Luis Ferreira

Luis Ferreira

O julgamento da Igreja


Nos últimos dias ouvimos falar na comunicação social, sobre os crimes que a Igreja terá eventualmente cometido nos últimos anos. Foi elaborado um Relatório, que julgo ser sério, e que veio alertar para situações que não deveriam ter acontecido. Abusos de toda a espécie e feitio levado a cabo por clérigos sem espécie e sem feitio.

O que foi dito e referido nesse relatório, deveria envergonhar-nos como sociedade maioritariamente católica e humanista, mas igualmente exigir uma alteração processual a quem tais atos pratica.

É bom notar que a pedofilia não é apanágio somente da igreja católica e não só os padres e as freiras praticam tais aberrações. Criticamos a Igreja pela simples razão de que é ela que deve servir de exemplo ao que apregoa e não o faz. Mas isto não é de agora.

Na verdade, ao longo dos séculos de afirmação da Igreja Católica, muitos foram os momentos em que a sua atuação foi severamente criticada. A resposta não foi serena, antes pelo contrário. Exemplo disso foi a criação do Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição, que se destinava a julgar e condenar todos os que se desviavam do caminho que ela traçava. Houve, como sempre há, imensos casos que foram condenados sem provas onde a simples desconfiança ou acusação de terceiros serviu perfeitamente os interesses da Igreja. Os que se insurgiram contra a Igreja foram levados a Autos de Fé, ou seja, queimados vivos em plena praça à vista de todos para servir de exemplo.

Mas o século XIV já passou há muito tempo e não serviu para a remissão dos pecados da Igreja. As críticas continuaram e foram muitas. As atuações da Igreja eram cada vez mais condenáveis em várias vertentes. A simonia, ou venda cargos eclesiásticos, era outra faceta deveras criticável e só seria abolida da Igreja no século XVI. Quem é que julgava a Igreja? Ninguém. Ela era a toda poderosa e por isso permitia-se a certos luxos proibidos a terceiros.

Tornava-se necessária uma Reforma profunda e ela apareceu pela mão do abade Martinho Lutero. Este insurgiu-se contra as Indulgências criadas pelo Papa Leão X para obter dinheiro para a construção da Basílica de S. Pedro em Roma. Escreveu as 95 Teses contra as Indulgências e afixou-as na porta da Catedral de Wittenberg, onde era padre. Valeu-lhe a imediata perseguição e excomunhão. Só não foi queimado na fogueira porque fugiu para os países nórdicos, mais tolerantes na questão religiosa.

Isto serviu para a Igreja enfrentar uma onda enorme de contestação que a obrigou a reformar-se depois da Reforma apresentada pelos Luteranos. Foi uma reforma profunda nos costumes, na disciplina interna e na afirmação do celibato, entre outras coisas. De então para cá o que mudou? Quase nada.

Os crimes hediondos que a Igreja vem praticando, não permanecem agora tão escondidos e a consciencialização dos que são abusados permitem que se tenha algum conhecimento sobre eles. Contudo o tempo que medeia entre os atos e o seu conhecimento, é enorme e, desfalece o poder de julgar e castigar.

Se o Concílio de Trento manteve o celibato, não foi essa resolução conservadora, que trouxe à vista a pedofilia já que, como disse, ela não se verifica só dentro da Igreja. Há pedófilos por todo o lado, infelizmente. Mas a Igreja, como um todo, continuará a ser julgada pelos atos que alguns dos seus elementos praticam. A coragem que agora se verifica em todo o mundo, da Igreja fazer um levantamento e até uma perseguição a todos os clérigos que praticaram ou praticam ainda pedofilia, é de louvar. É necessário desmascarar os abusadores. Estes serviram-se do seu poder de influencia e persuasão sobre os mais jovens, incautos e desconhecedores dos meandros sexuais, para levarem a cabo os seus desejos libidos incontidos e pecaminosos.

Hoje, nada mais fazemos do que fizeram os que há séculos julgaram a Igreja Católica. Contudo, não corremos o risco de enfrentarmos uma Inquisição avassaladora e assassina. O que fica depois de tudo é um quase nada ou muito pouco do que seria desejável. A Igreja é uma Estado e tem um poder imenso e só socialmente se pode julgar. Os atos que alguns praticam, poderão por ventura, ser julgados civilmente. O Tribunal Canónico julgará o que lhe aprouver.

E os abusados? E os que sofreram na pele as submissões que lhes alteraram as vidas para sempre? Esses não podem julgar ninguém. Mas podem trazer a lume os factos da sua indignação para que outros os julguem. De um modo ou de outro a Igreja está a ser julgada.



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