O empresário e técnico de eletrónica Querubino Rodrigues apresentou na passada sexta-feira, 25 de setembro, no Auditório Municipal de Bragança, o livro “Os Negócios que Marcaram uma Era – Sonhos, Falhas, Ilusões e Lições”. A sessão contou com a presença da presidente da Câmara Municipal de Bragança, Isabel Ferreira.
 A obra foi apresentada por Francisco Lopes. O livro é um testemunho pessoal sobre um percurso de iniciativas empresariais que ajudaram a mudar a cidade nas últimas décadas.

Francisco Lopes, que se apresentou como “uma pessoa da área de História”, avisou logo no início que a obra “parece só um livro de memórias, mas não é só um livro de memórias”.

“Não é um texto literário, nem o autor pretendeu que fosse”, afirmou. Descreveu Querubino Rodrigues como “um excelente contador de episódios, peripécias, histórias”, com “uma escrita simples, direta, mas cuidada” e “variadíssimas reflexões pessoais”.

O apresentador explicou que o título tem alguma ironia. Segundo disse, a maior parte dos negócios relatados “não deram lá grandes lucros” e alguns trouxeram prejuízos, “não só financeiros como emocionais”.

Para Francisco Lopes, podem ser lidos em três momentos: o percurso de vida do autor, as histórias dos negócios, projetos e “utopias”, e uma parte final dedicada à cidadania e à participação cívica.

A narrativa começa quando Querubino Rodrigues tinha 12 anos e ajudou a cortar azulejos para um painel de Júlio Resende que ainda se encontra em Valença, no antigo posto fronteiriço. O apresentador lembrou que a obra foi durante muito tempo atribuída ao artista Gastão Seixas.

Em 2015, o Centro de Conservação e Restauro da Universidade Católica Portuguesa restaurou o painel a pedido da Câmara Municipal de Valença. Os técnicos atribuíram então a obra a Júlio Resende, depois de encontrarem a assinatura “Resende”, e dataram-na da década de 60.

Francisco Lopes defendeu que o testemunho do autor permite ir mais longe. Tendo em conta a idade que Querubino Rodrigues tinha quando ajudou a cortar os azulejos, o painel será de 1964. “Há que informar aquela gente da Universidade Católica que o painel tem uma data concreta”, afirmou.

O gosto pela eletrónica nasceu entre o trabalho e os estudos. O serviço militar, onde se dedicou à radiotelegrafia, foi decisivo e fez dele “um técnico excelente”, segundo Francisco Lopes.

O regresso de Angola, o casamento e o crescimento da família marcaram uma viragem. O autor percebeu então que não queria apenas reparar rádios: queria criar e inovar.

A partir daí, o livro relata vários episódios da história recente de Bragança. Entre eles estão a mudança da paisagem sonora e luminosa da cidade, com os reclamos luminosos, e as primeiras discotecas, onde “a técnica, a arte e o improviso andavam de mãos dadas”. O autor conta também a chegada das primeiras televisões a cores e o seu trabalho numa estação radiotécnica no alto da serra.

Francisco Lopes recordou que, quando chegou a Bragança para estudar, em outubro de 1966, havia na cidade um só reclamo “verdadeiramente luminoso”, o de uma charcutaria na Rua Direita. “Portanto, o Querubino mudou muito aqui”, disse.

O capítulo 7, que dá nome ao livro, reúne projetos que ficaram pelo caminho. Um deles era trazer um avião para Bragança. Outro era criar um bar a funcionar num autocarro a circular pelas ruas da cidade.

“O avião não chegou, o autocarro não circulou, mas a carruagem foi mesmo o bar”, lembrou o apresentador. Referia-se ao pequeno espaço instalado numa carruagem num jardim da cidade, de que muitos brigantinos ainda se lembram.

Seguiram-se outras empresas, na área dos sistemas de informação, e já depois da reforma uma atividade dedicada quase toda às unidades de saúde do Nordeste.

O livro deixa também uma lição que o autor aprendeu à própria custa. Francisco Lopes resumiu-a assim: nenhum negócio, por maior que seja, vale a ausência constante daqueles que realmente importam, a família.

No final do prólogo, Querubino Rodrigues escreve: “se estas páginas servirem para que alguém perceba que o trabalho não substitui presença, que o sucesso não compra abraços, e que o tempo perdido não se recupera, então terão cumprido o seu propósito”.

Para o apresentador, o livro não fala de arrependimento, mas de reflexão: “Quando fazemos as coisas por convicção, mas correm mal, (…) não é propriamente uma questão de arrependimento, é uma questão de reflexão.”

Francisco Lopes terminou com outra passagem da obra: “Aprendi que o trabalho constrói, mas não sustenta a alma (…) Que a dor ensina, mas o amor salva.” Deixou um apelo aos presentes: “Leiam este livro e não se vão arrepender, sobretudo aqueles que são de Bragança ou que têm uma grande ligação a Bragança.”

Disse ainda que conhece o autor há três ou quatro anos, o suficiente “para saber que este livro foi escrito com verdade”.

Isabel Ferreira destaca “testemunho humano”

A presidente da Câmara Municipal de Bragança, Isabel Ferreira, considerou que “é preciso coragem para escrever com esta transparência e frontalidade”, porque o livro “não é apenas uma sucessão de êxitos”. Descreveu-o como “um percurso de vida feito de sonhos, de desafios, naturalmente de erros, mas de muitas aprendizagens e sobretudo capacidade de superação”.

A autarca contou que conhece a história do autor também pela família, em particular pelo pai, que “sempre falou muito” de Querubino Rodrigues.

Falando da sua experiência no meio científico, Isabel Ferreira criticou o hábito de divulgar apenas os bons resultados. Na sua opinião, dar a conhecer os resultados negativos evita que outros “gastem recursos nem tempo” a repetir os mesmos caminhos.

Sublinhou também o papel do empreendedorismo no interior: “Para regiões como a nossa, o empreendedorismo continua a ter um papel decisivo. Cada empresário que decide investir, criar riqueza e enfrentar os desafios próprios destes territórios está também a contribuir para o desenvolvimento coletivo.”

Para a presidente, a obra “não é apenas um testemunho económico, é um testemunho humano”. Fala “de ambição, de coragem, de momentos de incerteza, de ilusões concretizadas e de outras que ficaram pelo caminho”. Acrescentou que livros como este “preservam experiências, valorizam a memória” e ajudam “a contar a história do desenvolvimento económico da nossa região”.

Isabel Ferreira felicitou o autor e garantiu que o Município de Bragança “continuará a apoiar e a valorizar todas as iniciativas que promovam a cultura, a memória, o conhecimento e o testemunho daqueles que, através do seu trabalho e da sua visão, contribuíram para o progresso do nosso território”.

Por fim o autor, visivelmente emocionado, agradeceu a todos a presença e disse "leiam o livro sff" e sem mais passou aos autografos, que terminou com um porto de honra 


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