A arte das solas e cabedais
por Fernando Cordeiro, Jornal Nordeste


Sapateiro há cerca de meio século recorda histórias de outros tempos e fala da importância desta profissão

Estão a ser substituídos por novos modelos de negócio, mas teimam em prolongar esta profissão tradicional. Em confissões ao Jornal NORDESTE, o sapateiro Gilberto Pereira partilha recordações recheadas de cheiros e essências com meio século de história.
Jornal Nordeste (JN) – Porque optou por seguir a profissão de sapateiro?
Gilberto Pereira – Foi para onde me mandaram mal fiz a 4ª classe e tenho-me mantido desde então. Umas vezes é melhor, outras nem por isso, mas temos que fazer alguma coisa porque quem não é rico tem de ganhar o seu dia a dia e lutar pelo bem-estar da família.

JN – Ainda trabalha por dedicação, fidelidade ou para enriquecer?
GP – Para enriquecer não. Vai dando, e mal, para o dia a dia, mesmo tendo cuidado nos gastos. Antigamente, um miúdo que saia da escola ou ia para sapateiro, trolha, pedreiro, mecânico, carpinteiro, alfaiate ou caixeiro. Não havia outra escolha. Havia um familiar, vizinho ou amigo que nos deixava aprender a arte. Para outros era, ainda, um aviso que os pais faziam para que os filhos passassem a estudar mais.

JN – É verdade que quem quisesse ficar a par das novidades e segredos era só ir ao sapateiro?
GP – Isso podia saber-se também nos barbeiros, cabeleireiras, comércios e nas repartições públicas. Não era só no sapateiro. Mas nessa altura, passávamos muito tempo na rua e íamos muito à taberna e era lá que se falava de tudo.

JN – Algumas das histórias ligadas a sapateiros ainda se contam actualmente.
GP – É verdade. E isso deve-se ao convívio e amizade. Pregávamos partidas com a intenção de fazer rir. Nunca queríamos magoar, ofender, difamar ou prejudicar.
Ainda hoje se contam histórias de sapateiros que faziam rir ou que ficaram associados a qualquer “dizer” ou expressão.

JN – Actualmente, os sapateiros tradicionais são substituídos por “métodos” rápidos. O cliente ganha ou perde com esta mudança?
GP – É difícil definir isso, porque a vida também mudou muito. Agora há mais dinheiro e as pessoas já não mandam fazer calçado no sapateiro. Compram nas sapatarias. Por outro lado, só pedem para fazer arranjos simples, como colar, coser, engraxar ou por na forma antes de calçar. Quando um cliente chega com um sapato para engraxar ou para dar um ponto também despachamos as pessoas na hora.
São os tempos e consome-se o que está na moda.

JN – As pessoas respeitam esta profissão? Fez amigos?
GP – Não digo amigos, mas antes conhecidos do dia-a-dia. No entanto, há casos em que se fazem boas amizades depois da infância, quando as pessoas não julgam pela profissão, aspecto ou pelo que temos, mas pelo que valemos. Mas também há grandes amizades que desaparecem.
O sapateiro é muito importante quando os sapatos precisam de conserto, como o dentista quando nos dói o dente, o engenheiro quando precisamos de obras em casa, ou o advogado quando há problemas legais. Todos somos importantes uns para os outros segundo a ocasião surge.

JN – Alguma vez procurou outra profissão? Ou tem mesmo alma de sapateiro?
GP – Não é fácil responder. Gosto da minha profissão, mas também ao fim de tantos anos é natural. Sou feliz, vivo honradamente do meu trabalho, ando com a cabeça levantada e sou livre. Se calhar voltava a ser sapateiro, gosto disto e passo aqui os meus dias entretido a tratar dos sapatos e, até, das pessoas.


“O sapateiro é muito importante quando os sapatos precisam de conserto, como o dentista quando nos dói o dente, o engenheiro quando precisamos de obras em casa, ou o advogado quando há problemas legais”.





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