|
Conheci o pequeno Rui num dia de chuva tão intensa como as emoções conturbadas que os seus olhos revelavam.
Na Universidade ensinam-nos a programar uma “distância de segurança” para que os sentimentos não interfiram na nossa intervenção. Mas a realidade da violência doméstica e dos maus-tratos e negligência infantis, fazem-nos por vezes duvidar dessa capacidade de nos “ausentarmos”.
Quando vi o Rui pela primeira vez, apenas consegui identificar umas pequenas mãos, sujas e queimadas pelo frio, que agarravam em tom de desespero a perna da mãe em busca de qualquer sinal de protecção. Na escuridão que a casa impunha aos seus habitantes, uns olhos brilhantes, tão assustados como curiosos, começaram timidamente a observar-me…seria eu uma bruxa que tinha chegado numa vassoura voadora ou uma fada madrinha que aparecera ao som do seu pedido? Depressa percebi que a minha presença não o incomodava, pelo contrário, trazia-lhe uma esperança sustentada pela fantasia dos seus 4 anos de idade.
Enquanto nos olhávamos perdidos no tempo, a jovem mãe relatava os maus-tratos de que era vítima por parte do marido. A violência física e psicológica fazia parte da rotina diária e era silenciada por todos. As paredes negras e pouco firmes daquela casa ditavam a história de uma vida não vivida aos 23 anos de idade. Os maus-tratos foram passado e eram presente. O futuro? Esse parecia não ter importância…
Aquela criança era a cor e a vida que aqueles pais não sabiam reconhecer.
Durante meses acompanhei um percurso de violência, maus-tratos, de desculpas, de recomeços e de perdas mas conheci a esperança através dos olhos de uma criança. Não esqueço a primeira vez que frequentou um infantário! Um mundo de brinquedos que nunca tinha visto, nem sabia existir! As cores, os desenhos, o chão, a luz! O pequeno Rui estava tão maravilhado que durante horas não saiu da posição em que fora deixado. Dias depois as Educadoras mostravam-se surpreendidas: ainda que com um modelo familiar de violência que poderia influenciar a sua postura, o Rui revelou-se uma criança meiga, afectuosa, que pedia permissão sempre que queria experimentar um novo brinquedo. A hora de ir buscá-lo à creche era o pior momento do meu dia. Sabia que era a altura em que a Cinderela se transformava em Gata Borralheira…e a frase que sempre me repetia quando o seu olhar me deixava “levas-me contigo para tua casa, só hoje?”. Não o poderia levar, a não ser que lhe ensinasse um caminho diferente daquele de casa.
Meses depois de o conhecer, o Rui foi afastado da família e agora as paredes que o rodeiam são as de um Centro de Acolhimento algures no país. Não sei como será o seu futuro, ou se um dia o reconhecerei na rua passeando os filhos, mas gosto de acreditar nele porque um dia acreditou em mim!...
Alijó, 17 de Agosto de 2007
Vera Moutinho
Assistente Social
|