Pastores do Planalto Mirandês realizam no domingo uma manifestação no Naso, em Miranda do Douro, para exigir apoios ao Governo depois dos ataques de lobos a rebanhos que ocorreram no território nos últimos meses e provocaram prejuízos.

A manifestação está marcada para a manhã de domingo durante o 4.º Encontro Ibérico das Raças Autóctones, que vai decorrer no fim de semana no Santuário do Naso, no concelho de Miranda do Douro, distrito de Bragança.

Em declarações à agência Lusa, António Padrão, um dos mentores desta ação, disse hoje que esta será uma “manifestação silenciosa”, na qual os pastares vão vestidos de negro com frases estampadas nas t-shirts como “Lobo protegido, pastor falido” ou “Vamos salvar o Planalto”.

“O Planalto Mirandês está a ficar desertificado no que respeita aos pequenos ruminantes. As indemnizações por perda de animais resultantes dos ataques dos lobos são fracas e chegam tarde. No caso de uma ovelha prenha, só pagam a ovelha e nunca os cordeiros. Isto é muito prejuízo”, vincou o pastor e empresário.

Segundo António Padrão, ultimamente, no Planalto Mirandês os lobos levam tudo à frente, sejam animais de pequeno ou grande porte.

Já a secretária técnica da Associação Nacional de Criadores de Ovinos de Raça Mirandesa, Andrea Cortinhas, explicou que os produtores estão a chegar a um momento de saturação e a acharem que nunca são ouvidos pelas entidades competentes.

“Temos neste momento um grave problema que é a presença do lobo–ibérico. Sempre que há um ataque [aos rebanhos] fica sempre a dúvida de que terão sido cães assilvestrados ou cães que são pertença dos pastores. A verdade é que os produtores estão a ter enormes prejuízos e estão a chegar a um ponto de saturação, e pretendem celeridade das intuições como o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF)”, sublinhou.

Segundo a técnica, esta realidade tem acontecido desde há dois anos, havendo a necessidade de repensar o problema em conjunto com os produtores, associações do setor e ICNF.

“Tem de haver um equilíbrio entre todos para minimizar esta situação. Não podemos estar sempre a defender o lobo-ibérico, porque quem sustenta o território e luta diariamente para que o equilíbrio seja mantido são os produtores, que nos colocam o alimento na mesa”, vincou Andrea Cortinhas.

A técnica referiu que houve um pico de alegados ataques de lobos entre o mês de abril e o início de agosto, em que só a produtores da associação foram mortos cerca de 90 animais.

“Nós temos cerca de cinco mil animais inscritos no livro genealógico e perdemos 90, entre abril e agosto. É património genético que se está a perder diariamente e não há possibilidade de o recuperar. Isto é frustrante e não sabemos o que fazer”, frisou.

Andrea Cortinhas disse ainda que esta ameaça do lobo-ibérico “é muito recente”.

“Sou secretária técnica há 11 anos, era muito raro haver um ataque de lobos. Estes ataques começaram há dois ou três anos. Quando passamos de um período sem ataques para outro com ataques enormes, tiveram que ser criados sistemas de defesa como a construção de cercas nas propriedades, entre outras medidas, mas para isso são precisos apoios”, explicou.

Em outubro de 2025, pastores do Planalto Mirandês (Vimioso, Miranda do Douro e Mogadouro) queixaram-se que os ataques de lobos ocorridos desde o início desse ano foram "uma calamidade".

Segundo o ICNF, o lobo-ibérico é protegido em Portugal desde 1988. O facto de ser um animal ‘em perigo’ confere-lhe o Estatuto de Espécie Protegida.

Existem diversas medidas de proteção da espécie, entre as quais se destacam indemnizações por danos causados pelo lobo-ibérico e projetos que apoiam os criadores de gado e incentivam medidas de proteção, como o uso de cães de gado de raças autóctones.

Em dezembro de 2025, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciou que o Governo iria duplicar o valor das indemnizações pagas no caso de ataque de lobos, com retroativos desde início do ano, no âmbito do Programa Alcateia.



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