Manuel Igreja

Manuel Igreja

Macaquinhos de Imitação

Ao longo dos tempos, as comunidades locais iam fortalecendo e mantendo a respetiva identidade coletiva, através de usos culturais recebidos e passados de geração em geração. Os anos passavam ronceiros e iguais uns aos outros. Os hábitos culturais cimentavam-se com o seu devir alterando-se lentamente e de oras em quando com influências externas trazidas por novas gentes de passagem ou de fixação.

Os povos defendiam acérrima e orgulhosamente os seus costumes. Exibiam-nos, cultivavam-nos sem se preocuparem muito se eles se estendiam ou não a outras latitudes, pelo menos até que a pretexto deles se procurou a conquista de teres e de haveres. De riquezas subtraídas com custos para muitos e com proveitos para poucos. Foi o que foi a coberto de muitas desculpas.

O Entrudo que por estes dias se celebra com o nome de Carnaval era uma dessas tais tradições vindas da fundura dos tempos. Nunca vi, mas ainda me lembro de ouvir os idosos da minha aldeia nos meus tempos de rapaz, contarem as tropelias que pelo Entrudo se faziam na terra. Não faltava a imaginação nem a vontade de gozar com o quotidiano de uns e de outros. A sátira popular era bem-vinda sem que alguém levasse a mal o retrato feito com caricatura e com imaginação.

Ainda hoje de resto e felizmente não faltam por esse país de Deus afora, exemplos vivos e de se aplaudir de semelhante tradição. Podemos inclusivamente afirmar com contentamento que existe um verdadeiro ressurgimento cultural no reavivar dos costumes de entrudo o que é excelente e se recomenda. Aliás, a coisa neste contexto, começou a ser notada como capaz de gerar boas oportunidades de negócio.

No entanto, a questão onde eu bato e que originou o título deste singelo texto é outra. Sucede que há algo por estes dias que me causa algum mexer na cadeira para não dizer de outro modo. Falo do Carnaval, ou antes, de certos e tristes eventos alusivos que se concretizam e exibem ufanamente em certas localidades deste nosso cinzento país banhado com inúmeras horas de sol. Não há forma de a luminosidade das ideias romper…, mas isso é outra dança.

Acontece que a páginas tantas do nosso percurso coletivo, por força das influências das telenovelas, essas grandes educadoras da classe operária e afins, o Entrudo virou Carnaval e os caretos viram moçoilas desnudadas a pavonear os supostos atributos físicos em pleno clima de frio de rachar. Como se estivéssemos nos trópicos não falta o ritmo musical próprio e fresco numa absurda falta de contexto ambiental e cultural.

Para animar a festa e atrair a multidão, não faltarem em tempos as estrelas televisivas vindas do lado de lá do mar pagas a peso de ouro para gaudio do estimável público. Sem inteligência da nossa parte, sem vergonha e sem respeito pela nossa identidade cultural, agimos como se absorvêssemos a cultura dos outros, que mesmo que nos diga algo, não é neste assunto de todo nossa.

Posso até estar errado e a ser fundamentalista, mas não gosto de ver algumas coisas, principalmente quando elas são praticadas animadamente em jeito de macaquinhos de imitação que tresloucam mas não educam. O Carnaval em certos sítios pode até regalar as vistas de alguém, pode até trazer alguns proventos de caixa, mas não é original. Tenham paciência, mas samba e raparigas a manusear o bem bom é no Brasil.


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