Teresa A. Ferreira

Teresa A. Ferreira

Parte I - Festa dos Caretos em Torre de Dona Chama

Crónica 6: Parte I - Festa dos Caretos em Torre de Dona Chama

Natal, em Torre de Dona Chama, é sinónimo de reunião da família e de Festa dos Caretos e Santo Estêvão.

Os flamenses guardam férias para regressarem à Terra nestes dias. Sentem esta festa de maneira especial, dado que, nesta ocasião em concreto, não há classes sociais. Diverte-se o rico e o pobre, lado a lado. A continuidade destas celebrações deve-se ao espaço dado ao improviso, sendo que, não é esquecida a génese da tradição.

A Festa dos Caretos, consiste na recreação da batalha entre mouros e cristãos, cujo objetivo é a reconquista do castelo e da localidade da Torre aos mouros.

Reza a lenda de que os cristãos estavam em posição enfraquecida face aos mouros. Houve a necessidade de montar uma estratégia para os derrubar, envolvendo tudo e todos da localidade, executada nos dias 25 e 26 de dezembro.

Hoje vamos centrar-nos, nos acontecimentos do dia 25 de dezembro, após o jantar.

No Largo do Pelourinho e do Berrão, acende-se o gigantesco madeiro, por volta das 20:30. Este é o ponto de partida para se dar início à execução do plano. A lenha vai ardendo, noite fora, até se extinguir.

Cabe a um grupo de homens roubar todas as montarias dos mouros, para os enfraquecer, ou seja, Roubar os Burros.

Outro grupo vai, de casa em casa, percorrendo toda a localidade, munido de embudes, Deitar os Jogos à Praça. Estes dizeres são a senha para cada um saber o que tem a fazer na batalha que se travará no dia seguinte.

Nem as crianças foram deixadas de fora. Um homem mais maduro intervém como Pastor e o Seu Rebanho. Este teatro é pura distração para não gerar desconfianças.

Diz o povo e com razão: “Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”.

Vou, então, contar-vos algumas peripécias que me foram chegando aos ouvidos e outras vivenciadas, sobre acontecimentos passados no dia 25 de dezembro.

Depois do jantar, alguns moradores vão até à fogueira para apreciar o que por lá se passa; outros ficam a guardar a loge[1] do burro, não vá dar-se o caso de alguns mariolas lho irem roubar; e outros esperam pacientemente, em casa, a senha de guerra.

Ti Ana, boa senhora e que Deus a tenha em bom descanso, um certo ano, resolveu que ninguém lhe havia de roubar o burro. Não pense o leitor, mais desprevenido, de que este “roubar” é verdadeiro. Nada disso. No dia seguinte, após a festa, os animais são devolvidos aos donos, sãos e salvos. Tudo isto faz parte da encenação. Continuemos então.

Morava numa casa rústica de pedra. No primeiro andar, vivia a família; e por baixo, ficava a loge do burro, a adega e outros arrumos.

Foi à loge, pôs a cabeçada e os arreios ao burro e encaminhou-o, a muito custo, pelas escaleiras exteriores até ao primeiro andar. Meteu-o na cozinha onde tinha a lareira acesa. Sendo uma senhora muito asseada e briosa, veio-lhe ao pensamento de que o animal poderia defecar no seu bonito chão de soalho que tanto trabalho lhe dava a manter. E, nestes pensamentos, surgiu-lhe a ideia de arranjar uma fralda para o burro. Foi procurar um grande plástico que utilizou para o efeito. Sentou-se junto à mesa, próximo da lareira, enrolou as rédeas no braço e com o passar das horas adormeceu, debruçada sobre a mesa.

Um sobrinho da ti Ana foi com uns rapazes à loge dela, para lhe roubarem o burro. Nada! Onde estará o burro guardado? – diziam eles. Procuraram por todos os lados possíveis. Lembraram-se de subir as escaleiras. Em pés de lã foram parar à cozinha. Especados com o que viam, com uma mão tapavam a boca e a outra seguravam a barriga para não acordarem a senhora com tamanho ataque de riso:

- Um burro de fralda! Onde é que se biu[2] tal cousa!?

Foram-se embora sem roubar o burro.      

Junto à fogueira, enquanto me aquecia pela frente e a traseira enregelava, lembro o leitor de que nesta época costumam estar temperaturas bem abaixo de zero graus centígrados, escutei ti Maria dizendo para a vizinha:

- Sabe o que fiz, Tonha? Botei três aloquetes[3] na porta da loge do meu burro. Este ano, essa malandragem, não mo roubam. Ai deles!

A vizinha fez que acreditou na conversa anuindo com um leve sorriso.

Dali a pouco, meia hora, talvez, aparecem uns rapazolas ao pé da fogueira em grande algazarra, exibindo o troféu a duras penas conseguido. Um montado no burro e dois vinham a pé, rindo e segurando as rédeas. O burro estava um espanto! Chapéu de palha na cabeça e cachecol ao pescoço com listas coloridas.

Ti Maria dá-se conta do caso e, incrédula, atira bem alto para quem a quis ouvir:

- Filhos duma puta! Não é que me roubaram o burro!

E o povo ria.

- Fazei-me cuidado com ele, oubistes[4]? Se não, amanhã, parto-bos[5] os cornos.

Depois desta, brotavam gargalhadas, soltas e estridentes, com o responso da ti Maria.

Os burros roubados passavam pela fogueira para seguirem até ao esconderijo onde iriam pernoitar até ao Cortejo da Ciganada, no início do dia seguinte. Este cortejo tem um grande significado no desenrolar da estratégia da reconquista. A seu tempo saberão tudo.

O grupo que deita os jogos à praça, divertido e bem bebido, secundado por tocadores de caixa e bombos, faz rir os moradores que não ousam pôr o pé fora de casa.

Abeiram-se de uma casa e com os seus embudes deitam os jogos:

- Manda El-rei meu Senhor! (Bis)

- Que amanhã! (Bis)

- Saiam com os seus jogos à praça. (Bis)

- O ti Chico? (Bis)

- Olha o gaiteiro fadista! (Bis)

- Bem te pinta! Bem te pinta! (Bis)

Animadamente seguem para a próxima casa que, melhores dizeres não lhe espera! Todos quantos acompanham o grupo, ficam em suspenso à espera do que irá calhar ao vizinho, para se desmancharem a rir, prova viva do são convívio entre todos.

Tendo terminado o percurso, regressam à fogueira sem fôlego e com as pernas bem desgastadas. Mas muito terão ainda pela frente. Ninguém vai à cama até terminarem as festas, daí o imperativo de manter esta boa gente quente e com o estômago aconchegado. Há um panelão de café e outro de cacau, na fogueira, sobre as brasas, vinho em abundância, aguardente, bacalhau seco para puxar à bebida, carne assada, pão e caldo verde. Todas as pessoas comem e bebem o que lhes apetecer.

Em tempos idos, ti Zé Estraga, homem bom, humilde e com numerosa família, formava um rebanho com os garotos do Bairro de Cima, que cumpriam o papel de cordeirinhos e ele o de pastor. Este momento era aguardado o ano inteiro com enorme alegria e ansiedade pelas crianças.

O rebanho seguia, fervorosamente, o seu líder, de casa em casa, vestindo cada um, uma pele de ovelha e chocalhos ao pescoço. Tudo cumpria e seguia a preceito.

Chegados à soleira de uma casa perguntava, ti Zé Estraga, ao rebanho:

- O meu gadinho tem fome?

A garotada prontamente respondia:

- Mé, mé, mé...

De novo interrogava o rebanho:

- O meu gadinho tem sede?

Respondia o rebanho:

- Mé, mé, mé...

Os donos da casa abriam a porta e lá davam qualquer coisa, pouca, normalmente davam jeropiga, o que não era nada bom para os garotos, tinham mais fome do que sede. Os tempos eram apertados para todos, e, de porta em porta que se abria, lá se matava um pouco a fome e a sede a este animado rebanho. Tempos longínquos!

Continua a festa, noite fora, ninguém vai à cama.

O resto?

Contá-lo-ei na próxima crónica.

 

Texto, foto e vídeos:

©Teresa do Amparo Ferreira, 18-12-2020

 

Vídeo "Deitar os Jogos à Praça": https://youtu.be/3e39Dvn4l_s

Vídeo "A Fogueira": https://youtu.be/5KgW-DQtQMg

Máscara de ferro com mais de 100 anos, usada pelos Caretos de Torre de Dona Chama.


[1] Loge - Estábulo

[2] Biu - Viu

[3] Aloquete - Cadeado

[4] Oubistes - Ouvistes

[5] Parto-bos – Parto-vos


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