Centro de Recolha Oficial (CRO) do Douro Norte aposta em campanhas de adoção de cães e gatos, mas as saídas são inferiores às necessidades de recolha de animais errantes e o espaço funciona acima da lotação máxima.
Dez anos depois da aprovação da lei que proibiu o abate de animais errantes, a agência Lusa foi conhecer como desenvolve a sua atividade o Centro de Recolha Oficial de Animais de Companhia do Vale do Douro Norte, localizado em Vila Real e que serve ainda os municípios de Alijó, Mesão Frio, Murça, Peso da Régua, Sabrosa e Santa Marta de Penaguião.
Com uma lotação máxima de 70 animais, dentro do centro estão, neste momento, cerca de 140 cães e gatos e, entre eles encontra-se o Ricky, com 7 anos, que foi encontrado abandonado em 2020, quando tinha seis meses e é o cão que se encontra há mais tempo no CRO.
“O grande problema que nós temos aqui é exatamente esse, o número de adoções que vamos conseguindo fazer não é suficiente para aqueles animais errantes que continuamos a ter no espaço público”, afirmou Carlos Silva, vereador da Câmara de Vila Real.
Para o autarca, o principio da lei do não abate “faz todo o sentido”, mas defendeu que têm que ser encontradas alternativas e tem que se apostar na esterilização dos animais de companhia.
“A solução é esterilizar, esterilizar, esterilizar”, realçou.
António Almeida, veterinário municipal, disse que mesmo antes da lei do abate ser implementada em Portugal, este canil já não “abatia indiscriminadamente os animais”, ou seja, aqueles que eram considerados adotáveis não eram eutanasiados.
“Obviamente que os animais que entram, não podendo sair pela via da adoção, têm que permanecer e isso bloqueou, depois, as entradas dos restantes”, referiu o responsável, considerando também que a lei quis dar uma “vida digna” aos animais de companhia.
António Almeida disse que o centro se mantém acima da lotação máxima porque há situações de animais, por exemplo, feridos ou agredidos que têm de ser recolhidos, no entanto, garantiu que é garantido o bem-estar dos 140 animais que ali estão.
Lina Pinto, gestora do centro de recolha da FCC Meio Ambiente, empresa que ganhou o concurso para a gestão do CRO, destacou a aposta que é feita em campanhas de sensibilização e adoção, tanto em escolas - desde o pré-escolar ao ensino secundário – como no centro comercial e nas redes sociais, onde são partilhadas fotografias dos animais com uma descrição das suas características.
Sob o mote “Começos felizes”, são depois reveladas fotografias dos cães ou gatos adotados com as novas famílias.
“O animal sai do centro de recolha com o processo de adoção completamente gratuito”, realçou a responsável, que defendeu uma cooperação “muito ativa”, nomeadamente com associações de defesa animal, para retirar os animais do CRO e, ao mesmo tempo, se conseguir recolher mais animais errantes.
Lina Pinto concretizou que, aqui, “a adoção é 100% gratuita” e inclui a “esterilização, vacinação, desparasitação, ‘microchip’ e o registo na plataforma Sistema de Informação de Animais de Companhia (SIAC).
“Desde há cerca de oito anos já conseguimos adotar cerca de três mil animais. Temos uma taxa de adoção de cerca de 63%. Se me disser que é ideal, nunca é ideal, o ideal seria 100%, mas também não é má”, referiu, sublinhando o trabalho que é feito para uma “adoção responsável” para que o animal não seja devolvido.
Neste centro, há ainda um programa de voluntariado controlado, em que os voluntários ajudam a alimentar ou passear os animais e, ao mesmo tempo, ajudam a fazer a sua socialização, numa iniciativa que é sempre acompanhada por técnicos.
No entanto, as adoções e saídas do centro não são suficientes para possibilitar, depois, a recolha dos muitos animais errantes que ainda há nestes municípios, sendo que a maior parte deriva de ninhadas caseiras, mas também de abandonos e de reproduções na natureza.
O vereador Carlos Silvou classificou este como um problema social e disse que este é um processo que o país está a desenvolver.
“As entidades oficiais também estão atentas a estes fenómenos e estão a encontrar fontes de financiamento, por exemplo, para os processos de esterilização”, apontou, exemplificando com o caso da Câmara de Vila Real que apoia as associações de bem-estar animal do concelho para a esterilização das colónias de gatos.
O caso dos cães representa, segundo realçou, “uma situação ainda com alguma complexidade”, porque “a legislação obriga a que quando o animal é capturado e para que seja esterilizado, a partir desse momento tem que ser registado com um dono” e “não faz sentido que a câmara seja a dona dos animais errantes”.
“São processos que estão a andar estão a andar no bom sentido, estamos ainda muito longe da sua resolução, mas estamos a dar passos no sentido de que a solução possa vir a ocorrer”, considerou.
A Lei n.º 27/2016, publicada em 23 de agosto de 2016, determinou o fim do abate de animais errantes para controlo da população e promoveu a criação de uma rede de CRO, privilegiando a esterilização e a adoção como instrumentos de gestão da população animal.
O abate para controlo populacional deixou de ser totalmente praticado dois anos depois, terminado um período transitório de adaptação dos centros de recolha.
*** Paula Lima, da agência Lusa ***
Lusa