O pátio da Casa dos Magistrados, em Miranda do Douro, abriu ontem, sexta-feira, as suas portas ao público para acolher a apresentação oficial de “L Nuosso Reino”. A obra traduz para a língua mirandesa o aclamado romance de estreia de Valter Hugo Mãe, “O Nosso Reino”, num trabalho da responsabilidade da Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa (ALCM) com tradução assinada por Alcides Meirinhos. O evento literário decorreu num ambiente de forte pendor identitário, coincidindo com as celebrações dos 30 anos de carreira do conceituado escritor português.
A abertura da sessão foi assegurada pela Presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Helena Barril, que deu as boas-vindas aos presentes e elogiou a "empreitada tão feliz" levada a cabo pelo tradutor. A autarca relembrou que a região viveu dias de grande júbilo cultural, fazendo uma ponte direta com o lançamento — ocorrido no dia anterior — da Constituição da República Portuguesa também traduzida para mirandês por Alcides Meirinhos. Helena Barril expressou ainda a gratidão do município a Valter Hugo Mãe por ter aceitado o desafio de ver o seu primeiro livro integrado no património linguístico mirandês.
A apresentação detalhada da obra ficou a cargo de Alfredo Cameirão, comissário da Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa. O comissário surpreendeu o público e o próprio autor ao resgatar uma crónica escrita por Valter Hugo Mãe no Jornal de Letras, em 2016, intitulada "Astur Mirandês", onde o escritor já defendia a urgência de preservar o mirandês para resguardar um universo mental específico. Num discurso focado na resistência poética, Alfredo Cameirão sublinhou que a inclusão de grandes vozes contemporâneas no mirandês retira a língua do estatuto de mera "relíquia guardada com nostalgia" e eleva-a a "campo vivo de pensamento". Destacou também a proeza de Alcides Meirinhos ao traduzir literatura de alto nível sem o auxílio de dicionários formais, recorrendo apenas a "protodicionários" e pequenos vocabulários.
Alcides Meirinhos, membro da ALCM e tradutor da obra, partilhou com a audiência os contornos do processo criativo, revelando que o exigente trabalho de transposição linguística teve início em 2018 e estendeu-se até 2022. De acordo com o tradutor, o maior desafio residiu na adaptação da terminologia costeira do romance original para a realidade geográfica e cultural do interior transmontano. “A grande dificuldade foi a adaptação da terminologia que caracteriza a região do litoral para a paisagem do interior. Ou seja, tudo que é ligado à orla litoral como praia, marés... Aqui o trabalho foi adaptar a paisagem da Terra de Miranda à do litoral, no que respeita à ligação ao mar”, explicou, reforçando que a publicação visa afirmar a capacidade do mirandês em recriar a literatura contemporânea.
O encerramento do evento coube a um visivelmente emocionado Valter Hugo Mãe, que assumiu o "orgulho e a gratidão impossíveis de explicar" por ver o seu livro de estreia figurar ao lado de vultos da literatura já traduzidos para a língua local, como Camões, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueira.
O escritor descreveu-se como uma "alma montanhosa" e caraterizou o mirandês como um "regresso à origem" e uma "língua de trabalho", herdeira de povos braçais que preserva uma identidade pura. Brincando com a assistência sobre o facto de o livro ter transitado do terceiro ciclo para o ensino secundário no Plano Nacional de Leitura devido a polémicas do passado, o autor acabou por elogiar a "coragem" da tradução e revelou ter ficado fascinado com o vocábulo mirandês boubico."É a palavra mais bonitinha, mais querida que ouvi nos últimos 250 anos", rematou, prometendo adotá-la numa das suas próximas obras literárias, celebrando a forma como as línguas se cruzam e fortalecem mutuamente.
A sessão encerrou com a atuação do coro feminino Bozes de l Praino (Vozes do Planalto), que trabalha as polifonias tradicionais da região e que nos brindaram com lindas canções do cancioneiro mirandês.
DTM