Às segundas-feiras, os sorrisos adormecidos dos utentes do lar da Misericórdia de Vinhais acordam quando ouvem as notas musicais, guardadas numa caixa carregada pelo professor de música, que vai alegrar quem se deixou levar pelos anos da vida.

É o resultado de um projeto do município de Vinhais que, através de aulas de música, pretende promover um envelhecimento ativo aos utentes dos lares do concelho e assim proporcionar um dia diferente a quem vive dentro de uma instituição.

Numa caixa estão guardados os instrumentos musicais, que em poucos segundos são distribuídos pelas dezenas de idosos concentrados num salão do lar, prontos para mais uma manhã de segunda-feira diferente.

Ao peito o professor carrega uma concertina. Ouve-se “que música vamos tocar?”. Surgem palpites, alguns baixos, outros com alguma assertividade, de quem ainda sabe de cor a letra de músicas que lhe marcaram a vida.

E num instante a salão ganha vida. As paredes brancas ganham cor. Ao ritmo da melodia, ouvia-se o coração cheio dos utentes, que com outros instrumentos musicais faziam os possíveis para acompanhar o professor.

Sentado numa cadeira, com uma pandeireta nas mãos, estava Heitor Barreira, com 87 anos. Pela rapidez com que se levantou e começou a dançar a música do “apita o comboio”, ninguém lhe daria mais de 70 anos. Deve ser porque a música já lhe está no sangue. Quando era mais novo participava nas festas, tocava concertina.

“Esta atividade fica-me no coração, porque gosto muito. (…) Como nós estamos aqui nesta casa, é um dia que precisamos de distração. (…) Dá para matar saudades e a gente que tenha a fraqueza de estar aqui e não haver um distraimento, para mim fica-me cá dentro”, disse comovido, apontando para o peito.

Há cinco anos que está na misericórdia de Vinhais. A sua companheira morreu e como não queria dar trabalho aos filhos, decidiu ir para o lar. Quando não está no sofá a dormir, que é o que faz grande parte do tempo, admitindo ser “uma tristeza”, está a ajudar quem precisa. É assim que é conhecido na instituição.

“Naquilo que posso, gosto de ajudar quem precisa. Por exemplo, há pessoas que às vezes precisam de uma ajudinha e eu, com a minha fraqueza, ajudo naquilo que posso (…) Costumo ajudar, ao fim de jantar, apanhar os utentes nos carrinhos para os quartos. Levo-os à porta do quarto e está lá uma pessoa para os deitar”, contou.

Do outro lado do salão estava Acácio Rodrigues com a esposa. Ele tocava bombo e ela pandeireta.

“Não é dos que mais gosto, eu tocava trompete (…) aprendi na minha aldeia com um mestre espanhol (…) agora não posso [tocar] por causa dos dentes”, explicou Acácio Rodrigues.

Gosta de ouvir “música alegre”, tal como estava a ser aquela manhã. Dá para matar saudades do seu grupo de música, que deixou na pandemia.

Para si, podia ser todos os dias segunda-feira. “Acho bom, muito divertido. No outro dia ainda esteve melhor, porque as raparigas saltavam”, contou, referindo-se às funcionárias da instituição, porque também elas não conseguem ficar indiferentes ao momento.

Uma animação, entre utentes e colaboradores, que veio fazer “bastante” diferença. “É um momento que estamos juntos. Também participamos, é bom participar com eles, é diferente”, afirmou a funcionária Susana Rodrigues.

Há 34 anos que Susana Rodrigues trabalha nesta casa. Há 34 anos que faz o que gosta e que nunca pensou em mudar de lugar ou profissão. Há 34 anos que vem a construir uma família que, por vezes, perde elementos.

“Nós somos a família deles e eles a nossa”, sublinhou, admitindo que “não é fácil” quando perde um idoso, de quem cuida há muitos anos, até porque é funcionária da Misericórdia de Vinhais desde que ela abriu.

“O principal desafio é que há muita coisa para lidar, porque lidamos com tristeza, mas é bom trabalhar com idosos, têm sabedoria, ensinam-nos muito, porque a vida deles é longa”, disse.

Com a experiência que tem vindo a adquirir ao longo dos anos, percebe a importância que este tipo de iniciativas tem para estes utentes, grande parte deles com dependência motora ou intelectual.

“Ficam mais alegres, porque é um bocadinho monótono, a idade, veem-se aqui longe das famílias (…) Perguntam “quando vem o professor?”. Eles sabem que à segunda-feira há este bocadinho de animação”, contou.

Foi com o objetivo de “animar” quem vive nas instituições que o município implementou o projeto “Melodias da Memória”.

Uma vez por semana, os vários lares do concelho de Vinhais, na vila, mas também nas aldeias, Rebordelo, Espinhoso, Vila Boa, Ervedosa, Agrochão e Moimenta, abrem portas para a música.

“Esta atividade parece-nos importante porque como se vê é um dia de alegria para eles e é reviver algumas canções, alguns momentos que usufruíram noutro tempo”, vincou o presidente da câmara, Luís Fernandes.

O projeto foi implementado há cerca de um mês e estará em vigor, pelo menos, até ao final do seu mandato.

“Estamos num concelho envelhecido e num país envelhecido e entendemos que são importantes estas medidas no envelhecimento ativo, proporcionar atividades diferentes, que os anime, que deixe de haver algum isolamento e que lhes permita ter um dia diferente. Mas também é importante porque o próprio convívio, a articulação que se faz com eles, com as instituições e com as pessoas que trabalham nestas instituições é fundamental”, sublinhou o autarca.

O psicólogo e diretor da Santa Casa da Misericórdia de Vinhais, José Alves, confirma: a música é importante para estimular cognitivamente os idosos. “Eu vejo muitos utentes que na realidade passam o dia sem participar numa grande parte das atividades realizadas pela misericórdia, mas neste dia é uma autêntica festa para eles”, reiterou.

No entanto, nem tudo é fácil e as residências para idosos atravessam grandes dificuldades na contratação de recursos humanos, porque é “difícil encontrar pessoas que queiram trabalhar nesta área”.

“Eu penso que as pessoas procuram a alegria e nestas casas trabalhamos muito com a perda, com a partida e por muito que nos esforçamos para tentarmos compensá-los com a nossa amizade, com o nosso carinho, vê-se muitas vezes que não conseguimos substituir a família”, disse.

Ainda assim, apesar de ser “difícil”, José Alves garante que é “muito compensador”. “Vale mais um abraço de um utente, a forma como nos acarinham, fazem-nos passar por filhos, por netos, fazem-nos perceber que, muitas vezes, somos a família deles”, frisou.

Uma hora depois, os instrumentos voltaram para a caixa. O professor foi embora. Agora, a melodia só volta a encher aqueles corações na próxima segunda-feira.



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