Um homem do (e) ferro
por Orlando Bragança, Jornal Nordeste


A história de um serralheiro de profissão que se tornou artesão de máscaras transmontanas

Nem só de madeira se fazem as máscaras transmontanas.
Que o diga Germano Macedo que, após um pedido inédito de um cliente, percebeu que a tradição se pode cumprir a partir de outros materiais.

“Há algum tempo atrás, apareceu aqui um indivíduo a perguntar se eu lhe fazia uma máscara. Como nunca tinha feito nenhuma, tinha algum receio, mas, devido à insistência, acabei por ceder e dar corpo à obra”, recorda Germano Macedo, artesão e serralheiro de profissão, que gosta, sempre, de imprimir um cunho pessoal às suas realizações.
O resultado da “encomenda” satisfez e o mediatismo que as máscaras e caretos adquiriram nos últimos tempos levou este mestre a apostar “numa faceta que estava adormecida”. Daí à exposição dos seus trabalhos foi um passo. “Algumas pessoas disseram-me que devia expor os meus trabalhos e foi o que fiz”, sublinha Germano Macedo, que também se aplica na arte de ferreiro.
A sua reputação foi passando de boca em boca até chegar aos ouvidos do director do Museu Abade de Baçal, Neto Jacob, que lhe encomendou mais peças. “Convidou-me a fazer algumas máscaras e a expô-las nesse espaço tão nobre que é o Museu. Desde então, não tenho mãos a medir e quero aproveitar este desafio”, recorda o mestre com indisfarçável orgulho.

Apesar da popularidade e vendas crescentes das máscaras, esta arte não garante a sobrevivência

Uma vez que é serralheiro, o artesão utiliza o mesmo material e ferramentas com que executa as portas e janelas para os seus clientes, adicionando, apenas, um tipo de criatividade diferente.
Deste modo, Germano Macedo vai imprimindo, a cada peça, um gosto e toque pessoal, dependendo do tempo que leva a concretizar uma máscara. “Umas dão mais trabalho que outras. Por vezes, estou a fazer uma coisa e depois surge outra ideia e, claro, tenta-se melhorar o aspecto inicial, torná-la mais vistosa, para chamar a atenção das pessoas”, descreve o ferreiro.

De resto, o serralheiro acredita que o sucesso das máscaras se deve a este toque pessoal e ao aproveitamento de material, que torna o preço mais acessível. Cada peça custa, em média, 50 euros, pelo que “o cliente paga, praticamente, a criatividade e trabalho do artista”, diz.
Contas feitas, a venda destas peças não garante a sobrevivência, mas serve de complemento, além de contribuir para a preservação da tradição. “Não tenho clientes a comprá-las todos os dias, mas nota-se que as pessoas querem preservar a sua tradição”, salienta o fazedor de máscaras.

Algumas máscaras sofrem diversas alterações até o artesão gostar do resultado final

Retomando uma arte que também domina, o próximo projecto deste artesão é a concepção de uma máscara em ferro, totalmente trabalhada na forja. “Ainda nem tive tempo para este tipo de peças, pois requerem muita concentração e paciência para ficarem ao gosto do artista. Ao mínimo descuido, o trabalho pode não ficar bem”, adverte o serralheiro.
Até aqui, Germano Macedo tem conciliado a arte da serralharia com a de artesão, mas deixa claro que as portas, portões, grades e janelas são a sua principal actividade. “Já vem do tempo do meu bisavô, que era ferreiro. Mais tarde, aprendi a arte com o meu pai e preparei-me para a vida, ”, recorda o mestre. Outros tempos, sem dúvida.

De jogador a artesão

Além de ferreiro, serralheiro e artesão, Germano Macedo passou pelos relvados, como jogador, e, mais tarde, com a camisola de treinador. Na época, o futebol abria algumas portas e criava oportunidades. “Um jogador era visto com certo agrado e era uma maneira de chegar a alguns sítios, embora eu jogasse pelo prazer e nunca com o objectivo de fazer do futebol profissão”, ressalva.





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