A cantora portuguesa emmy Curl, a celebrar 20 anos de carreira, edita hoje “Pastoral 2.0”, álbum que resulta de um trabalho continuado de investigação da música tradicional portuguesa e no qual se estreia a cantar em mirandês.
Composto por oito temas, entre originais e versões, “Pastoral 2.0” é uma homenagem a Trás-os-Montes, de onde emmy Curl (Catarina Miranda Trindade) é natural, à sua cultura e às suas gentes.
O novo trabalho de emmy Curl, que há mais de uma década se dedica à investigação da música tradicional portuguesa, que combina com sonoridades contemporâneas, surge dois anos depois de “Pastoral” e é uma extensão do álbum que valeu a emmy Curl o Prémio José Afonso 2025.
A artista contou à Lusa que “já tinha posto o olho” a alguns dos temas que trabalhou para o novo álbum, no processo de pesquisa para “Pastoral”, caso de “Bento Airoso”, uma música tradicional transmontana.
“Tenho uma pasta onde guardo todas as músicas que vou colecionando, de cancioneiros. Tudo o que eu vejo já com métrica que me interessa, ou vídeos antigos, ponho lá. O intuito é depois, com essas coleções, ir mostrando em vídeos ao vivo, ou refazendo as canções”, disse.
Outra das versões incluídas no disco é “Romance da Lhoba”, uma canção tradicional cantada em mirandês, já gravada anteriormente pelos Galandum Galundaia e pelos Gaiteiros de Lisboa.
De acordo com emmy Curl, “não há muito cancioneiro em mirandês, porque não havia recolha”.
“Então o que estou agora a fazer é colecionar poemas, histórias, para depois mais tarde musicá-los. Há muita coisa por fazer, principalmente em mirandês, então é assim um diamante em bruto de imensidão de coisas”, referiu.
“Pastoral 2.0” inclui também uma versão de “Lembra-me um sonho lindo”, de Fausto Bordalo Dias (1948-2024), e uma outra de “Meu amor anda sempre de barco”, de João Lóio (1953), temas que remetem para “o céltico na maneira de cantar, e até nas harmonias e nas melodias”, também presente na música portuguesa.
“Temos em Portugal, além do fado, uma maneira de cantar até muito parecida com o céltico. […] Há uma parte da História do nosso país - que depois fui descobrindo ao longo deste processo do ‘Pastoral’ - que não nos está devidamente contada, e que é muito interessante, é muito bonita”, referiu emmy Curl.
Para a cantora, as canções de João Lóio e de Fausto que decidiu incluir no disco, “fazem muita justiça a este exemplo de uma vertente diferente ao fado, que também é portuguesa”, e que José Afonso também representa.
Nascida em Vila Real, “que é um vale”, emmy Curl conta que tinha as montanhas como televisão. “Aquele panorama todo a bloquear-me a vista, dava segurança e ao mesmo tempo também muito isolamento. E descobri que existe ainda mais para além disso, que existiu ali toda uma cultura celta que era algo que me arrepiava e eu não sabia”, partilhou.
Quando encontrou essa “caixa de Pandora”, descobriu algo que sempre a fascinou e que acabou por se refletir na música que faz há 20 anos.
“Mesmo no meu primeiro, EP, que se chama ‘Origins’, que é Origens em português, está lá. Sempre fui muito influenciada pelo misticismo do que me rodeava”, disse.
O alinhamento de “Pastoral 2.0” inclui também duas canções, “Incerteza” e “Encanto”, com letra do poeta Alberto Miranda (1919-1992), bisavô de emmy Curl. “Achei que fazia justiça um poeta transmontano ficar reconhecido numa música”, disse.
Embora saiba que vai continuar o trabalho de investigação e recolha de música tradicional, emmy Curl ainda não decidiu se haverá um ‘Pastoral 3.0’.
“Tenho várias ideias na minha cabeça, mas não sei se vou mesmo por aí ou se faço algo mais dedicado a mirandês. Quanto mais gostamos, mais queremos saber mais, e nasce dentro de nós o desejo de também mostrarmos às pessoas, de partilharmos esse amor com outras pessoas”, partilhou.
Atualmente a viver no Porto, a carreira de emmy Curl desenvolveu-se sobretudo a partir de Vila Real, “onde as coisas acontecem mais devagar”.
Admite que, pela carreira, pensou algumas vezes mudar-se para Lisboa, mas acabou por nunca o fazer: “Eu tenho uma garra dentro de mim...não vou mudar-me só porque preciso de mais. Isto é a minha casa, cresci aqui. Por que é que eu vou ter de mudar-me para procurar possibilidades quando eu posso criá-las também?”.
Na música, tal como noutras áreas, “está tudo concentrado na capital, como acontece em quase todos os países”, mas emmy Curl acredita que “cabe aos artistas fazer”.
Foi nesse contexto que, com o companheiro, o produtor e músico Andreas Sidenius, criou o espaço cultural comunitário Escola Normal, primeiro no Funchal e depois no Porto, que integra a recém-criada editora Exemplar Discos, que tem em “Pastoral 2.0” a sua primeira edição.
“Claro que nós somos umas migalhas e ainda fazemos muito pouco em relação àquilo que se faz em Lisboa, mas acredito que quando as coisas não existem, então vamos criar”, considerou.
Através do ‘site’ da editora é possível adquirir-se o novo álbum de emmy Curl, que terá edições digital e física, em CD e vinil, mas também num formato especial.
“Estou a elaborar uma ‘maquininha’ - além de música sou artista visual e faço modelação 3D - com a estética do ‘Pastoral’, que as pessoas depois podem ligar, através de Bluetooth, ao carro ou a uma coluna”, explicou.
Para já, não há concertos de apresentação de “Pastoral 2.0” marcados. “As pessoas vão ouvir agora o disco, vão interiorizar, decorar as letras, se quiserem, e depois vai haver um concerto mais especial”.
Lusa