Os viticultores durienses querem uma intervenção urgente do Governo para resolver a insustentabilidade económica em que se encontram após receberem cartas a cancelar encomendas de uvas, disse hoje à Lusa fonte da Casa do Douro.
“Fomos confrontados agora, nesta altura do ano, [pelas] casas a quem vendemos as uvas que, ou não querem uvas, ou apenas querem as uvas destinadas para o vinho do Porto, sem ainda qualquer tipo de preço. Ou seja, temos uma produção e uma colheita [que] praticamente irá ficar na vinha, porque neste momento ninguém quer uvas”, disse à Lusa Marinete Alves, que faz parte do Conselho Regional da Casa do Douro.
Segundo a viticultora, existem produtores da Região Demarcada do Douro (RDD) que irão iniciar a vindima das uvas destinadas a vinho espumante já no início de agosto.
“Contactámos outras empresas para saber se querem uvas e a resposta que nos dão é que não, só querem uvas destinadas para o [vinho do] Porto, que é o cartão do benefício, fora isso, ninguém quer mais uvas. Os viticultores estão numa situação completamente catastrófica, estão desesperados, porque têm um ano de trabalho em que gastaram todo o seu rendimento e não têm agora forma de o recuperar”, frisou.
Marinete Alves alertou, ainda, para uma “total insustentabilidade económica dos viticultores”.
“O comércio tem-nos sob a sua dependência económica, porque não temos outra forma de escoar o produto a não ser através das entidades que nos compram as uvas. Chegamos a esta altura da vindima, informam-nos que não querem as uvas e impediram-nos de tentarmos estabelecer outras relações comerciais. É um estrangulamento completo do viticultor, uma asfixia”, afiançou.
De acordo com a também dinamizadora da petição de 2024 "Salvem os viticultores do Douro", que chegou às 2.600 assinaturas, dois dos motivos apresentados pelas casas exportadoras para a recusa da compra de uvas é o excesso de ‘stock’ e a falta de produto.
“O motivo que apresentam é que não conseguem fazer escoamento do vinho, que têm muito ‘stock’, mas é um contrassenso, [porque] aumentaram o [benefício] da produção de Porto em mil pipas. Depois, dizem que não temos uvas suficientes na região para a produção de aguardente e vinho, mas depois temos uvas em excesso, [que] vão ficar na vinha. Há um monopólio do comércio em que os viticultores estão sob uma dependência económica brutal e só fazemos o que eles querem”, reiterou.
Perante esta situação, os viticultores reclamam uma intervenção urgente do Governo na região.
“Estamos à porta de [mais] uma vindima, urge a necessidade de o Governo acolher a recomendação do partido Juntos Pelo Povo (JPP), aprovada na Assembleia da República [em 17 de juho], que permite adquirir uvas destinadas à destilação a, pelo menos, 90 cêntimos”, destacou.
Segundo a viticultora, embora o preço médio do custo de produção seja de um euro e meio, os 90 cêntimos propostos pela resolução do JPP – que não tem força de lei, constituindo-se como uma recomendação ao executivo - ajudariam os viticultores a suportar os custos até serem “tomadas medidas estruturais na região”.
“Neste momento, para não termos as uvas penduradas na videira, [queremos] que o Governo adote e acolha este projeto de resolução. Isto é um apelo urgentíssimo”, defendeu.
Marinete Alves adiantou, ainda, que a Associação Lutar pelo Douro fez um pedido de audiência ao Presidente da República, “para que tenha consciência da situação e que possa, de alguma forma, interpelar o Governo a tomar uma decisão imediata e urgente para a região”.
A RDD vai transformar um total de 76 mil pipas de mosto em vinho do Porto nesta vindima, mais mil do que no ano anterior, decidiu o conselho interprofissional do IVDP em 17 de julho.
Cada pipa de vinho do Porto pode corresponder a uma média de mil euros pagos aos viticultores, sendo o benefício uma das principais fontes de rendimento dos produtores durienses.
Lusa