Alexandre Parafita

Alexandre Parafita

Eurico Figueiredo (1939-2025)


Eurico José Palheiros de Carvalho Figueiredo, vila-realense, faleceu hoje, aos 86 anos, no Hospital de Santo António, no Porto.

Médico como seu pai, Otílio Figueiredo, dele herdou o espírito combativo que norteou a sua vida, desde a adolescência, quando militava já na juventude comunista. Depois tornou-se dirigente associativo na universidade e, enquanto mentor de novas formas de protesto, como plenários e greves de fome, foi preso pela PIDE. Não se conformaram os seus colegas, exigindo as várias associações estudantis a sua libertação, ao que, perante o receio de verem agudizadas as lutas estudantis, o regime retrocedeu abrindo-lhe as portas da prisão. Nem assim a PIDE deixou de o vigiar e outras vezes voltou a ser preso. Quando, já no 5º ano de medicina, soube que a PIDE de novo o procurava, recorreu ao exílio e terminou o seu curso na Suíça, regressando a Portugal só em 1976.

Tornou-se um médico prestigiadíssimo, psiquiatra de formação, professor catedrático e uma das vozes mais respeitadas na academia.

Tal como seu pai, foi um transmontano de convicções firmes, cauteloso nas cedências. Deixou o PCP em 1967, em protesto contra a invasão da Checoslováquia pela União Soviética. Ingressou depois no PS, do qual se tornou um dos seus mais destacados dirigentes, mas não hesitou em deixar o partido quando se incompatibilizou, na liderança de António Guterres. Miguel Torga preferia-o a ele a liderar o PS. Depois fundou novo partido (o PDR) com Marinho e Pinto, mas um ano depois incompatibilizou-se com ele e bateu também com a porta.

Herdou igualmente de seu pai o gosto pelas letras. Escreveu, entre outros livros, “Estorietas Vadias”, sobre situações clínicas psiquiátricas, “O Rio da Amargura”, retratando a sua paixão pelo Douro, e “Guerrilheiro Sentimental”, com alguns registos do seu exílio.

Por fim, tornou-se viticultor no nosso Douro, aproveitando ao máximo os seus recursos, na viticultura e no agroturismo.

Uma vida cheia. Uma história de vida, rebelde quanto baste, que a muitos de nós, transmontanos, continua a deslumbrar.

Aqui manifesto as minhas condolências à sua família.



Partilhar:

+ Crónicas