Japonês com sotaque transmontano - Padre Jaime Coelho foi o primeiro convidado do programa “Nordeste com Carinho”, uma parceria da RBA com o Jornal NORDESTE
por Entrevista de Marcolino Cepeda e Rui Mouta


Nasceu em Soeima (Alfândega da Fé) e está no Japão há 44 anos, após abraçar a vida missionária. Com um longo percurso académico, o padre Jaime Coelho defende a criação da Universidade de Bragança e mostra-se disponível para ensinar Japonês, reforçando a ligação de Trás-os-Montes ao Oriente.



Jornal Nordeste (JN) - Como foi a sua infância?

P. Jaime Coelho (PJC) – Tive uma infância normal de uma criança de aldeia. Eu era filho da professora da terra e tinha a alcunha de professor, coisa que me indignava. Por causa disso tive algumas lutas com os meus companheiros, coisa de que agora me rio.

JN – O que o levou a tornar-se num padre jesuíta?
PJC – Foi a passagem de um missionário jesuíta por Soeima. Um missionário que eu muito admiro que é o padre Ferraz, que já faleceu. A mim impressionou-me. Não me lembro de nada do que ele dizia, mas impressionou-me a maneira como ele falava de Jesus. Depois que soube que ele era jesuíta, em vez de ir para espiritano, onde já tinha uma irmão mais velho a estudar, decidi ir para jesuíta. Os meus pais criaram-nos a todos com muita independência. Lembro-me que, quando tinha nove anos, perguntaram-me para onde é que eu queria ir. Eu é que lhes perguntei a eles e disseram-me: “tu já és um homem, tu decides e depois avisa-nos”. E assim foi a minha vocação por jesuíta, por vontade própria.

JN – Há quantos anos está no Japão e como foi a adaptação a uma cultura tão diferente da nossa?
PJC – Estou há 44 anos no Japão. Adaptei-me porque vivia com outros estrangeiros e tínhamos uma orientação muito boa. Já havia uma tradição portuguesa muito grande de missionários no Japão, porque fomos os primeiros a chegar lá, em 1543. Quando cheguei foi como se entrasse em casa própria, porque tinha lido muito sobre o Japão e sinto-me bem lá. Entendo-me com os japoneses como me entendo com os portugueses.
Aprendi lá muita coisa. Eles não gostam de incomodar as outras pessoas. No Japão não há ladrões. Em 40 anos que lá ensinei nunca me desapareceu nada do meu gabinete. Se alguém perde uma carteira vêm entregá-la, se estiver lá o nome do dono. São coisas muito lindas que eu não pensava encontrar num país que não é cristão.

JN – Adaptou-se bem à gastronomia japonesa?
PJC – No início custou-me um bocado. O chá verde sem açúcar custa um bocadinho a tomar e o peixe cru também. Agora como e como com gosto. É uma comida saudável, embora não seja tão saborosa como a portuguesa ou chinesa.

JN – Quanto tempo demorou a fazer o dicionário de Japonês-Português?
PJC – É um trabalho que levou 24 anos. Foi muito difícil e era um projecto em que os meus colegas do ensino não acreditavam. Lancei-me nesse trabalho porque sentia a falta de dele. Os meus alunos de Português e Cultura Portuguesa no Japão pediam-me esse dicionário, pois não fazia sentido estar a ensinar sem esse instrumento. Apesar das dificuldades financeiras e de tempo, voltaria a dedicar a 24 anos a este projecto.

JN – Agora falta o inverso, que é um dicionário de Português-Japonês. Já está a trabalhar nisso?
PJC – Penso que é mais difícil para um português aprender japonês do que o contrário. Eu falo por mim porque estive dois anos a estudar a sério para aprender a língua japonesa. Foi a língua que me deu mais trabalho a aprender. Eles dizem que o português é difícil, mas eu acho que o japonês é a língua mais difícil do Mundo. É mais difícil que o chinês. O japonês tem as letras chinesas, mas essas letras podem ler-se de várias maneiras, enquanto no chinês só têm uma leitura.
Depois do dicionário Japonês-Português, que foi lançado em Portugal, Japão e Brasil, tenho em mãos o “irmão” dele, em Português-Japonês.
O primeiro recebeu boas críticas nos principais jornais do Japão, o que me deixa muito contente, porque os japoneses têm um grande respeito por Portugal. Quando vêm a Lisboa e lhes dizem que foi da barra do Tejo que, em 1543, saíram os barcos dos primeiros europeus a chegar ao Japão ficam ali horas a olhar para o rio e repetem a palavra “foi aqui”. Têm tanta admiração por nós que no Japão há seis universidades em que a língua portuguesa é cadeira oficial. Em Portugal ainda não temos uma faculdade ou um departamento, pelo menos, para ensinar o japonês.

JN – Sabemos que ofereceu a sua biblioteca oriental ao Instituto Politécnico de Bragança. Porque o fez?
PJC - Fiz a oferta porque gosto muito de Bragança, de promover o nosso distrito, e quero que essa oferta seja uma isca para ligar Trás-os-Montes ao Oriente. É uma biblioteca com muitas obras sobre as ligações históricas de Portugal ao Oriente, embora não haja Estudos Orientais no Instituto Politécnico. É uma coisa a rever no contexto da futura Universidade de Bragança, porque há muitas relações entre Trás-os-Montes, e o Oriente, nomeadamente ao nível de missionários oriundos de Freixo de Espada à Cinta. Recordo o caso do Monsenhor Manuel Teixeira, já falecido, que esteve 75 anos no Oriente.
Se tal viesse a acontecer, estaria disponível para dar o meu contributo no ensino do japonês. Acho que uma só Universidade para Trás-os-Montes e Alto Douro é muito pouco. É melhor integrar Miranda do Douro, Mirandela e Bragança como centros principais numa Universidade, até para haver certa complementaridade com Vila Real e uma sadia competição. É com universidades que se atrai população e se evita que vá tudo para Lisboa ou Porto. A nível nacional e internacional temos de pôr Bragança no mapa, para fazer convénios com outras universidades estrangeiras.

Entrevista de Marcolino Cepeda e Rui Mouta






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