Luis Ferreira

Luis Ferreira

25 - Nome de código

Código, é tudo o que não está claro, que está escondido e que não interessa que qualquer um descubra. É por isso mesmo que o que é considerado importante, está codificado e não é acessível a toda a gente. Quando se quer preservar uma coisa essencial, retiramo-la da vista de toda a gente, metemo-la num lugar seguro e codificamos esse local para que só tenha acesso quem souber o código.
Assim, em todas as companhias, bancos, seguros, empresas, há coisas importantes escondidas dos olhares da maioria, que têm um código só acessível aos que podem lá entrar.
Se extrapolarmos estas situações para uma dimensão maior como por exemplo um país inteiro, podemos vivenciar paradigmas análogas, tantos quantos quisermos codificar.
Estou a lembrar-me, por exemplo, do acontecimento marcante da vida nacional que sucedeu a 25 de abril de 1974 e do impedimento da presidente da Assembleia da República face à participação dos militares que tiveram a sua quota-parte nesse acontecimento importante. Será que é preciso um código especial para participar ou será que o número 25 deixou de ser código para alguma coisa importante que se quer esconder? Isto não faz grande sentido! Mas o que eu quero dizer é que me parece, por um lado, despropositada a forma como reagiu a presidente da Assembleia da República. Uma figura do Estado com a responsabilidade que ela tem, não deve falar desta maneira à comunicação social ou a quem quer que seja. Foi demasiado arrogante, intempestiva e a raiar a má educação. Por outro lado, os militares, face à negação da participação oral, não deviam tomar a decisão de não comparecer na Assembleia da República, reagindo como uma criança mimada a quem lhe tiram o brinquedo preferido.
Claro que será sempre um dia importante para a história nacional, o 25 de abril de 1974. Ninguém lhe retirará tão cedo esse privilégio, mas também o era o 1º. de dezembro de 1640 e alguém se lembrou de que não precisava mais de ser comemorado. É verdade que os revoltosos de 1640 já não podem impor-se ao governo actual e exigir a comemoração do seu dia, mas também é verdade que o 25 de abril já foi há quarenta anos e se diz muito aos militares ainda vivos felizmente hoje, já pouco diz aos que nasceram depois dessa data que não é mais do que uma data a memorizar na longa história do seu país. É um código de sabedoria histórico que é necessário saber para poder entrar nele.
No entanto, parece que esse código já vai sendo esquecido por muitos ou pelo menos negligenciado na sua importância, já que dispensam a sua comparência nas comemorações desse dia tão importante, evocando desculpas sem sentido ou que apena o tem para quem as menciona. Politiquice invejosa, diria eu. É o caso do senhor Mário Soares que resolveu não comparecer onde sempre fez questão de estar ou seja, nas comemorações oficiais do 25 de abril, na Assembleia da República.
Penso que estas birras políticas de quem tem sido sempre considerado no que se refere a esta data codificada com o cofre da liberdade e da democracia portuguesa, não têm sentido algum e só contribuem para tirar cada vez mais sentido às mesmas comemorações. Efetivamente, se quem tem alguma identidade factual com o 25 de abril, não quer participar na comemoração da data, é porque se está a desinteressar ou arranjar desculpas esfarrapadas e de teor puramente político para chamar a sua atenção.
Cada um fará da sua vida o que entender e tomará o partido que quiser e no tempo que quiser, mas não pode interferir com todos os que pretendem enaltecer esse código de liberdade e democracia que tanto demorou a atingir. Que participem se querem ou não, mas que se fiquem por aí. Estamos a ficar fartos de quem quer dar sempre nas vistas e sem razão alguma para o fazer. Se há verdadeiramente código para as coisas importantes, então que este seja um deles e que só entre quem está na disposição de o entender como todos o entendem, ainda que de uma forma política diversa. Haja paciência!


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