A Região Demarcada do Douro vai transformar um total de 104 mil pipas de mosto em vinho do Porto nesta vindima, menos 12 mil do que no ano anterior, decidiu hoje o conselho interprofissional da região.

O benefício de 104 mil pipas (550 litros cada) de mosto para produção de vinho do Porto foi o principal resultado do comunicado de vindima aprovado hoje pelo conselho interprofissional do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), que esteve reunido no Peso da Régua, distrito de Vila Real.

“A redução é justificada tendo por base, obviamente, a crise inflacionista que estamos a assistir em alguns mercados, também é importante notar que, ao nível das exportações, temos quebras nos principais mercados que consomem vinho do Porto”, afirmou o presidente do IVDP, Gilberto Igrejas.

A quantidade de vinho do Porto que irá resultar da próxima vindima sofre um decréscimo de 12 mil pipas relativamente a 2022, ano que o designado benefício foi fixado nas 116 mil pipas.

O benefício é a quantidade de mosto que cada viticultor pode destinar à produção de vinho do Porto e é uma importante fonte de receita dos produtores do Douro.

O valor resulta da análise multidisciplinar de vários cenários, como as vendas, os ‘stocks’ das empresas ou a colheita prevista, que, de acordo com a Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID), poderá ter um aumento de 10% comparativamente com a colheita declarada em 2022 (233 mil pipas).

“Essas quebras a que temos assistido ao nível do consumo de vinho do Porto em mercados que são importantes tiveram, obviamente, peso nesta decisão, que, mesmo assim, mereceu uma decisão unânime em torno da consciencialização daquilo que é a medida para valorizar os vinhos da Região Demarcada do Douro e em torno da sustentabilidade, e que constitui motivo de alento para a região continuar a trabalhar e a produzir os melhores vinhos”, salientou Gilberto Igrejas.

A decisão relativamente à medida de valorização dos vinhos e da sustentabilidade da região foi unânime, mas não o valor do benefício, que contou com a abstenção da produção.

Para além do presidente do IVDP, que representa o Estado, o conselho interprofissional é composto pelos dois vice-presidentes e representantes da produção e do comércio distribuídos pelas duas secções especializadas (Porto e Douro).

“Em função do estado do mercado, dos ‘stocks’ das empresas, daquilo que são as expectativas económicas, das taxas de juro, do histórico, entendemos que esse é o valor máximo para o qual podíamos ir. Foi esta a proposta que foi aprovada e agora vamos trabalhar com estes números em prol e em favor da região”, afirmou António Filipe, vice-presidente indicado pelo comércio.

O também vice-presidente Rui Paredes referiu que a produção se absteve relativamente às 104 mil pipas, salientando que se pretendia, pelo menos, “manter o valor que o setor recebe anualmente”.

“O que nós temos em cima da mesa é um momento muito complicado para a produção, com um aumento de custos não só com o normal granjeio, mas, essencialmente, com o aparecimento de muitas doenças (na vinha) que têm contribuído para esse aumento de custos”, referiu.

Ao mesmo tempo, acrescentou, “há também do lado do comércio a dificuldade de quebra no mercado".

“Não aceitamos as 104 mil pipas porque não veio com um envelope atrás (…) de manter, pelo menos, o rendimento do viticultor. Passamos uma carta em branco no sentido de eles (comércio) tentarem que isso aconteça o mais rápido possível”, referiu o representante da produção.

Rui Paredes defendeu que é preciso “elevar os preços das uvas” pagas ao viticultor e que a produção precisa de “ter sustentação”, caso contrário a região poder-se-á transformar “num grande lar de idosos”, porque as pessoas naturais do Douro, os jovens, “não ficam cá”.

E, por fim, disse ainda que é preciso uma maior fiscalização para evitar a entrada de uvas de fora da região.

Foto: Alves de Sousa



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