E porquê o polvo é o rei do Natal em Trás-os-Montes?
Há dias, a TVI veio perguntar-me. Percebi então que poucos sabiam a razão. Ora, o povo faz parte, há séculos, da identidade e tradição gastronómica natalícia, em razão da ligação histórica com a Galiza, em cujas águas é pescado. Isto desde o tempo em que não havia fronteiras. Se havia fronteiras políticas, não havia fronteiras culturais, humanas.
O polvo é, por isso, muito anterior ao bacalhau, que Salazar tentou impor no tempo da fome quando o Estrado Novo apostou na frota bacalhoeira. Aconselhava então o consumo do bacalhau, pois conservava-se muito tempo. Era por isso comida de pobres. Chamavam-lhe o “fiel amigo”, pois estava pronto em qualquer ocasião. Daí também a expressão idiomática “Para quem é bacalhau basta”.
Quem não ouviu falar no Almirante Tenreiro, o delfim de Salazar para o negócio do bacalhau? E como tantos encheram então os bolsos à custa dos pobres? Com o 25 de Abril, surgiu até a cantiga “Bacalhau tenrinho, bacalhau tenreiro (…) está vivo e fresquinho cheio de dinheiro”.
Quanto ao polvo, esse sempre foi um produto nobre. Passou a ser o “ex-libris” das ocasiões especiais. E daí que no Natal não podia faltar nas mesas transmontanas.
Para impor o bacalhau e travar o consumo do polvo, o Estado Novo usava uma forte vigilância na raia. Era a PIDE e a Guarda Fiscal. Havia até os “apalpadores”, especializados em detetar o contrabando escondido. Mas o génio das gentes raianas trocava-lhes as voltas. Conseguiam trazê-lo seco (pois não se lhe dava pelo cheiro), ou em barricas, usando rotas bem calculadas nas margens dos rios e nas montanhas.
Com a PIDE, eram sempre muito sérios os riscos, mas com a Guarda Fiscal nem tanto. Ao aproximar-se o Natal, dizia-se que os guardas fechavam os olhos. Vingava neles o lado humano, imbuídos também do espírito natalício. Sabiam que, se apreendessem o polvo, havia famílias que ficavam sem ceia na noite de Natal.