25 anos de Melotrupe - Banda emblemática de Bragança
por Rui Miranda, Jornal Nordeste


De Bragança a Lisboa eram 9 horas de distância quando um grupo de quatro brigantinos rumaram ao sul, a Coimbra, rompendo a distância e abrindo uma abertura no fosso de tempo que separava (e ainda hoje separa) o interior do país real, para, literalmente, dar música.

A 4 de Julho de 1981 Coimbra recebia mais uma eliminatória do concurso de bandas de rock: Só Rock. Os brigantinos eram os Melotrupe, e foram tocar lado a lado com os, na altura recentes, Xutos e Pontapés e GNR, entre outros.
António Corredeira, no baixo, Paulo Xavier na guitarra, António Andrade, na bateria, e Luís Afonso teclas e voz. Era com estes quatro nomes que se faziam os Melotrupe. A ideia de participarem no Só Rock nasceu depois de verem um anúncio num jornal. Enviaram uma cassete com três originais e foram seleccionados.

O “pastel” de Coimbra

António Andrade ainda tem vivas as memórias daquele dia há vinte e cinco anos. Com entusiasmo conta que, quando chegaram a Coimbra, depois de uma obrigatoriamente longa viagem - e porque sabiam que a alimentação e estadia eram da responsabilidade da organização - um do grupo dirige-se a “um fulano que tinha uns óculos muito graduados à Jonh Lennon”: “oh pastel, somos um grupo de Bragança, chegamos agora e queremos lanchar, como é que é...?”. O problema da refeição ficou resolvido. O que não sabiam é que aquela abordagem pode ter tido repercussões um pouco mais tarde.
Decorreu o festival com uma boa prestação dos Melotrupe.
António Andrade lembra com satisfação que o Festival tinha uma banda residente, de Coimbra, que tocava dois temas na abertura do festival e não entrava em competição, o baterista dessa banda veio ter com os Melotrupe: “vocês são de Bragança...!! Lá toca-se”
Já a votação parece não ter corrido da mesma forma, sem se lembrar exactamente o resultado efectivo, António Andrade, lembra que o pastel das sandes, com os óculos à Jonh Lennon, era o director da rádio e principal patrocinador do festival. O mesmo que anunciou o resultado da votação. Na brincadeira dizem que talvez o episódio do Pastel possa ter influenciado o ouvido do patrocinador...




“Em Bragança toca-se”

Da conversa com António Andrade fica a ideia que os Melotrupe não foram ao festival pelo passeio, mas sim pela música. Mostraram que também aqui, quase esquecidos atrás do Marão, há vinte e cinco anos, também se fazia música, que competiu lado a lado com os Xutos e Pontapés ou GNR. Curiosamente a banda que ganhou a edição desse ano do festival era da Nazaré. “Ganharam bem”, afirma António Andrade, mas acrescenta que, embora tenham gravado dois temas em vinil (que era o prémio do concurso) e a consequente promoção, nunca mais se ouviu falar deles...
Os Melotrupe nunca gravaram nenhum trabalho. Questionado sobre isso, António Andrade volta a focar o problema da interioridade. “Hoje é fácil, basta ir ao Porto e gravar, mas há vinte e cinco anos era diferente...”. As diferenças não ficam por aqui. “Chegamos a ir tocar em aldeias que não tinham energia eléctrica!”. Mas tocavam. Animação não faltava, afirma o músico, que lembra que as pessoas batiam palmas. “Havia cinco bandas em Bragança e cada uma tinha a sua maneira de tocar. Eram todos diferentes. Hoje está tudo uniformizado...”

O Festival 7’Up

Dois anos depois, em 1983, os Melotrupe voltaram a concorrer num festival nacional de Musica. Quis o destino que numa das eliminatórias voltassem a encontrar os Xutos & Pontapés. E venceram a eliminatória. As provas eram realizadas em capitais de distrito, por sorteio, e foi Bragança a escolhida para palco da prova. Algum tempo depois foram disputar a final no Porto, conjuntamente com os vencedores de outras eliminatórias e a final terá sido ganha por um grupo de nome Banana.

Vinte e cinco anos depois

Em 2006, só um dos quatro elementos do grupo se mantêm como músico, sendo também agente de espectáculos. É António Corredeira. Os outros elementos, embora com um passado comum, têm actividades profissionais muito diferentes. Alguns bem familiares aos brigantinos. É o caso de Paulo Xavier, que é presidente da Junta de Freguesia da Sé, e presidente da Concelhia do PSD de Bragança. A política também tem estado na vida de outro músico, Luís Afonso, que também é veterinário e empresário deste ramo. Já António Andrade é professor de Geometria Descritiva no ensino secundário.
O passado que partilharam deixou marcas que levam António Andrade a afirmar, com nostalgia, que ainda eram capazes de se juntar numa sala e tocar. Quem sabe, um dia…





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