Moços solteiros fazem a festa na Lombada
por Sandra Canteiro, Jornal Nordeste


Babe mantém tradições da quadra natalícia com Festa dos Rapazes celebrada ao som da gaita-de-foles, bombo e caixa

Vinho, vitela, música tradicional e muita animação são alguns dos ingredientes da Festa dos Rapazes que, todos os anos sem excepção, marca a quadra natalícia em Babe, no concelho de Bragança.

Únicas na região transmontana, estas festividades perdem-se na memória dos mais velhos, que ainda se recordam dos dias e noites de juventude passados ao som de gaita-de-foles, bombos, caixas e realejos, enquanto percorriam as ruas da freguesia a interromper o sono e descanso de todos os habitantes.
Tendo como líderes o juiz, cujo símbolo é a bandeira nacional, e o seu ajudante, o meirinhos, representado por uma bandeira de pinheiro, os rapazes vêem-se obrigados a pagar multas em dinheiro, caso cheguem tarde à alvorada ou sejam apanhados em alguma falta. “O juiz e o meirinhos convocavam os rapazes solteiros para as 5 horas, que era quando começava a alvorada. Caso algum não aparecesse teria que pagar uma multa estipulada pelos mordomos que representavam a lei”, explicou o presidente da Junta de Freguesia de Babe, Manuel Esteves.
Além dos atrasos ou faltas, os moços solteiros eram penalizados em caso de proferirem algum palavrão ou receberem com um ovo podre, entre muitos outros pretextos. “Qualquer coisa, como uma galinha passar à frente de um dos rapazes alinhados, era motivo para terem que pagar uma multa, cuja receita servia para pagar a festa”, recordou o autarca.
Assim, depois de preparada uma vitela, os jovens reuniam-se à mesa para um jantar, que antigamente se realizava num curral, em que só os rapazes solteiros podiam participar. “A carne era paga com o dinheiro das multas e cozinhada por alguns moços, que ficavam libertos de outras responsabilidades”, sublinhou o responsável.
Depois do repasto, era a vez das raparigas participarem na festa, que se juntavam aos rapazes para o baile, ao qual assistiam os pais, ansiosos por observarem as suas filhas a dançar.
Além desta tradição, Babe revitalizou, também, a Festa dos Homens Casados, que tem lugar no dia 30 de Dezembro. Só depois do jantar, exclusivamente masculino, é que as esposas se juntam à festa. “Pretendemos recuperar diversas festividades que marcam a região e que atraem cada vez mais pessoas de diversas localidades”, acrescentou Manuel Esteves.

Freguesia ficou marcada pelo célebre Tratado de Babe

Conhecida por ser a porta de entrada para o Planalto da Lombada, a freguesia ficou famosa pelo Tratado de Babe, celebrado em Março de 1387, entre D. João I e o Duque de Lencastre, através do qual se pretendia realizar o casamento entre o rei de Portugal e D. Filipa de Lencastre. Conta-se que a zona da Lombada acolheu, por ocasião deste Tratado, milhares de homens que acamparam na região, entre eles o Santo Condestável.
Além deste conhecido episódio, a localidade terá sido, aquando do domínio romano, uma importante estação, como se pode comprovar pela estatura do castro e dos vestígios arqueológicos encontrados, como estelas funerárias e um marco milenário. Sabe-se, ainda, que por Castrogosa e a sul do castro da Sapeira passava a estrada romana que ligava Braga a Astorga.
A par da sua rica e longínqua história, Babe ficou associada à exploração de minério como pirites de ferro, chumbo e manganês, bem como à produção de facas de bolso e cozinha, executadas por ferreiros com elevados conhecimentos.





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