Stalone: o polidor de calçado - Não é filme, mas apenas a história de um homem que teima em viver com dignidade
por Orlando Bragança


«Stalone» em acção

Luís de seu nome, a vida foi madrasta para este filho da cidade de Bragança, que no seu dia a dia vai embelezando o calçado das pessoas que procuram os seus serviços na Praça da Sé.

Já foi mineiro em Espanha, onde tem família radicada, mas hoje vive recordações dos tempos da sua meninice e conta como era o seu dia a dia no outro lado da fronteira.
“Sujava-me muito. Saía preto da mina de carvão e não me dei muito bem com os ares de Espanha”, relata Luís Manuel, mais conhecido por “Stalone”.
Com 51 anos, vive na Rua de S. João, mas lamenta o estado da casa e pede ajuda às entidades competentes “O soalho está todo podre e o tenho medo que o tecto caia em cima de mim. Se ao menos lhe dessem um arranjo, eu já estava bem, mas já fui duas vezes à Junta de Freguesia [de Santa Maria] e ainda não me resolveram nada”, lamenta o polidor de calçado.
Por vezes, o dinheiro não chega para a renda, desabafa Luís Manuel, que se vê obrigado “a pedir aos amigos alguma ajuda para pagar as despesas”.

Mesmo assim, “se Deus me ajudar, estou melhor aqui na minha terra”, reconhece sem hesitações, pois tem bem presente o passado mineiro em Espanha.
Sem grandes ambições, “Stalone” apenas reclama o direito a uma habitação condigna e as condições a que um ser humano tem direito.

Este apelo, de resto, também é feito aos políticos da nossa praça que já pousaram o sapato na caixa do Stalone, para que o polidor lhes dê um ar de graça, pondo a brilhar o calçado que acusa sujidade ou desgaste.

São 10 horas e já alguém pergunta pelo Stalone. “Agora que eu queria engraxar os sapatos é que ele não está. Vou esperar mais um pouco”, diz alguém que procura o Luís Manuel. Ao longe, vislumbra-se a silhueta deste filho de Deus que ainda vem a tempo de dar lustro aos sapatos de quem precisa.

Começa por passar a escova nos sapatos do freguês, a pomada, o pano do lustro, dois euros de conversa e comenta, de seguida: “Já bebia um galão, ainda não comi nada hoje!”.





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