A venda de uvas abaixo dos preços de produção no Douro, a redução do benefício e o uso de aguardente regional são temas em debate num plenário de viticultores marcado para domingo, no Peso da Régua.
A pouco mais de um mês do arranque das vindimas na Região Demarcada do Douro (RDD), a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a sua filiada, a Associação dos Viticultores e da Agricultura Familiar Douriense (Avadouriense), convocaram um plenário de viticultores para debater os problemas que afetam a viticultura duriense, quem vive e trabalha na região, e a falta de respostas.
“O objetivo é continuar a exigir ao Governo soluções para os problemas que se continuam a verificar na RDD e que são profundamente negativos, como o preço pago pelas uvas, o preço pago aos produtores, num cenário e num ano em que novamente se agravaram os custos de produção por vários motivos”, afirmou hoje à agência Lusa Vítor Rodrigues, dirigente nacional da CNA.
A CNA diz que a vindima se aproxima e que as dificuldades sentidas pelos viticultores agravam-se, apontando para a venda de uvas abaixo dos custos de produção, sem contratos e com os mesmos preços de há décadas, enquanto os custos com os fatores de produção aumentam "mais e mais".
Mais recentemente foi a guerra no Médio Oriente que provocou um aumento nos combustíveis e, entre outros, nos fertilizantes.
O preço da venda das uvas é, segundo Vítor Rodrigues, “uma exigência central”, defendendo que tem que haver “mecanismos para garantir justiça na distribuição do rendimento aos produtores”.
“Sobretudo esta exigência central que vamos continuar a fazer é que não seja permitido que a uva seja comprada abaixo dos custos de produção para garantir algum rendimento e justiça na distribuição das mais-valias na região”, salientou ainda.
E, na sua opinião, “se esta injustiça se resolvesse, o problema do Douro resolvia-se, independentemente de haver mais ou menos retração de mercado em relação ao vinho DOC e ao vinho generoso”.
Vítor Rodrigues apontou também para o benefício, a quantidade de mosto que cada viticultor pode destinar à produção de vinho do Porto e que é uma importante fonte de receita para os produtores durienses.
No Douro, o benefício desceu das 104.000 pipas (550 litros cada) em 2023, para as 90.000 em 2024 e as 75.000 em 2025, numa quebra total de 29.000 pipas.
Cada pipa de vinho do Porto pode corresponder a uma média de 1.000 euros pagos aos produtores.
“Não se antevê que o benefício venha a ser fixado acima do nível do ano passado, que foi muito baixo. É através deste quantitativo de benefício que se consegue assegurar algum rendimento para os viticultores, porque, de resto, a uva que não vai para ser beneficiada está a ser paga, em muitos casos, abaixo dos custos de produção”, afirmou Vítor Rodrigues.
Depois, o responsável falou ainda dos excedentes de produção na RDD numa altura em que a Assembleia da República debate, sob proposta do JPP, o uso exclusivo de aguardente da região na incorporação no vinho do Porto.
A CNA, segundo o dirigente, defende não o uso exclusivo, mas que exista “uma utilização prioritária da aguardente regional no fabrico de vinho do Porto” como forma de combater os excedentes verificados na produção de uva da RDD.
Segundo a confederação, apesar de haver matéria-prima disponível na região e uvas que muitos viticultores não conseguem vender, “mantêm-se as elevadas importações de aguardentes e vinhos a granel”.
Na reunião de domingo poderão ser delineadas formas de luta por parte dos viticultores do Douro, a realizar antes da vindima.
Lusa