Luis Ferreira

Luis Ferreira

De lés a lés

Numa altura em que o mundo anda às voltas à procura de se encontrar, nada nem ninguém parece estar interessado em resolver o que está mal e as causas desse mal-estar.

Não chegava a desestabilização da guerra na Ucrânia e as pretensões da Rússia, mais propriamente de Putin, vem agora o homólogo da Bielorrússia decretar a sua imunidade vitalícia e acabar com a oposição. Só o pensamento dos ditadores tem semelhante grau de afirmação. Se não podem afirmar-se democraticamente através de eleições, o melhor mesmo é acabar com elas ou falsificá-las, forjando a entronização do líder absoluto.

Para além desta guerra absurda e sem sentido, enfrentamos a guerra no Médio Oriente, onde Israel enfrenta o Hamas e pretende acabar com a sua prática terrorista. Nada fácil este objetivo, especialmente quando se matam crianças indefesas e sem culpas e civis sem identificação que ficam sem casa, sem família e sem condições de sobrevivência. Milhares de mortos numa faixa de poucos quilómetros quadrados, é demasiado e muito pouco plausível de aceitação ou justificação. Só a vingança serve para desculpa de tais atitudes bélicas. No entanto, Israel está cercado por países inimigos e que não vêm com bons olhos o agravar da situação. Prestes a alastrar, este conflito está a chamar à cena países como a Rússia, o Irão e o Líbano que pretendem tirar algum partido do conflito em vez de tentar acabar com ele. Esperemos que o fim esteja para breve, mas nem o EUA estão a conseguir impedir que tal aconteça. Jogam-se influências enormes e mesmo assim parece que Israel não quer desistir dos seus objetivos principais.

Mas se Portugal assiste a todo este conflito mundial com alguma serenidade, é certo que recebeu o reconhecimento ucraniano pela sua participação e ajuda no conflito entre a Rússia e a Ucrânia. É bom que assim seja e fica bem politicamente a nossa posição. Somos pequenos, mas temos um coração enorme!

Cá dentro temos também os nossos problemas e não são tão pequenos assim. Há toda uma movimentação gigantesca na preparação das eleições legislativas que terão lugar a 10 de março. O PS com Nuno Santos ao leme, entronizado como novo secretário-geral substituindo Costa, tem pela frente temas muito delicados para tratar. Os rabos de palha que deixou o próprio Nuno Santos, como a TAP e a localização do novo Aeroporto, vão ser debatidos na campanha e podem servir à coligação opositora para retirar alguns votos. Com a despedida de António Costa, cabe a Pedro Nuno Santos a condução do PS de modo a levá-lo a ganhar as eleições.

A verdade é que estas eleições não vão ser fáceis para nenhum dos partidos que vão a sufrágio, especialmente os que pretendem tirar proveito maior do escrutínio final. Para quem está atento, sabe que há quatro ou cinco partidos à espera de serem bem sucedidos. O PS que está certo da vitória, mas que não obterá a maioria, o CHEGA que quer fazer parte da solução governativa com o PSD, o CDS e o PPM e o BE onde Mariana Mortágua já disse estar disposta a fazer acordos pós-eleitoral para a obtenção de uma maioria de esquerda. Como vemos a incerteza paira no ar. Sabemos que o BE e o CHEGA não serão ganhadores. Querem somente juntar-se a quem ganha e serem parte da solução governativa. A AD, agora renascida, vai tentar o seu melhor e voltar ao governo, sabendo, no entanto que tem um osso duro de roer, mas com quem não se querem coligar de forma alguma. André Ventura continua a afirmar que ele é a solução para derrotar a esquerda e espera que Montenegro lhe dê a mão. Nada fácil, pois ele já disse que não quer nada com o CHEGA. Um jogo de xadrez difícil de terminar. O PSD, o CDS e o PPM, em coligação, vão tentar ganhar as legislativas e ter bom resultado nas europeias, mas Ventura não acredita nesta solução e está convencido que continua a ser imprescindível ao novo governo de centro-direita. Talvez seja essa a solução e ele não esteja errado na sua avaliação, mas Montenegro e Nuno Melo não aceitam essa possibilidade e junta-se à solução o IL que também não nada com o CHEGA.

Quem está a equacionar essa possibilidade é o Presidente Marcelo. Vendo bem a situação, ele sabe que o CHEGA pode ser a solução, mas também se não for essa a via a aceitar pela AD, Marcelo já põe em cima da mesa a necessidade de nova dissolução da AR e novas eleições, o que vem dificultar todo o processo. O país, sem governo e sem Assembleia, ficará completamente ingovernável e deixará os portugueses completamente desprotegidos e à deriva.

Como diz Marcelo, está nas mãos dos portugueses a decisão final da escolha. O voto é a arma que tem ao seu dispor para solucionar, ou não, este problema. Para Marcelo, seria melhor a AD aceitar o apoio do CHEGA e governar assegurando o equilíbrio político e a fuga a mais dissoluções e novas eleições das quais os portugueses estão demasiado fartos. O IL pode ser o recurso esperado. Mas só depois das eleições é que saberemos qual será a solução que nos leva a novo governo. Pelo menos, não estaremos nas mãos de um qualquer ditador disposto a impor a sua vontade. No máximo, um radical de esquerda!



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