Os produtores de castanha de Cova de Lua, em Bragança, queixam-se dos estragos provocados por veados em mais de 100 castanheiros, denunciou hoje a comissão de baldios, que reclama responsabilidades ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.
Segundo o presidente da Comissão de Baldios de Cova de Luva, David Garcia Fernandes, nos últimos dias, “mais de 100” árvores ficaram danificadas e totalmente destruídas pelos veados, “castanheiros partidos, descascados, pontas cortadas”.
Só este agricultor disse ter ficado com 30 castanheiros destruídos e garantiu que estragos têm sido recorrentes, ano após ano.
“Já relatámos isto no ano passado, inclusive em setembro de 2025 contactámos tanto o Ministério da Agricultura como o Ministério do Ambiente, no sentido de promovermos uma reunião com aquele que seria o meu objetivo - a criação de um grupo de trabalho no sentido de tentar facilitar o acesso por parte dos agricultores às ajudas, que não são ajudas, acaba por ser uma indemnização que tem de ser dada pelas entidades gestoras, quer da zona de caça, quer de quem tem a responsabilidade da caça. Não obtivemos resposta”, relatou à Lusa.
A legislação diz que estes prejuízos devem ser suportados pela entidade responsável pela zona de caça, neste caso a junta de freguesia.
No entanto, a comissão de baldios salienta que “não há nada que garanta ao produtor um apoio” e pede que o processo de pedido das indemnizações não seja “tão demorado e tão burocrático”.
Segundo David Garcia Fernandes, muitos agricultores não solicitam as indemnizações dos estragos provocados pelo veado, porque “acaba por ser tempo perdido”, visto que “nunca vai chegar a ajuda”.
“Com este tipo de sistema o apoio não chega, as pessoas desistem de pedir apoio, desistem de limpar e de manter os terrenos cultivados, e obviamente que já sabemos o que isso vai acarretar no futuro”, lamentou.
O agricultor imputa responsabilidades ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), responsável pela gestão do Parque Natural de Montesinho, do qual faz parte a aldeia de Cova de Lua.
“Quem gere o parque de Montesinho, que é o ICNF, tem de assumir os custos e as despesas que os animais que estão sob a sua responsabilidade têm provocado nas populações”, afirmou, acrescentando que estes estragos resultam do facto do ICNF não autorizar “um número significativo de abate para controlo da espécie”.
José Afonso, outro dos agricultores lesados, referiu que, com o vento, as proteções que tinha colocado nas árvores acabaram por voar e foi o suficiente para os veados atacarem.
“Os que ficaram sem isso foram alguns oito, por aí, foram todos. Até os descascaram, pareciam uma vara”, contou, salientando que se não tivessem essas proteções os veados “destruíam tudo”.
De acordo com o agricultor, os castanheiros afetados tinham “dois ou três anos”, mas “já tinham ouriços” e, por isso, o ataque representa “um atraso enorme” na cultura.
“Se calhar para o ano vou ter de pôr [vedação], se isto continua assim vou ter de arranjar uma solução mais viável, porque assim não vale a pena”, lamentou.
Embora as vedações das propriedades possam ajudar a conter os estrados, David Garcia Fernandes salientou que “trazem custos para os proprietários”, que acabam por não ser ressarcidos.
“No ano passado houve um proprietário que teve milhares de euros de prejuízo e ainda teve de gastar mais dinheiro para fazer uma vedação, e esse dinheiro nunca vai ser recuperado”, garantiu.
Contactado pela Lusa, o presidente da Junta de Freguesia de Espinhosela, à qual pertence Cova de Lusa, adiantou que, em julho, foi pedida autorização para a correção “extraordinária” da densidade de veados, solicitando o abate de dois animais.
No entanto, disse, o ICNF autorizou apenas o abate de “um macho” entre 01 e 15 de agosto, o que não chegou a acontecer.
“Não matámos porque não apareceu [o veado]. Nessa altura em que estava em vigor a correção não foram avistados veados na zona”, contou, acrescentando que já no ano passado aconteceu a mesma coisa.
O autarca também criticou o instituto, porque “devia haver mais coordenação por parte do ICNF com as entidades gestoras”, ou seja, juntas de freguesia e associativas.
“Não é com o abate de um exemplar que se vai minimizar os estragos, porque há inúmeros machos”, frisou.
Confrontado com a responsabilidade de indemnizar os agricultores afetados, Octávio Reis reiterou aquilo que tem vindo a ser dito pelas juntas de freguesias e associativas, que não têm financiamento para o fazer.
“Nós nem temos nada orçamentado para pagar estragos. Isso é impensável. São milhares de euros. Já no ano passado foi a mesma coisa”, afirmou.
A Lusa contactou o ICNF para pedir esclarecimentos, mas até ao momento não obteve qualquer resposta.
Foto: Orlando Nascimento
Lusa