Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Vírus

Não sei se por acaso o senhor ou senhora, rapaz ou menina que fazem o obséquio de neste preciso momento me lerem, estão cientes que eventualmente somos primos. A sério!

Quer dizer, não seremos assim primos, primos, logo de primeiro grau com avós em comum, mas podemos ser parentes. Passado o espanto que suponho, repare que há uns cem mil anos, alguns milhares de homens e de mulheres partiram de África e vierem por aí afora até à Europa.

Andaram, andaram sem parar. Uns foram ficando aqui e ali, outros foram andando e vieram dar aqui. Fizeram umas coisas, descobriram e destruíram outras, cruzaram-se e descruzaram-se até que deram nisto que somos nós que para aqui estamos.

Se fosse possível irmos em viagem às arrecuas como se a passarada não tivesse comidos as migalhas de pão indicadoras dos caminhos, e se escarvarmos bem fundo, todos encontraremos um laço de parentesco na lonjura e na conjuntura e todos toparemos com pelo menos um pirata ou algo que o valha na família.

O que podemos dar como certo e sabido, é que nunca os nossos coitados antepassados imaginaram que ao longo dos milhares de anos, no devir da humanidade íamos ser alguém tão impante e tão senhores do nosso nariz, ao ponto de nos julgarmos quase deuses sem antes aprendermos a sermos homens e mulheres.

A nossa cabeça foi-lhe dando para certas coisas, ora maravilhosas, ora escabrosas, evoluímos cá por cima deixando cristalizada a essência e quase findo o primeiro quarto do século vinte e um da nossa era, escasseia-nos a humildade e adormece-nos a solidariedade. Na modernidade, o ser humano já pensa que ninguém tem mão nele.

Mas engana-se. O que harmoniosamente é ínfimo funciona em sintonia com o que é harmoniosamente grande e aparentemente imenso e num ápice, revela-se para nos reduzir à nossa insignificância. Ao quase nada que nada pode perante visíveis e mortíferas ameaças perpetradas por minúsculos e desconhecidos invisíveis que nos ferem e nos matam.

Cirandamos, voamos, trabalhamos, passeamos, e sem querer e sem saber espalhamos o mal. Impotentes lamentamos, choramos e juramos mudar. Mas não mudamos porque logo nos esquecemos. Desassossegados os senhores do mundo tentam sossegar-nos, mas sentimos impotência e medo.

Somos iguais por laços de sangue e por condição genética, somos primos, e basta uma mera mãozada, um ténue espirro, e um simples respirar perto, logo contagiamos e somos contagiados por um vírus com nano tamanho. Algo muito esquisito que não percebemos, mas que vamos descobrindo enquanto se desmoronam as torres de marfim que erguemos a custo de sangue, suor e lágrimas.

Resta-nos esperar e ultrapassar com as armas que a inteligência nos vai dando. Falta-nos aprender. Falta-nos saber a toda a hora que somos mortais de passagem para a outra margem naquela viagem começada há milhares de anos.

Dois ou três saltinhos no relógio cósmico sentidos neste nosso pontinho do imenso universo onde nos encontramos se calhar por mero acaso. Por isso somos todos primos. Digo eu, primo (a). Urge, pois, que o vírus, qualquer que seja, nos una e nos não afaste. Somos humanos. Somente.


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