O Centro de Música Tradicional Sons da Terra, em Sendim, Miranda do Douro, assinala 25 anos e vive o problema de onde guardar os cerca de 92 mil registos do seu espólio.
O espaço foi inaugurado em 01 de setembro de 2001 e tem uma vasta coleção de registos etnomusicológicos com cerca de 820 gravações feitas no Planalto Mirandês, em particular, e no Nordeste Transmontano, em geral. O inventário de fotografia soma 73.927 imagens relacionadas com música, dança e cultura trasmontanas, junto à raia nordestina.
No que concerne à discografia de cantares e música tradicionais, estão contabilizados 84 discos de edição do Sons da Terra, bem como arquivos em formato VHS com filmes, documentários históricos, etnográficos e performativos que fazem do centro um local onde investigadores e visitantes procuram saber mais sobre a cultura ancestral do Planalto Mirandês, que abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, no distrito de Bragança.
O Centro de Música Tradicional preserva ainda muitos mais registos, em diferentes formatos. Há 25 anos que se dedica a perpetuar a memória coletiva de um povo através de recolhas de campo, com registos de antigos cantadores, gaiteiros e outros tocadores de instrumentos tradicionais.
Entre estantes, prateleiras e armários de arquivo, onde tudo está preservado e catalogado, o diretor do Centro de Música Tradicional Sons da Terra, Mário Correia, disse à agência Lusa que o futuro deste equipamento cultural é o grande desafio.
O longo caminho feito nestes 25 anos não foi fácil, e há ainda muito para fazer e registar, garante o diretor, para quem a falta de apoios pode condicionar este trabalho.
“A única garantia que tenho é que o Centro de Música Tradicional fará parte do Arquivo Nacional do Som que está a ser instalado em Mafra. Apesar de vir a ser integrado nesta rede, nenhum dos elementos deste espólio sairá do seu lugar de origem. Serão criadas estruturas de ligação entre os dois espaços”, vincou.
Ao longo destes 25 anos, muito foi feito. Uma das missões iniciais foi gravar os gaiteiros da Terra de Miranda, figuras centrais nas festas, procissões e na vida quotidiana da região, estabelecendo elos com o passado e as tradições, através das danças dos Pauliteiros e das festas de inverno, testemunhos da identidade e também do isolamento da região.
“Este caminho tem sido um percurso de descoberta", disse Mário Correia à Lusa. "Quando aqui cheguei, em 2001, o objetivo era gravar a tradição dos gaiteiros de Miranda do Douro e Mogadouro, sobre os quais se criou uma mística. Ao fazer estes registos, apercebi-me que os velhos gaiteiros estavam ligados a um ou outro grupo de pauliteiros e já não eram muitos estes grupos de dançadores, havendo, assim, todo um repertório que não estava a ser registado e que era necessário gravar”, explicou.
O etnomusicólogo começou a fazer gravar nas próprias aldeias, para que os locais se aperceberem de que estas formas de cultura tradicional estavam a ser valorizadas.
“Sempre achei que a música fazia parte da vida das pessoas, e a vida das pessoas" ia muito além da dança dos pauliteiros. "Havia outra forma de estar no quotidiano, como as cantigas da segada, os romances, os jogos de roda e reportórios religiosos que era preciso registar”, sublinhou.
Com a recolha e a preservação dos registos, o Centro de Música Tradicional começou também a receber investigadores e estudantes universitários que aqui vinham fazer as suas pesquisas, muitos provenientes da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Aveiro, instituições onde também se encontram cópias de muitas recolhas do centro.
"Isto é um centro de estudo e investigação, não é um museu, por onde as pessoas passam de visita. O espólio do centro é composto basicamente pelo registo da tradição oral, bibliografia desses fonogramas e, claro, sempre a língua mirandesa, para ser estudada", explicou à Lusa Mário Correia.
“Há muitos registos inéditos arquivados no Centro de Música”, acrescentou.
Os arquivos em suporte VHS, já ultrapassado e frágil, soma 227 unidades.
O centro conta ainda com registos de Michel Giacometti e recolhas feitas por Judith Cohen, em comunidades criptojudaicas.
Todos estes trabalhos estão ao dispor de investigadores e são passíveis de edição.
Segundo Mário Correia, "o centro de música tradicional é o único espaço do género em todo o país e um dos mais importantes da Península Ibérica", tanto mais que "o seu acervo é anualmente visitado por algumas centenas de pessoas ligadas ao estudo e investigação das tradições".
De momento, Mário Correia está a gravar uma nova geração de gaiteiros do Planalto Mirandês. "Daqui a 30 ou 40 anos alguém poderá ouvir o que toca esta geração, que então já será passado”.
Como parte das atividades, o Centro de Música Tradicional Sons da Terra foi responsável pela organização de 24 edições do Festival Intercéltico de Sendim, com participação de músicos portugueses e estrangeiros, sobretudo nomes destacados da 'folk'.
O espaço cultural está sediado na vila nordestina de Sendim, concelho de Miranda do Douro, e ocupa o espaço de uma antiga residência paroquial que foi cedida exclusivamente para a promoção de atividades culturais.
Lusa