A Região Demarcada do Douro (RDD) antecipou, em dois séculos, a era da globalização. «O objectivo do Marquês de Pombal era organizar e controlar o comércio do vinho, defendendo a originalidade do produto, contra as falsificações», afirmou, ontem, no Porto, o historiador Gaspar Martins Pereira.

Falando na abertura da Conferência da AIDV (Association International des Juriste du Droit de la Vigne e du Vin), que está a decorrer no Palácio da Bolsa, no Porto, o historiador sublinhou que a RDD foi \"pioneira ao definir noções ainda hoje aceites um pouco por todo o Mundo\".

Assentando mais em condicionalismos económicos e sociais, a demarcação pombalina permitiu aumentar a qualidade dos vinhos e adaptá-los ao gosto do principal mercado da época, o Reino Unido.

Durante os breves interregnos em que a Demarcação foi abolida, \"a falsificação e a concorrência externa obrigaram à reintrodução de novas medidas proteccionistas\", referiu Gaspar Martins Pereira, que é também o responsável da Fundação do Museu do Douro (ler mais noticiário sobre a instituição na página 63).

Intervenção do Estado

A historiadora Conceição Andrade Martins lembrou, por seu turno, que a Região Demarcada do Douro \"foi a primeira intervenção do Estado na sociedade civil\".

\"A medida do Marquês de Pombal surgiu na sequência da recessão que se verificou no nosso principal mercado, o inglês, destino de 95% dos vinhos produzidos no Douro. Os comerciantes ingleses controlavam o circuito e acusavam os lavradores portugueses de falsificar o vinho\", referiu Conceição Andrade Martins .

Estavam criadas as condições para o Marquês de Pombal intervir na região, regulando a produção e limitando a oferta no sentido de valorizar o produto, \"impondo ainda algumas regras aos comerciantes ingleses\".

Por outro lado, é interessante notar que a Região Demarcada do Douro abrange praticamente a mesma área e número de freguesias desde a sua criação. Aliás, como notou António Barreto, que serviu de moderador às intervenções dos dois historiadores, a demarcação da região precedeu o nascimento de uma identidade regional.

Sobre a globalização, António Barreto defendeu que \"tem de haver Estado, regras, autoridade e disciplina\". \"Se pelo global destruirmos a origem, estamos a destruir o essencial de tudo. A demarcação do Marquês de Pombal tentou, no século XVIII, encontrar o equilíbrio entre as duas coisas\", considerou.



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