«Antigamente, entre a pergunta e a resposta passavam-se semanas». Era a angústia à espera da volta do correio, quando o ditame segundo o qual a distância da vista era equivalente à do coração não tinha expressão no Português da saudade. A vida era pensada em função dos ausentes.

Tanto cá como lá. Lá, o destino escolhido para endireitar os dias de cá. Hoje, a resposta leva segundos. O telefone, a Internet, o avião aproximaram Portugal e os seus filhos da diáspora, numa equação que já não encontra paralelo nas coisas da alma. Portugal já não a é única referência da vida deles. E muito menos a mais importante. Eles são os emigrantes. E já não são os mesmos.

Até a romaria de Agosto ganhou contornos diferentes. Raramente cobre o mês, Portugal já é só o país de origem, não mais o de futuro. E uma viagem pelo país deixa isso perfeitamente claro. Se ainda encontramos emigrantes à moda antiga, são a excepção que confirma a regra. Já poucos admitem enviar para cá poupanças, menos ainda constroem os casarões exuberantes com que povoavam a paisagem rural, investir é no país onde os filhos nacionalizados casaram e procriaram.

«Há uns 30 anos, era Portugal que dava sentido à vida dos emigrantes», explica-nos Albertino Gonçalves, sociólogo da Universidade do Minho. E quando regressavam ao trabalho, boa parte do tempo de descanso passava por recordar imagens de cá. Para comentar as férias e a vida que passou para os que ficaram cá. E de novo para preparar as férias.

«A vida era obsessivamente vivida em função de cá», o que chegava a não ser sempre bem visto pelos portugueses de Portugal. Era preciso «mostrar o sucesso» da partida. Fala-se, naturalmente, dos carros espampanantes, das casas desenquadradas, das roupas de gala em tardes de suor, das rodadas nos cafés.

Mais integração

Hoje, pura e simplesmente, os emigrantes «têm uma vida lá fora», analisa o sociólogo. Com hobbies, filhos escolarizados numa língua e numa cultura diferente e... mulher. Porque se os mais antigos seguiam sozinhos, os que se lhe seguiram passaram a levar as esposas. «As mulheres são sempre um vector de integração nas sociedades de acolhimento, tratam de criar relações».

A vida constrói-se longe das raízes e quando é para investir, a aposta é na melhoria da qualidade de vida. Lá, claro. Uma constatação que contraria os fluxos de remessas de emigrantes, em aumento nos últimos anos. Foram 2277 milhões em 2005 e 2420 milhões no ano passado. Ainda assim, longe dos 3737 milhões de 2001 e dos 2731 milhões de há dez anos. E sobretudo enviados no Verão.

«Continuam a vir de férias, mas olham-nas como qualquer francês ou alemão do nível deles as olham». Perdeu-se o conceito de «peregrinação». Passam-se uns dias na aldeia - que é um óptimo destino de férias, rural, ecológico, calmo, mas não o único possível - e segue-se para o Algarve. Ou o Mundo. «Já nem sequer estão preocupados com o que dizem ou pensam os de cá».

«Os emigrantes deixaram de se empenhar na posição na sociedade portuguesa». Uma mudança de atitude que também tem muito a ver com as perdas afectivas. Os mais velhos vão morrendo, os mais novos são, no fundo, estrangeiros uns aos outros. E Portugal mudou para ser cada vez mais como qualquer outro país. Além de se ter aproximado. «Hoje é mais fácil dizer-se de um dia para o outro Vou!» e o telefone é usado quase diariamente.

«Nos anos 60 havia cá mulheres sem notícias do marido durante um mês ou mais e ficavam na angústia», às vezes para confirmar um boato trazido por outro emigrante que entretanto passasse pela terra. Sem o querer, Albertino Gonçalves teoriza sobre a constatação com que abrimos o texto. É de Lúcia Pereira, de Murça, que hoje aproveita a Internet dos filhos para falar com parentes emigrados.

Portugal ficou menos longe. Menos ideal?



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