Que mouros são esses?

  Sabrosa

Investigação académica revela as diferenças entre os mouros da História e os mouros da Mitologia

Alexandre Parafita nasceu em Sabrosa, e cresceu a ouvir histórias sobre poços e minas onde os mouros habitavam. Hoje, é doutor em Cultura Portuguesa e investigador de Literatura Oral Tradicional na Universidade de Lisboa.

Mas nem por isso esqueceu essas lendas que lhe habitaram a infância. Acaba de publicar «A Mitologia dos Mouros», da editora Gailivro: um estudo sério, de cerca de 500 páginas, onde se recuperam lendas e se desfazem equívocos.
Filipa Leal

Teve sempre a noção de que havia uma espécie de “mitologia” à volta da figura dos mouros, ou foi a investigação que o levou a esta conclusão?
Já em criança me fascinava e intrigava o mistério que havia em torno dos mouros. Lembro-me que em Sabrosa, onde nasci e cresci, o meu avô possuía uma vinha junto a uma mina, profunda e negra, a que chamavam a mina dos mouros. Ali perto havia uma rocha com uma poça de água, sempre escura, e dizia o meu avô, assim como todo o povo, que era ali que os mouros iam urinar. E mais: que saíam de noite, somente de noite, do interior da mina para irem urinar àquele lugar. E que ninguém os podia encontrar. Que mouros eram estes? Já então perguntava isso a mim próprio. Longe estava eu de pensar que muitos anos depois ainda andaria às voltas com esta pergunta.

Na sua memória (e naquilo que dela se fez da memória colectiva), o que é que mais o atraía nessa mitologia?
Começou a atrair-me esta matéria quando percebi que, por via da tradição oral, e destas narrações em especial, o povo de Sabrosa mantinha uma sequência normativa intergeracional muito valiosa: por exemplo, nenhuma criança ousava entrar no interior daquela mina, evitando assim correr o risco de cair nalgum poço ou abismo, ou ser apanhada por alguma serpente; e nenhuma criança ousaria também beber daquela água, por ser de qualidade desconhecida, eventualmente imprópria ou contaminada. A eficácia destas narrações no seio do povo era, por isso, absoluta.

Há uma diferença assinalável entre “os mouros da História” e os “mouros da Mitologia”? Como percebeu as diferenças?
Esta convivialidade com a figura enigmática e ambígua dos mouros, associados a minas e a poços, mas também a fontes, a montanhas, a fragas e de que a nossa toponímia é muito fértil, foi-se mantendo na minha infância, até que, nos manuais, nos livros de História, e em outros registos mais convencionais, me fui inteirando de que havia também outros mouros, com uma existência mais objectiva, com os seus feitos e proezas, agora retratados já não de forma tão ambígua, mas como figuras de carne e osso, e que os manuais diziam terem sido derrotados e expulsos pelos nossos primeiros reis. A relação entre estes mouros e aqueles que o meu avô dizia que vinham urinar de noite é, afinal, a relação entre os mouros da História e os da Mitologia.

O que lhe parece estar na base da criação de um mito?
Todos os mitos nascem num espaço nebuloso entre a realidade e a fantasia, sendo que a realidade começa por inspirar a fantasia, e esta ganha depois toda uma dinâmica complexa de re-significações que as comunidades chamam a si no quadro dos seus impulsos identitários. E é também neste quadro que nasce o mito dos mouros, nocturnos, subterrâneos, e das mouras encantadas, ricas, esbeltas e perigosas.

No contexto político actual (de constantes desentendimentos entre o mundo árabe e o mundo ocidental), este livro vem dizer-nos que muito do
que se pensa em relação aos “mouros” é puro mito? Vem, de alguma for-
ma, desfazer um equívoco?
Nesse contexto, este livro pode, quando muito, ajudar a perceber os motivos de uma má-vontade colectiva, que atravessou os tempos, contra os mouros. Porque razão no Norte por vezes se diz mal do Sul dizendo que são mouros, ou porque se usam provérbios como “quem tem padrinhos não morre mouro”, ou porque se diz, de quem não foi baptizado, que “morreu mouro”. E pode também ajudar a desfazer alguns equívocos. Com este livro fica, por exemplo, a saber-se que, apesar do que disseram os manuais, o Islão sempre teve em Portugal mais de fascinante do que de perverso.

Percorreu variadíssimos concelhos do país em busca de “lendas e narrativas”. Que processo usou para esse levantamento? Como procurava as pessoas certas?
Consultei velhos livros, monografias, colectâneas, imprensa regional, tentando sempre excluir as lendas romanceadas, pois algumas chegam-nos fortemente contaminadas pelo labor literário de quem as redige. Mas fui também em busca de fontes primárias às aldeias, aos lares de terceira idade, procurei o apoio de professores e educadoras dos meios rurais, gravei, pedi manuscritos, até alcançar um corpus de lendas que me pareceu suficientemente representativo.

Qual foi a melhor história que lhe contaram?
Todas são fascinantes, embora me agradem particularmente as lendas que explicam a natureza dos tesouros. Muitos imbecis destruíram à bomba centenas de monumentos megalíticos em busca de ilusórios tesouros dos mouros, por vezes guiados pelo Livro de S. Cipriano. E não o teriam feito se soubessem ler as lendas, quando nelas se diz, por exemplo, que o tesouro só será descoberto por “ponta de relha e pata de ovelha”, ou que “entre o rabo do boi e o rabo da vaca está o ouro e a prata”. Ou seja, o tesouro é uma alegoria. Só o esforço do trabalho honesto e persistente o permitirá encontrar.

As mouras eram “perigosamente sedutoras”, adianta nesta obra. Por outro lado, diz-se dos mouros que “evitavam o convívio com estranhos”. A mulher portuguesa e o homem português herdaram deste povo alguns traços significativos?
As mouras perigosamente sedutoras e os mouros nocturnos e subterrâneos são entidades mitificadas que o imaginário construiu à luz de uma complexa urdidura político-teológica. São por isso o paradigma do Outro. São o outro lado de um espelho onde nos projectamos mas que não queremos assumir.

Mas o que é que nos ficou de fundamental (a nós, portugueses) dos mouros?
Se encararmos aqui os mouros como os árabes da nossa História, pois deles ficou-nos muito, seja na arquitectura, seja na língua, na literatura, na toponímia, na matemática, na agricultura… Há hoje estudos muito bons sobre esta herança. Portugal ganhou muito com ela.

O que é mais interessante, neste contexto: o mito ou a verdade?
A importância da verdade é inquestionável. O esforço para alcançá-la deve ser o alicerce e o motor de toda a cultura. Contudo, também é certo que sem os mitos nenhuma sociedade consegue viver. Seja quando os encaramos na sua natureza narrativa, procurando iluminar a cosmovisão de uma comunidade, seja quando os encaramos como ícones ou obsessão de um grupo, de uma geração ou de um povo. Nesta segunda natureza, o mito tanto pode ser uma entidade deificada na qual todos e cada um se revêem (o mito de D. Sebastião, o mito de Amália, de Eusébio, mas também de Elvis Presley, James Dean, Superman, Pai Natal, etc.) como pode ser uma inquietação universal, seja ela o mito da beleza, da eterna juventude, etc. A nossa sociedade está ávida deles. Tal como, há muitos séculos, no quadro Reconquista Cristã, foi inventado o mito dos mouros infiéis, invasores e opressores, a sociedade de consumo de hoje continua a inventá-los para vender discos, cremes e roupas de marca.

Filipa Leal in PJ, 2006-04-10