Luis Ferreira

Luis Ferreira

Por trás da corrupção

Acabou-se a corrida para as eleições europeias. Quem ganhou? O PS? O PSD? Quem subiu e quem desceu? Será que é isso que mais interessa?

É evidente que todos os partidos fizeram o seu trabalho e todos quiseram melhorar os seus scores eleitorais e vangloriar-se de seguida pelos resultados obtidos. Vã presunção de vitória! Uns desceram e outros nem conseguiram deputados para a Europa. Mas, na verdade, há muito mais do que isso para analisar, para criticar, para conhecer e até acabar. Claro que os portugueses votaram, não tantos como deveria ser, mas cumpriram o seu dever, embora a maior parte não tenha pensado verdadeiramente na Europa e no Parlamento Europeu. Votaram.

Para trás ficou por instantes, a falta de honestidade de alguns, os interesses de outros e o azar de muitos a par da sorte de outros tantos. Os países europeus erguem-se cada vez mais contra a corrupção e os que a praticam. Os governos, elevam as vozes para criticar quem faz dela modo de ser e viver, elaboram leis que não são cumpridas ou que facilmente são contornáveis. Mas acabar com a corrupção é difícil.

No nosso país tão pequeno e com uma alma tão grande, ela é visível, palpável e, cada vez mais felizmente, perseguida e os que se aproveitam dela estão cada vez mais entre a espada e a parede. No entanto, com a lentidão da justiça, na maior parte das vezes, os arguidos acabam por ver os seus crimes prescreverem. Porquê? Porque os subterfúgios da lei assim o permitem. Recurso atrás de recurso, permite prolongar no tempo a justiça que não chega e deste modo, fazer crer a quem tem rabos de palha continuar na senda da ilegalidade, pensando que conseguirá escapar à justiça.

Lembremo-nos do que está a acontecer com Sócrates e comparemos com outros casos. Nuns os crimes prescreveram, noutros estão quase a prescrever de tantos recursos já terem feito e ainda noutros, a lentidão da justiça e a falta de meios, leva para a as calendas gregas uma decisão aceitável e justa.

A comunicação social ajuda a trazer à luz do dia alguns dos casos de corrupção, mas do mesmo modo, também quase leva à crucificação de alguns antes de o merecerem ou até de serem culpados. Há de tudo. O que é preciso é haver notícia bombásticas. A maior parte dos casos referem-se a elementos dos governos que passaram e outros referentes a interesses paralelos onde o governo direta ou indiretamente, também se envolve. Enfim, uma rede de corrupção onde vários se aproveitam dos portugueses para tirar dividendos para uns poucos. Afinal governar leva ou não à corrupção? Tudo indica que o poder corrompe ou faz corromper.

Alguns já julgados por esses delitos, como Sócrates, Vara, Pinho ou Salgado, são exemplos de todas as vertentes de julgamentos e de corrupção. Mas o caricato é que enquanto uns foram condenados e presos e estão a cumprir pena, outros do mesmo tempo, não foram ainda condenados ou presos e até aguardam sentença. Outros ainda, iniciaram os trâmites investigatórios que, pelo caminho que levam, demorarão a chegar a bom termo. Entretanto, o tempo passa e o esquecimento leva a um impasse e a uma vontade de julgamento cada vez menor. Com sorte, cai na prescrição uma vez mais.

Para esses arguidos, os recursos são a salvação. Por exemplo, Manuel Pinho depois de dois anos em prisão domiciliária na sua quinta de Braga, vê agora a sua sentença ser atribuída em dez anos de prisão efetiva. Diz que não é culpado e o seu advogado vai interpor recurso. Julgamento mal elaborado, provas não conclusivas, enfim, uma série de possíveis atenuantes segundo o advogado. Claro que o tempo vai passando. A esposa também arguida, levou quatro anos de prisão suspensa. Esta não deve requerer recurso. Está livre, pelo menos.

Salgado, há muito arguido, vê agora ser condenado a seis anos de prisão efetiva. Mais um recurso, pois o Alzeimer de que padece, justificará o mesmo recurso. A ver vamos o que sucede.

No caso das gémeas brasileiras, a investigação iniciada há algum tempo e reiniciada novamente, vem levantar novas suspeitas e fazer arguidos. Em causa o Secretário de Estado Lacerda Sales, que nada tinha a ver com o caso e nada sabia, segundo ele, vem agora tornar-se arguido envolvendo também a Ministra da Saúde da altura Marta Temido, agora cabeça de Lista do PS nas eleições para o Parlamento Europeu. Pode ser, também ela, a próxima arguida no Processo das gémeas luso-brasileiras. A par, está o filho do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que nada terá a ver com o caso, segundo ele, mas que, sendo pai do arguido Rebelo de Sousa e Presidente da República, não sairá bem na fotografia. Corrupção houve certamente. Quem a praticou diretamente ou quem interferiu sobre terceiros para que ela se exercesse, não se sabe ainda.

O que interessa afinal quem ganhou as eleições europeias, se a corrupção por cá, como por lá, continua a existir? Onde para a honestidade dos governantes? Todos pedem para votar, mas sendo o voto uma arma, parece não fazer mal a ninguém. Por trás disso tudo, a corrupção continua o seu caminho.



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