Antigos instrutores, município de Bragança, prestadores de serviços e fornecedores reclamam dívidas de milhares de euros à escola de aviação Lusofly Academy, que tem um processo de execução em curso para a penhora da licença do regulador.

Fontes aeronáuticas adiantaram à agência Lusa que a Lusofly, que opera a partir do Aeródromo Municipal de Bragança, cobrou 70 mil euros a cada um dos 36 alunos inscritos entre 2022 e 2025, sendo que metade dos instruendos já saiu ou está em processo de transferência para outras escolas de aviação, porque a Lusofly Academy não tem instrutores de voo nem aviões para o ensino da vertente prática do curso, que devia estar concluído num prazo de dois anos.

Segundo as mesmas fontes, o último voo de instrução da Lusofly Academy, que tem como diretor executivo João Roque, ex-piloto da TAP, aconteceu em fevereiro deste ano, acrescentando que, nestes quatro anos, nenhum dos 36 alunos concluiu o curso de pilotagem.

A Lusa falou com quatro antigos instrutores que trabalharam na Lusofly, anteriormente designada por Pull Up Academy, entre 2022 e 2025, em diferentes períodos, os quais denunciaram dívidas de dezenas de milhares de euros de ordenados em atraso.

“Todos os instrutores de voo já deixaram de prestar serviços à Lusofly, e todos pela mesma razão: todos ficaram com ordenados e serviços por pagar. Valores que ascendem em certos casos a várias dezenas de milhares de euros”, contou um dos instrutores, acrescentando estarem em causa vários meses de salários e subsídios sem pagar por parte da empresa.

Um destes instrutores revelou que a dívida que reclama ascende a 45 mil euros, reconhecida pelo tribunal, acrescentando que há cerca de um mês deu entrada com um processo de execução de penhora do certificado emitido pela Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), pois “não há nada mais para penhorar”.

Segundo esta fonte, a Pull Up Academy, a Lusofly Academy e a Best Wing Air Consulting, esta última usada para a celebração de contratos de trabalho, “não têm bens para penhorar”.

Uma carrinha da empresa já havia sido penhorada no primeiro trimestre deste ano, avançou à Lusa fonte ligada ao processo.

A Lusofly também deve dinheiro à Câmara de Bragança, que se escusou a revelar o valor.

“Confirmo que existem valores em dívida associados à empresa [Lusofly], quer ao Brigantia EcoPark, pela utilização de espaços de trabalho, quer ao município de Bragança no âmbito do aeródromo municipal, nomeadamente por rendas de dois lugares de ‘hangaragem’ para aeronaves, taxas aeroportuárias e respetivos juros de mora, com incumprimentos que vêm desde 2025”, refere o município de Bragança, em resposta enviada à Lusa.

A câmara, liderada por Isabel Ferreira, adianta que quanto às divididas e à utilização das instalações, tanto o município como o Brigantia Ecopark “irão seguir os trâmites regulamentares previstos na lei e nas diretivas de cada instituição”, acrescentando que “os serviços têm acompanhado a situação com a perspetiva de salvaguardar o interesse público”.

“O município reconhece a importância da atividade aeronáutica para Bragança e para a valorização do aeródromo municipal, que consideramos uma infraestrutura relevante para o concelho. Mas essa visão estratégica não pode dispensar o cumprimento das obrigações assumidas, nem prejudicar o erário público”, salienta a autarquia.

A Lusofly alugou aviões para a instrução a uma empresa espanhola que, nas últimas semanas, deslocou-se a Bragança para levar duas aeronaves “devido a uma dívida de algumas centenas de milhares de euros”, indicou outra fonte ligado ao processo.

Esta empresa foi acumulando dívidas a prestadores de serviços e a fornecedores de Bragança, nomeadamente a empresas da hotelaria, de fornecimento de combustíveis e ao Aeroclube de Bragança.

Fonte deste aeroclube confirmou à Lusa que a Lusofly, a quem fornecia combustível para os aviões, tem uma dívida de mais de mil euros, valor que não é superior porque o aeroclube deixou de disponibilizar combustível quando percebeu que não iria ser pago.

A Lusa contactou a proprietária de um dos hotéis onde costumavam ficar alojadas pessoas ligadas à escola sobre a dívida da Lusofly, a qual respondeu tratar-se de um assunto “sigiloso”.

Uma das empresas lesadas é a Prio, em Bragança, que revelou à Lusa que em causa está uma dívida, em combustível, de cerca de 2.800 euros, contraída entre outubro de 2025 e fevereiro deste ano, faturada às empresas Pull Up Academy e Best Wing Air Consulting.

“Já algum tempo que se andava com receio e a cortar, visto haver notícias da falta de pagamentos a várias entidades, mas esse valor não se conseguiu receber”, disse o proprietário, Henrique Jorge, que, desde março, aguarda respostas por parte de João Roque.

A Lusa contactou João Roque Santos, o qual respondeu que iria falar com a sua advogada, aguardando a Lusa os esclarecimentos solicitados ao diretor executivo da Lusofly Academy.

Foto: DR



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