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“Se nada for feito pelo património, um dia destes o Douro vai acordar e não vai ter vinhas velhas”.

Produtores querem definição clara para classificar vinhas velhas no Douro

Lusa em Sáb, 14/12/2019 - 12:32

A Associação ProDouro defende a definição de "regras claras" para a classificação de vinhas velhas no Douro, assentes em critérios de idade, diversidade de castas e alta densidade de plantação e que potenciem a valorização dos vinhos.

“Este tema da vinha velha é, para nós enquanto associação, extremamente importante porque é um assunto relacionado com preservação do património, preservação da paisagem e defesa dos valores imateriais que a UNESCO classificou em 2001”, afirmou hoje à agência Lusa Rui Soares, presidente da ProDouro - Associação de Viticultores Profissionais do Douro.

O tema está em destaque no jornal online da associação, que possui 84 associados, representa 660 viticultores e um total de 3.700 hectares de vinha, e pretende lançar o debate sobre o assunto a propósito do 18.º aniversário da classificação do Alto Douro Vinhateiro (ADV) pela UNESCO, que se assinala no sábado.

Rui Soares explicou que a ProDouro defende “a definição de regras claras em termos daquilo que deve ser um vinho proveniente de uma vinha velha”.

“Atualmente, não existe nenhuma legislação a este respeito. Um produtor de vinhos desde que tenha a marca registada com a designação vinha velha pode comercializar o vinho como tal. O que nós queremos é disciplinar”, salientou.

Para o efeito, a associação avançou com uma proposta, que foi defendida pela produção, através da Federação Renovação do Douro, no seio do conselho interprofissional do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP).

Na proposta, são defendidos os critérios do que deve ser “uma vinha velha na Região Demarcada do Douro”.

“Para nós, as vinhas velhas do Douro estão associadas a um modelo de viticultura que vigorou até à década de 1960, onde tínhamos um conjunto de características muito próprias: diversidade de castas, mistura muito grande de castas, altas densidades de plantação e, em situações de declive mais acentuado, socalcos suportados por muros de pedra posta”, explicou.

No entanto, ressalvou que, em situações de planalto podem não ser necessários os socalcos e, como tal, não é obrigatório que haja muros.

“Mas estes conceitos de idade, de diversidade de castas e alta densidade de plantação definem, para nós, o que deve ser uma vinha velha no Douro”, sustentou.

A partir dos anos 70 e 80 do século passado, altura em que começaram os processos de reestruturação da vinha no Douro, com vista à mecanização, o modelo de viticultura “foi alterado”.

“Passamos a ter compassos muito mais largos, começamos a ter os patamares e reduzimos drasticamente a densidade de plantação, reduzimos drásticamente o número de castas que estavam a ser cultivadas. Portanto, todo o modelo de viticultura, como nós o conhecemos até aos anos 60, foi alterado com a reestruturação da vinha”, referiu.

O responsável disse ainda que, com a definição de vinhas velhas, se pretende a “valorização do património, da vinha e consequentemente do vinho” produzido a partir das uvas ali colhidas.

Rui Soares disse esperar “boas notícias” sobre este assunto “em breve”, considerando que “é fundamental por regras porque há muita confusão e o consumidor está, de uma forma geral, baralhado”.

E, na sua opinião, o Douro “tem aqui uma responsabilidade maior porque é a região do país onde ainda se encontra o maior número de vinhas velhas”.

“O ‘timing’ do 18.º aniversário do ADV é o ideal (…) Dezoito anos significa que atingimos a maioridade e é altura de pensarmos de uma forma séria e adulta sobre assuntos que dizem respeito à nossa região”, salientou.

Rui Soares deixou ainda um alerta: “se nada for feito pelo património, um dia destes o Douro vai acordar e não vai ter vinhas velhas”.

“Se não houver um incentivo que faça com que as pessoas preservem e mantenham, se não houver valorização, o mais fácil é reestruturar, plantar uma vinha nova, porque o cultivo é mais fácil e economicamente é mais barato”, referiu.

A 14 de dezembro de 2001, a UNESCO classificou como Património Mundial 24.600 hectares do ADV, repartidos por 13 concelhos: Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Alijó, Sabrosa, Murça, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Lamego, Armamar, Tabuaço, S. João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa.


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