Luis Ferreira

Luis Ferreira

Portão aberto à liberdade

Se a liberdade se conquistasse com a simples passagem de um portão ou uma porta aberta à nossa curiosidade e apetência, não faltaria quem quisesse tentar passar. Mas não. Não é assim tão fácil e não existe nenhuma porta secreta que dê acesso à liberdade.

Na verdade, a passagem para a liberdade está sempre condicionada por obstáculos enormes, quase intransponíveis, que nos impedem ir muito além do desejável. É facto que neste momento tão condicionante da liberdade de todos nós, muitos aspiram ansiosamente à liberdade que perderam ou mesmo a uma liberdade que lhes permita “movimentar-se”.

Com a chegada de tempos mais claros e quentes e, por isso convidativos a essa movimentação, iniciaram-se já intenções de ir para lugares onde alguma dessa liberdade seja conseguida. Sempre que o Verão se aproxima e as férias se tornam realidades não dispensáveis, todos querem aproveitar ao máximo esse período de descanso, para recarregar energias para o resto do ano. Falta passar o tal portão.

Mas o tempo não é de facilidades. Apesar de os números de contágios de Covid19, de internamentos e de óbitos estejam a melhorar, isso não pode significar que o portão está aberto para uma liberdade sem limites. De modo algum. É certo que as praias portugueses, sedentas de gente a calcorrear as areias peregrinas, não se foram embora e continuam, à espera das enchentes de outrora que parecem não voltar tão cedo. Temos de aguardar mais um pouco.

A sensação de liberdade que o mar e a areia imensa nos dão, são relevantes e demasiado importantes para todos nós, mas não se pode escancarar o portão e passar além sem contenção. Comedimento e sensatez são regras a seguir para chegar à tal liberdade. As praias da esperança de uma liberdade sem limites já não pertencem a estes tempos de pandemia. Só de for com vista a um novo confinamento indesejável.

Na realidade, a procura de lugares exóticos e praias idílicas de águas quentes e sol escaldante, já começou e as nossas estão entre muitas das procuradas. Os ingleses buscam rapidamente ocupar o Algarve tão desejado e os hoteleiros e comerciantes da região estão ansiosos por esse momento para reverter a situação económica tão depreciada que os últimos meses trouxeram. Poucos equacionam o perigo que isso possa trazer já que os números de contágio podem aumentar exponencialmente em pouco tempo. Era bom que assim não acontecesse. Para isso o governo já decretou que o modo de procedimento nas praias deverá ser o mesmo do ano anterior. Usemos máscaras, atenção ao semáforo e ao distanciamento que será bem medido.

Do mesmo modo os organizadores de eventos, sejam eles festivais ao ar livre ou outros em recintos fechados, anseiam pela mesma liberdade de atuação com o mesmo objetivo. Mas, segundo parece, ainda não vai ser este Verão que os tais festivais terão lugar, pelo menos na forma a que nos habituaram. Essa liberdade ainda está longe de acontecer. Com todos estes requisitos que condicionam a liberdade de todos nós, só temos de nos conformar com a pouca que conseguirmos ter, para que amanhã ela seja bem maior e nos permita ter menos receio de abraçar os nossos amigos e de conviver juntos sem ter de contar quantos somos nesta mesa.

Dito assim, o portão da liberdade, embora parecendo largo, ele é bem estreito e não pode abrir demasiado porque a passagem para o outro lado pode trazer consequências que abortam completamente a liberdade de quem passar e de quem já está na outra banda. Infelizmente, mais de dezassete mil libertaram-se sem querer desta realidade assustadora que a todos afeta. Nada se pôde fazer para evitar tal conquista de liberdade, que não foi procurada nem desejada por ninguém. Passaram o portão sem querer. Ganharam uma liberdade que não queriam e de que nada lhes serve. Outros ficaram presos do lado de cá, desejando não passar. Essa liberdade não se quer, não se deseja, não se ambiciona.

Dentro de alguns dias começa a época balnear e a corrida para as praias na ânsia de desfrutar tempo de lazer na maior alegria e liberdade. É bom não esquecer os condicionalismos que a isso nos obriga o tal bichinho que por aí se passeia e não se mostra a ninguém. As vacinas que já muitos tomaram, podem não ser suficientes para o travar. Imaginem pois, o portão enorme e escancarado que à vossa frente se abre, convidativo e enganador, e não mergulhem na insensatez de conquistar a liberdade do momento. A passagem pode ser dolorosa.

Seja como for, em julho e agosto haverá uma invasão a sul e só esperamos todos certamente, que ela não nos obrigue a novo confinamento. Isso seria o fim do tal portão aberto para a liberdade.


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