, no comércio e na economia local.
Importa, por isso, que as Festas da Cidade voltem a ser pensadas e valorizadas na medida exacta da sua importância, como a celebração de uma identidade comum, como espaço de reencontro dos brigantinos, como instrumento de promoção externa do concelho e como fator de dinamização da economia local.
Mais dias não significam necessariamente mais festa. E Bragança merece festas à altura do seu nome.