Luis Ferreira

Luis Ferreira

O assassino da liberdade

Na ignominiosa vontade de tudo possuir e em tudo mandar, os ditadores manobram, enquanto têm o poder nas mãos, o que está ao seu alcance e mesmo o que não está. É uma vontade férrea de possuir poder e mostrar a todos que é possível tê-lo e usá-lo a seu favor. Nada mais antidemocrático.

Infelizmente hoje há muitos governantes que não querem nada com a democracia e até chamam democracia ao seu modo de usar o poder absoluto. É o desconhecimento total, não da democracia, mas do que ela significa. Impõem-se a todos e os que lhe fizerem frente, seja de que modo for, são pura e simplesmente afastados de cena.

Há alguns anos que vemos o que se passa na Rússia com Putin. A comunidade internacional conhece bem o seu modo de governar e como consegue ganhar sempre as eleições a que concorre. As críticas não lhe fazem mossa e até brinca com elas, fazendo um gozo fininho com os seus remoques a esse respeito. Além de desrespeitoso, chega a ser insolente, prepotente e ameaçador.

A verdade é que todos lhe têm medo. O risco de uma guerra mundial é bem possível e é esse risco que impede os países de interferirem diretamente na sua política e no seu modo de controlar as pessoas, dentro e fora da Rússia. Mas há sempre quem não tenha medo e o queira enfrentar, mesmo sabendo que pouco adianta. Foi o que aconteceu com Navalny. Duas décadas a combater o despotismo de Putin e a enfrentá-lo trouxe-lhe a condenação e a prisão.

A insistência de Navalny irritou Putin ao ponto de o mandar envenenar. Teve a sorte de a Alemanha intermediar uma negociação que levou o opositor a ser cuidado nos hospitais da Alemanha. Isto não foi o que Putin tinha como objetivo. Ele queria aniquilá-lo definitivamente, mas não conseguiu. Navalny voltou para a Rússia para enfrentar o ditador frente a frente. Foi o seu maior erro. Não tardou a ser preso e condenado. A partir desta altura foi um amontoado de condenações completamente forjadas e falsas, mas que interessavam a Putin. Este não podia ter opositores e sabia que Navalny, em condições normais, ganharia qualquer eleição e arredaria definitivamente Putin do poder. Ora Putin não subiu na hierarquia governativa e no aparelho de Estado para cair sem honra, afastado por um advogado da oposição.

Condenado a prisão definitivamente, Navalny foi afastado para bem longe de Moscovo. Durante meses ninguém sabia do paradeiro de Navalny. Todos pensaram que o tinham liquidado. Mas afinal apareceu e o local foi conhecido. A Sibéria gelada era o local próprio para manter o opositor até ao dia em que ele soçobrasse por qualquer motivo. A força e a determinação de Navalny manteve-o vivo e saudável durante meses.

Com as eleições à porta e sem opositores, tudo seria mais fácil para ganhar as eleições e continuar a controlar a Federação Russa e a ameaçar a comunidade internacional. Para isso, o mais fácil seria matar Navalny, fosse como fosse, e arranjar uma causa “normal” para justificar a morte. Putin nem se dignou a referir-se à sua morte. Para ele, Navalny era um “Zé ninguém” e referir o seu nome era dar-lhe demasiado valor. Mas para a comunidade internacional ele foi simplesmente assassinado. Deste modo, Putin ficou como o assassino da liberdade na Rússia e o assassino de Navalny, seu opositor de sempre. E agora?

É evidente que este acontecimento feriu profundamente todos os que acreditavam que um dia Navalny chegaria ao poder e conseguiria democratizar a enorme Rússia. Dentro e fora da Federação, as pessoas sentiram-se feridas e desamparadas. Por todo o lado, saíram à rua centenas de pessoas a manifestar-se contra Putin. Na Rússia, muitas foram presas. Presas por clamar pela democracia e acusar a prepotência. Democracia? Para Putin isso não existe, sabemo-lo bem.

Morto Navalny, talvez pense que a oposição acabou, mas pode estar enganado. Estou certo que está mesmo enganado. Se Navalny não tivesse regressado à Rússia e tivesse feito a sua oposição do exterior, nada disto teria acontecido e Putin não estaria agora tão sossegado. Mas que não sossegue tanto, pois pode-lhe acontecer o mesmo que aos outros ditadores como Sadam Hussain ou Kadafi. Aliás, é o mais certo, a não ser que antes se mate ele próprio como fez Hitler.

A mulher de Navalny teve a coragem de afirmar em comunicado televisivo que o marido foi assassinado e que a oposição não acabava ali. Esperemos que não sofra consequências. Mas ficou bem claro no seu comunicado que a liberdade foi assassinada na Rússia. Para bom entendedor, meia palavra basta.

No mundo inteiro o sentimento é o mesmo. Todos acusaram Putin e ele riu-se de todos como se ele tivesse toda a razão e os outros fossem autênticos fantoches de um enorme circo internacional que ele poderia comandar. Uma coisa é certa: Putin vai governar até morrer. Como vai isso acontecer, não se sabe, mas talvez o mesmo veneno que mandou dar a Navalny lhe caia no prato. É assim que acabam os assassinos e os ditadores. Vamos esperar.



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