Chrys Chrystello

Chrys Chrystello

A sociedade da solidão

‎613. A SOCIEDADE DA SOLIDÃO, 

Um idoso foi encontrado em avançado estado de decomposição, no ‎apartamento onde vivia sozinho, em Valência, Espanha. O homem terá morrido em 2010, ‎sem que ninguém tenha reparado na sua ausência, segundo o El País.‎

O corpo foi descoberto depois de os bombeiros terem sido chamados por um vizinho do andar ‎de baixo, devido a uma infiltração causada pela chuva. Quando entraram pela janela do sexto ‎andar, depararam-se com uma "imagem macabra": o corpo do idoso, rodeado por pombas ‎mortas e insetos, e um ambiente de extrema degradação.‎

Os relatos recolhidos pelo El País descrevem o reformado como um homem reservado e ‎solitário. Após o divórcio, afastou-se da família e passou a viver sozinho. Tinha dois filhos com ‎quem já não mantinha contacto há muitos anos. Sempre que era visto na rua, seja no ‎restaurante ou no supermercado, estava sozinho.‎

‎“Cumprimentava, mas não se metia com ninguém. Quando deixámos de o ver, pensámos que ‎estava num lar de idosos”, recorda um vizinho.‎

Durante todos estes anos, a pensão de reforma continuou a ser depositada regularmente na ‎conta do homem. Graças a isso, as despesas da casa foram sendo pagas sem que ninguém ‎suspeitasse da morte do idoso. Segundo as autoridades, não há indícios de crime. ‎

Aqui há outro culpado: a entidade que pagava a reforma (Estado ou privada) e que não exigia ‎anualmente a prova de vida daquele idoso, pois, se o fizesse, o cadáver teria sido encontrado ‎em 2011.‎

Motivo para dizer, uma vez mais, que nós idosos somos transparentes ou invisíveis. De ‎facto, na maioria dos casos, gente deste grupo etário nem sequer é vista pela maioria dos ‎seus descendentes, demasiado ocupados com a mesquinhez das suas vidas materialistas, ‎sem tempo nem empatia para com os mais velhos, como deveriam ter aprendido com os ‎seus avós e demais antepassados.‎

Raro é o dia em que a comunicação social não nos narra outros casos de abandono de ‎idosos em hospitais, onde foram abandonados pela sua prole, e lá ficam esquecidos, para não ‎serem levados por eles para suas casas, onde seriam um incómodo sempre presente e a ‎precisar de atenção. Por isso, é mais fácil deixá-los nos hospitais ou, se forem afortunados, ‎num qualquer lar, legal ou ilegal; tanto faz, desde que não chateiem. Mesmo que nesses lares ‎sejam objeto de sevícias ou vítimas de qualquer megera a sedar, bater e insultar idosos. Os ‎lares de idosos continuarão a ser depósitos de vivos sem valor para a sociedade, sem ‎inspeções nem fiscalizações, mas serão construídos mais e melhores hospitais para animais.‎

Uma sociedade injusta e desigual, em que, nalguns casos, mais vale sermos mesmo ‎invisíveis. ‎

No Natal de tanta falsidade pintada de cores róseas na TV, ninguém falou do lar de idosos ‎onde (quase) todos esperaram visitas de quem nunca chegou…. Seria o melhor retrato da ‎sociedade em que vivemos. Os filhos na creche ou na ATL, os velhos em asilos e os novos a ‎passearem os seus cãezinhos…‎

Já há tempos, um ministro japonês e a senhora da FMI (Christine Lagarde) diziam que se tinha ‎de acabar com os velhos...mais precisamente, as suas palavras foram: “Os idosos vivem ‎demasiado e isso é um risco para a economia global! Há que tomar medidas urgentes.” ‎Podem dar o exemplo e desaparecerem já da face da terra…‎


‎ Dado que a maioria da população em Portugal tem mais de sessenta anos, não vai tardar ‎que se multipliquem casos destes e venham os sociólogos falar do problema da solidão na ‎terceira idade, os geógrafos políticos venham lamentar a desertificação humana do interior ‎profundo de Portugal, os políticos se expliquem com a introdução de alterações inócuas às ‎leis, as instituições de solidariedade social se queixem da crise e da falta de apoios para ‎prestarem ajuda solidária aos idosos, a PSP se lastime da falta de meios humanos para uma ‎política de proximidade, e os filhos e os netos continuem a colocar em asilos os idosos para ‎não terem o trabalho de cuidar deles ou a ignorá-los só por que são velhos. ‎

Já vou começar a tomar medidas para, quando estiver só, velho e desamparado, não me ‎deixarem morrer sozinho com o gato e os periquitos que não tenho nem quero ter.‎

Sendo uma pessoa dada às letras é provável que mantenha um diário.‎

‎ Um diário sobre a dor…a dor que sentiu por ter sido abandonada pela família... Talvez o sofrimento fosse muito ‎maior, mas as palavras só permitiram extravasar uma parte desses sentimentos, gravados em algumas frases:‎

Onde andarão os filhos? ‎

Aquelas crianças sorridentes que embalei no meu colo, que alimentei, de que cuidei com tanto desvelo, onde ‎andarão?‎

‎ Estarão tão ocupadas? ‎

Talvez não me possam visitar, nem sequer para me dizerem olá? ‎

Ah! Se soubessem como é triste sentir a dor do abandono... ‎

A mais deprimente solidão... Se ao menos pudesse caminhar...,‎

Os anos passam e os meus filhos não entram por aquela porta, de braços abertos, para me envolverem com ‎carinho... Os dias passam... E com eles é a esperança que se vai... No começo, era a esperança que me alimentava, ou ‎eu a alimentava, não sei... Mas, agora.... ‎

Como esquecer que fui esquecido?‎

‎ Como engolir esse nó que teima em ficar na minha garganta, dia após dia? ‎

Todas as lágrimas que chorei não foram suficientes para desfazê-lo... ‎

Sinto que o crepúsculo desta existência se aproxima...‎

‎ Queria saber dos meus filhos.... Dos meus netos.... ‎

Será que ao menos se lembram de mim? ‎

A esperança, agora, parece estar atrelada aos minutos... ‎

Que a arrastam sem misericórdia...para longe de mim...‎

Em Ponta Delgada (2018), dois anos depois de terem surgido alegações de maus-tratos a ‎idosos na Santa Casa da Misericórdia, nos jornais locais e na RTP Açores, veio a TVI fazer uma ‎reportagem e todos ficaram chocados, até o governo regional, que (quase) não sabia de ‎nada… Nestes casos, o melhor é mesmo matar o mensageiro, e a Santa Casa intentou uma ‎ação contra a malvada TVI.‎

Aqui nos Açores, escondida sob tanta miséria humana, havia também a pedofilia, a ‎violência doméstica, o mau aproveitamento escolar e outras maleitas, além dos maus-tratos ‎a idosos e a cientistas, que, aparentemente, não são muito apreciados por estas bandas. Lá ‎surgia de vez em quando um ou outro escândalo, mas, como sempre, a indignação das gentes ‎nunca durava mais do que três dias bem contados, pois aquele povo temente a Deus, amante ‎da bola e da música dolente, não tinha capacidade de se concentrar por muito tempo em um ‎só tema.‎






Partilhar:

+ Crónicas