Cerca de 300 quilos de uvas foram despejadas hoje em frente à sede do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), na Régua, num protesto simbólico para alertar para as dificuldades de escoamento nesta vindima.

A informação foi avançada à agência Lusa por Joaquim Monteiro, da Associação Lutar pelo Douro, que explicou que alguns viticultores resolveram despejar as uvas em frente ao IVDP com o objetivo de alertar para as "dificuldades crescentes" que se sentem na mais antiga região demarcada e regulamentada do mundo, o Douro.

“Ninguém quer comprar uvas, não há preço, não sabemos o que vamos receber, vai ficar muita uva na videira, isto, enfim, está muito mal”, afirmou o viticultor de Ervedosa do Douro, em São João da Pesqueira.

Numa altura em que se intensificam as vindimas nesta região, há, segundo explicou, muitos viticultores que ainda não sabem a quem vender as uvas.

Uns têm apenas assegurada a venda de uvas para o benefício, ou seja a quantidade de mosto que cada produtor pode destinar à produção de vinho do Porto, não sabendo o que fazer à restante produção.

Mas, segundo Joaquim Monteiro, este ano há também empresas que nem sequer as uvas beneficiadas estão a comprar.

“Há quem não queira nem benefício nem Denominação de Origem Controlada (DOC) Douro. O problema no Douro está-se a agudizar de ano para ano", realçou.

No seu caso, prevê uma colheita de 30 pipas de vinho (550 litros cada) e só tem, até ao momento, assegurada a venda das uvas destinadas ao vinho do Porto.

A iniciativa simbólica de hoje visou chamar a atenção nomeadamente do IVDP e do Governo, e reclamar medidas urgentes.

Uma dessas medidas, de acordo com Joaquim Monteiro, é a uva para destilar, com moldes diferentes aos aplicados na vindima do ano passado, sublinhando que o apoio seria atribuído diretamente ao viticultor.

O parlamento aprovou a 17 de julho a recomendação do partido Juntos Pelo Povo (JPP) para a criação da medida “uva para destilação 2026”, para ajudar os viticultores da Região Demarcada do Douro nesta vindima e valorizar os excedentes.

A resolução – que não tem força de lei, constituindo-se como uma recomendação ao executivo - foi aprovada com os votos a favor do PSD, Chega, PS, Livre, PCP, CDS-PP, BE, PAN, JPP e a abstenção da IL.

A medida foi implementada pelo Governo, pela primeira vez, na vindima de 2025, estabelecendo um apoio de 50 cêntimos por quilo de uva aos viticultores que entregaram este fruto para produção de vinho para destilação.

A proposta do JPP quer recuperar esta medida na vindima 2026, em regime de apoio reembolsável, destinada à valorização dos excedentes vitivinícolas da RDD e à proteção do rendimento dos viticultores.

O partido com deputado único lembrou, na altura, que se encontra em apreciação parlamentar o projeto de lei n.º 236/XVII/1.ª que defende o uso exclusivo de aguardente vínica com origem e produção na RDD na beneficiação do vinho do Porto e moscatel.

Joaquim Monteiro referiu que os viticultores do Douro “sentem que estão abandonados” e destacou dois problemas na região: - “Nós não temos uvas a mais, temos vinhos a mais, temos vinho que circula clandestinamente pela região e depois é vendido como Douro”.

Depois, acrescentou os custos de produção que "são caríssimos”.

No entanto, referiu que nesta região, a generalidade dos agricultores “só vai deixar tudo a monte quando não tiver mesmo dinheiro”.



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