Já o disse e torno a repetir, o meu Natal das recordações de infância é diferente destes atuais e por mais voltas que lhes dê nunca mais será mágico como dantes.
O Natal era a festa dos bolos, doces minhotos e transmontanos (aletria, sopa dourada, filhós, formigos), do execrável polvo acom-panhado de arroz e dum segundo prato de bacalhau com todos, cozido na noite de consoada, acompanhado dos seus típicos vegetais (pelo menos dois ou três tipos de couves) e das batatas cozidas com cenoura, cebola e ovo. Era o tempo dos presentes no sapatinho, um presépio com musgo autêntico (agora é proibido apanhar musgo, dá direito a multa e tudo), um pinheiro que se ia buscar nem eu sei onde, mas que era autêntico (ainda não havia movimentos ecologistas nessa época) e que me lembre, pelo menos uma vez, veio de ao pé de Santo Tirso (Negrelos). As velas eram verdadeiras e as bolas da árvore de Natal eram poucas e caras. Era a festa do nascimento o Menino Jesus, Glória a Deus nas Alturas e Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Era também a festa dos pobres pois vivia-se na era da caridadezinha cristã que o Estado Novo incentivava. Eles até nem faziam grande festa, mas os ricos e os remediados, como nós, dedicavam alguns minutos do seu precioso tempo a pensar neles e a dar-lhes al-guma atenção, nuns mimos que a criada (ainda se não chamavam empregadas domésticas na época) ia entregar com uns tostões mais do que era habitual. Lembro que devia haver muitos pobres pois era um constante rodopio de gente a bater a partir de dezembro, normalmente pela hora do jantar, “desejando a Bossência e excentíssima família Boas Festas e um Próspero Ano Novo”. Havia muitos com uns cartões de Natal impressos propositadamente para a ocasião que depois se juntavam num monte para vermos a quem se tinha ajudado: o carteiro, os homens do lixo (então chamados lixeiros), os cantoneiros, o guarda-noturno, os homens da água (eram os SMAS nessa época), da eletricidade pré-EDP, dos jardineiros da Câmara, dos bombeiros, dos limpa-chaminés, dos varredores de rua e o mais que me não lembro. Esses desprotegidos ainda não tinham subsídio de Natal e dependiam da bondade alheia para se darem ao luxo de celebrar o Santo Natal.
Havia também os outros, os “habitués”, os pobres de pedir, regulares visitantes da nossa aldraba de porta, que nessa época tinham também um “mimo” extra, fosse uma “rabanada” ou uma sopa quentinha. Nessa época abria-se sempre a porta quando alguém tocava pois não se tinham inventado os olhos mágicos que deixam de fora quem se não quer receber. Os “nossos” pobres tinham dias certos pa-ra virem receber a esmola certa como quem vai receber o seu soldo ao fim duma semana de labuta. Era importante para nós crianças vermos que havia desprotegidos, aqueles a quem a sorte não tocou, e para quem estranhamente ou, melhor dizendo, infantilmente nos interrogávamos porque é que a sorte lhes era madrasta. Eram todos servilmente submissos, educados e atenciosos, sempre de chapéu na mão (aqueles que ainda o usavam) a pedir “por alminha de quem lá tem, meu rico menino” ou qualquer outra frase do género, que sempre me impressionava. Sentia-me feliz quando me era permitido entregar essa oferenda minúscula dumas moedas que faziam sor-rir essa velha cara, a retirar-se às arrecuas, de chapéu na mão, dizendo “Bem-haja, muita saudinha para si e para os seus”. As criadas impantes na sua superioridade de assalariadas a viverem sob um teto confortável desprezavam estas criaturas e agora sei que era por temor de um dia se poderem inverter os papéis.