Luis Ferreira

Luis Ferreira

Há muros e muros

Quando terminou a Segunda Grande Guerra, alguém terá certamente pensado que acabava o maior conflito da História da Humanidade, mas enganou-se.

Não terminava. Destruíram-se os denominadores comuns que a provocaram, mas não os ódios inerentes que subjaziam em alguns dos atores intervenientes. Outra Guerra começava. A Guerra Fria que iria dividir o mundo em dois grandes blocos e a Europa em duas partes distintas separadas, supostamente, por um muro. O Muro de Berlim. Não foi o único muro a dividir países ou a criar fronteiras, mas é aquele que mais recordamos pelo seu simbolismo e pela sua importância. Curiosamente iria terminar com a intervenção política de um homem inteligente que assumiu o governo da União Soviética, aquela que tinha dividido o mundo em blocos. Mikhail Gorbatchev, depois de implementar reformas estruturantes na União Soviética com sentido de modernização e de uma abertura sem precedentes, acabaria por derrubar o Muro da Vergonha em 1989, contribuindo assim para a reunificação da Alemanha.

Na realidade este muro tão emblemático para o mundo inteiro, tem servido de exemplo, mau exemplo, para muitos outros muros que se têm construído. No entanto, há muros que não sendo construídos, são barreiras que existem impedindo a sua ultrapassagem. E eles são de vária ordem e mesmo invisíveis alguns deles.

Paremos um momento nos acontecimentos deste Mundial de Futebol a que temos vindo a assistir. Havia um enorme muro à sua realização no Catar, pois criticava-se o facto do país organizador não respeitar os Direitos Humanos. País que se preze e queira ser respeitado tem de respeitar os Direitos Humanos, mas não era o caso. Contudo, o Mundial está a efectuar-se, embora não se ignore esse facto e não seja isento de críticas terríveis. Saltou-se o muro!

Curiosamente, o mesmo aconteceu quando foi na China e na Rússia. Saltou-se o muro! Então o que se sobrepôs aos Direitos Humanos? Sabemos bem que foi o dinheiro, a enorme quantidade de milhões de dólares que tudo isso envolve e movimenta. Interesses. E estes são de tal ordem que levou a que a vice-Presidente do Parlamento Europeu Eva Kaili, fosse destituída do cargo e presa por suspeita de corrupção ligada ao Catar. Parece que ela andou a saltar alguns muros!

Já agora e quanto a este Mundial, temos assistido ao derrube de muitos outros muros. As que eram supostamente, seleções ganhadoras e candidatas a ganhar o Mundial como a Alemanha, a Espanha, a Inglaterra ou o Brasil, foram eliminadas. Muros enormes que se desmoronaram em poucos minutos. E Portugal? Pois, também nós que ambicionávamos mais alguma coisa, caímos às mãos dos habitantes do deserto. Um muro aparentemente fácil de ultrapassar, mas que não conseguimos saltar o suficiente. As lágrimas de Ronaldo espelham bem a revolta e a ineficácia de quem podia e devia, mas não conseguiu ir mais além. Culpas? Quem as quer? Fernando Santos diz que não teve culpa, os jogadores dizem que fizeram de tudo para levar de vencida os marroquinos, mas não foi o suficiente. Não há culpados, ou talvez sejam os marroquinos que foram excelentes defensores do seu reduto. As lágrimas e o desânimo que ficaram em campo são as provas de quem tentou e não conseguiu e não deitem culpas em Ronaldo, em Fernando Santos ou em Pepe ou em outro qualquer. Simplesmente não conseguimos passar este muro.

Do mesmo modo, Putin quando invadiu a Ucrânia, pensava que passava o muro facilmente e enganou-se. O que parecia uma brincadeira transformou-se numa guerra destruidora, mortífera e interminável. Cansado e destruído pela comunidade internacional e pela sociedade russa, Putin já fala em acordos para acabar com o conflito, mas continua a exigir as suas condições sem aceitar as que outros possam trazer à mesa de negociações. Ou seja: quer saltar o muro, mas não quer que os outros o saltem de modo a se reunirem num momento de paz e de convivência, admitindo erros de ambos os lados. Que se derrube o muro, este sim, da vergonha enorme que surge novamente na Europa numa época em que se tentam derrubar as barreiras que envergonham o ser humano em pleno século XXI.


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