Dos quatro locais em Portugal que foram sondados para eventual exploração de lítio, só Covas do Barroso, em Boticas, “tem claramente viabilidade económica”, por conter espodumena, disse à Lusa o geólogo e investigador Alexandre Lima.

“Há quatro minérios em Portugal que têm interesse para o lítio e só um é que tem viabilidade económica provada neste momento”, disse, em entrevista à agência Lusa, o geólogo e investigador na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que se dedica há 25 anos ao estudo do lítio.

Em 2010, Portugal foi identificado pelos serviços geológicos franceses como o país da Europa com mais potencial em termos de reservas de lítio (metal), para fazer face ao aumento da procura devido à sua utilização nas baterias para carros elétricos, explicou Alexandre Lima.

A nível mundial, metade do lítio para as baterias vem de salmouras, do ambiente desértico da América do Sul, com destaque para a Argentina, a Bolívia e o Chile, e a outra metade vem de um mineral chamado espodumena, exportado pela Austrália, China e, mais recentemente, também pelo Brasil.

“Ora, esse mineral [espodumena] existe em Portugal, mas não é o que existe em Montalegre. O que existe em Montalegre é outro mineral que não tem viabilidade, na atualidade. Uma coisa é Montalegre, outra coisa é Boticas. Boticas tem viabilidade económica”, esclareceu.

Segundo o geólogo, nos outros locais sondados, foram encontrados outros minerais, como, por exemplo, fosfatos de lítio, sendo que não há minas a funcionar com esses materiais.

“Há uma [mina] que tem claramente viabilidade económica. As outras, é muito difícil dizer que têm viabilidade económica, porque, na atualidade, a nível mundial não há minas a funcionar com esse mineral. Mas não quer dizer que daqui a um ano não consigam, ou daqui a cinco anos”, sublinhou.

Em janeiro de 2016 foi feito o primeiro pedido para a concessão de prospeção do lítio, ao qual não foi dada até hoje resposta.

Na realidade, os dados sobre o lítio foram obtidos em concessões que não foram aprovadas de propósito para o lítio, lembra Alexandre Lima.

“Por exemplo, a [concessão para prospeção] de Montalegre era de volfrâmio e estanho, só que, em 2016, quando se dá a grande procura do lítio, eles [empresa australiana que fez o estudo] sabiam que havia lá [lítio] e fizeram”, diz.

Em relação à oposição de vários grupos de populações locais e ambientalistas à exploração de lítio, Alexandre Lima diz que nunca viu uma situação “tão extrema”, como a que se está a passar em Portugal.

“O que é que eu vejo em Portugal: temos um problema de aproveitamento ou não de um recurso e eu acho que, se calhar, o nosso nível de sociedade não nos vai permitir aproveitar a oportunidade. Começo-me a convencer disso, porque realmente toda a gente se movimenta contra algo que nem sabe o que é”, afirma.

O investigador garante que o lítio é dos metais cuja exploração menos problemas causa, uma vez que não tem metais pesados associados, não tem águas ácidas, não tem radioatividade, ao contrário, por exemplo, do ouro ou do urânio.

“Muita gente prefere não pensar de onde é que vem a roupa que usa, de onde é que vem o lítio que usa nos seus telemóveis, nos seus computadores e nos seus carros elétricos, porque diz ‘se vem da china, o problema é deles’. Mas nós temos que ter uma consciência global. Se os nossos recursos vierem da Europa, nós temos mais controlo no que está a acontecer”, defende.

Para o geólogo, as populações estão a ser “formatadas por pessoas que instigam uma violência contra os cientistas”, tendo já sido ele próprio alvo de ameaças enquanto se encontrava a fazer um trabalho de arqueologia mineira numa das minas de estanho da região da Serra de Arga, no norte do país.

“Eu estou convencido que devido à falta de cultura da sociedade portuguesa e devido a haver, realmente, instituições que estão habituadas a tomar conta da opinião publica, vamos desperdiçar esta oportunidade que poderia ajudar até a desenvolver o interior”, reitera.

Alexandre Lima lamentou ainda que Portugal seja “gerido muitas vezes por pessoas que mandam a nível municipal” e considerou “perdidas” para a exploração de lítio as áreas de Montalegre, Fundão (Argemela) e Boticas, ainda que a última tenha viabilidade económica.

Na opinião do geólogo, o melhor é avançar para outras zonas do país, com tanto ou mais potencial do que os locais sondados até agora, e que estejam dispostas a receber os estudos para o lítio.

Segundo a proposta de Orçamento de Estado, o Governo quer criar em 2020 um ‘cluster’ do lítio e da indústria das baterias e vai lançar um concurso público para atribuição de direitos de prospeção de lítio e minerais associados em nove zonas do país.

Devem ser abrangidas as áreas de Serra d’Arga, Barro/Alvão, Seixo/Vieira, Almendra, Barca Dalva/Canhão, Argemela, Guarda, Segura e Maçoeira.

O movimento cívico SOS Serra d'Arga, em Viana do Castelo, e diversas associações culturais e de defesa do ambiente da Galiza participam hoje numa caminhada para contestar a eventual exploração de lítio naquele território.

Em declarações à agência Lusa, Ludovina Sousa, em representação do Movimento SOS Serra d' Arga, disse tratar-se da "primeira iniciativa conjunta com associações e coletividades galegas e que visa dar a conhecer ‘in loco' o território e património natural e construído que poderá vir a ser afetado por uma exploração mineira".

No dia 15 de agosto, cerca de 150 pessoas juntaram-se em Morgade, no concelho de Montalegre, numa vigília para alertar contra a mina de lítio a céu aberto prevista para aquele concelho, plantando árvores perto dos furos das prospeções já realizados.

No mesmo dia, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso promoveu uma caminhada intitulada ‘Não à Mina, sim à Vida’, no concelho de Boticas, no distrito de Vila Real, contra a destruição da floresta e a falta de regulamentação na indústria mineira.

Foto: DR



PARTILHAR:

Município abre novo Posto de Turismo em Sabrosa

Autarcas e ambientalistas contra mina espanhola junto à fronteira com Bragança