Luis Ferreira

Luis Ferreira

Uma pulga na cama

Li há alguns anos atrás um livro bastante interessante cujo narrador era pura e simplesmente uma pulga. Imagine-se! As aventuras que ela conta do seu dia-a-dia são de nos pôr a rir e a imaginar as mais mirabolantes situações por ela descritas.

Na verdade, um bichinho tão pequeno pode andar por muito lado sem ser visto, mas incomodar muito. Que o digam os cães que se fartam de coçar, coçar e não encontrar nada. Enquanto se coçam, pelo menos aliviam a comichão!

Felizmente que este minúsculo animal não anda por aí à solta e a meter-se onde não deve, só porque lhe apetece, chateando meio mundo sem razão aparente. Mas por comparação, a pulga serve para exemplificar duas coisas: a pequenez que tem e o enorme desconforto que causa por onde passa.

Nesta época natalícia, para bem de todos nós, o Pai Natal aparece no seu trenó puxado por renas e onde Rodolfo ainda comanda e serve de guia, cruzando vales e montes em busca das casas dos que ainda esperam que ele desça pela cheminé com alguns presentes agradáveis para melhorar os dias amargos que ainda se vivem por estas bandas. Nunca ninguém disse que as renas podiam trazer pulgas! Estou convencido que não! Seria um desastre. O Pai Natal podia ser escolhido para albergar alguma pulga e trocaria todos os presentes, pois passava o dia e a noite a coçar-se e não pensava em mais nada! Coitado!

É verdade. Uma pulga incomoda muito, mesmo muito. E é curiosa. Basta ler o livro que eu li e logo nos apercebemos como ela é curiosa e se mete onde não deve.

Agora imaginem que estão na vossa cama, descansados e começam a sentir uma comichão anormal. Alguma coisa está a acontecer. Ora aqui, ora ali, a comichão não pára e a razão de tal desconforto não se adivinha. Uma noite mal dormida, um sono que se não satisfez, um cansaço que não sairá facilmente no dia seguinte. Descobrir o porquê de tal confusão, só mais tarde. Sim, porque uma coisa tão pequena não se encontra facilmente e imaginar uma pulga na nossa cama, não é de todo usual, convenhamos.

Pois é verdade. Vamos à realifdade das coisas. Vivemos vésperas de tempos maravilhosos. Assim apregoa o governo de Costa. Os funcionários vão receber os seus salários por inteiro, as pensões vão subir, vai baixar a sobretaxa do IRS, os alunos não vão sofrer as amarguras de se verem confrontados com exames obsoletos e até a TAP vai voltar para as mãos do Estado. O que é que nós podemos querer mais? Só coisas boas. Não nos podemos queixar, certo?

Desconfio que o Pai Natal veio um pouco mais cedo lá para os lados de S. Bento. Sim porque esta realidade é demasiado boa para ser conseguida de um momento para o outro, abrindo simplesmente um saco onde quase nada existia e tirar de lá estas prendas maravilhosas. Sem dúvida que aqui aconteceu algo de anormal. Para mim alguma pulga se deitou na cama de Costa e não o deixa raciocinar em condições. Está transtornado! Mesmo ao falar em frente aos ecrãs de televisão, nota-se o seu cansaço e falta de ânimo. Só pode ser uma pulga!

Pode ser e é certamente bem pequena esta pulga, mas que está a fazer mossa, está. Tem nome? Tem com toda a certeza. Não vale a pena referi-lo. Todos conhecemos esta pulga. Pequenina, mas muito incomodativa e indomável. E não deixa dormir Costa descansado. Perturba-o tremendamente. Embora nós não tenhamos ainda ouvido dizer nenhum impropério, de certeza que Costa está farto de gritar "maldita pulga!".

´Pois isto era tudo menos o que Costa precisava neste Natal. Uma pulga na sua cama não vem nada a propósito porque o obriga a prometer coisas que o levam ao precipicio, em vez de se deleitar com o ambiente familiar e contentar com os doces simples e saborosos do Natal.

Maldita pulga!

 


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