Diário de Trás-os-Montes  - Dossier especial

 

UNESCO deu parecer favorável
Douro é Património Mundial da Humanidade
 

O anúncio oficial irá chegar em breve de Helsínquia. O Alto Douro Vinhateiro vai ser classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. Da área a classificar, considerada Paisagem Cultural, fazem parte treze municípios, que representam cerca de dez por cento dos 250 mil hectares da Região Demarcada do Douro.

Na mais antiga região demarcada para a produção de vinho, as expectativas são muitas, tal como as mudanças que vão acontecer. Até porque se em 2003 o plano da candidatura não for cumprido, a região poderá perder esse estatuto. Depois de um grande investimento para alcançar o sucesso, há agora que “pôr mãos à obra” para manter as características singulares do Douro Vinhateiro e, simultaneamente, contribuir para o seu desenvolvimento, fazendo desaparecer a pobreza e o envelhecimento que assolam a população.

Depois do título, que futuro espera o Douro? 

Depois do trabalho do rio, que cavou fundo o seu leito, o homem adaptou as encostas íngremes à cultura da vinha, construindo assim uma das mais antigas regiões vitícolas do mundo, demarcada e regulamentada em 1765 pelo Marquês de Pombal. A Região Demarcada do Douro, onde se produz um vinho universalmente conhecido sob a designação Porto, está novamente “nas bocas do mundo. A razão: o Alto Douro Vinhateiro vai ser classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.

O coordenador do projecto de candidatura, Fernando Bianchi de Aguiar, considera que o Alto Douro é “um exemplo de paisagem que ilustra diferentes etapas da história humana e representa uma paisagem cultural evolutiva viva”. O que justifica o facto desta região vir agora integrar um grupo restrito de locais que detêm o epíteto de Paisagem Cultural, uma designação criada em 1992 pela UNESCO para as paisagens que combinam o trabalho humano com os valores culturais, constituindo assim um valor universal reconhecido.

Dos 690 bens existentes em todo o mundo classificados como Património Mundial da UNESCO, apenas dez são portugueses e destes só a vila de Sintra possui o título de Paisagem Cultural. 

Diversidade na unidade 

A Região Demarcada do Douro, onde se produzem os vinhos correspondentes às denominações de origem “Porto” e “Douro”, abrange 250 mil hectares, dos quais 48 mil são ocupados por vinha, e dela fazem parte 22 municípios. No entanto, apenas 24 mil hectares, ou seja, um décimo dessa área, que engloba treze concelhos, vai ser classificado pela UNESCO como Património Mundial. Contudo, a zona classificada é representativa da diversidade do Douro, uma vez que inclui espaço do Baixo Corgo, do Cima Corgo e do Douro Superior.

O território do Alto Douro Vinhateiro, área a classificar, integra o vale do rio Douro, que já é considerado Património Mundial nos seus extremos, nomeadamente o Porto, e no lado oposto o Parque Arqueológico do Côa. Os treze concelhos que fazem parte da zona distinguida pela UNESCO são Alijó, Armamar, Carrazeda de Ansiães, Lamego, Mesão Frio, Peso da Régua, Sabrosa, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, Tabuaço, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa e Vila Real, estendendo-se ao longo das encostas do rio Douro e dos seus afluentes, Varosa, Corgo, Távora, Torto e Pinhão.

A restante área da Região Demarcada do Douro ficará classificada como “zona tampão”, onde estarão integradas as denominadas aldeias vinhateiras, um projecto da responsabilidade do Ministério do Planeamento que tem como objectivo a requalificação urbana do Douro, de forma a atenuar os riscos que esta candidatura assumiu ao incluir no mapa 60 aglomerados urbanos, muitos dos quais não se enquadram na paisagem característica da região. Dos cerca de 600 aglomerados rurais que existem no Douro, foram incluídos no projecto Favaios (Alijó), Provezende (Sabrosa), Barcos (Tabuaço), Salzedas e Ucanha (Tarouca).

A elaboração da candidatura do Alto Douro a Património Mundial teve um custo de 58 mil contos, dos quais 43,6 mil, ou seja, 75 por cento, foram financiados pelo terceiro Quadro Comunitário de Apoio. Os restantes 25 por cento ficaram a cargo da Fundação Rei Afonso Henriques, a entidade que em 1998 ressuscitou a candidatura.  

Mudanças na região 

A classificação do Douro como Património Mundial vai implicar uma série de alterações na região duriense, já que o projecto da candidatura define um conjunto de medidas de ordenamento e gestão do território e de qualificação e valorização ambiental.

Para Bianchi de Aguiar, esta é uma região “de contrastes entre a riqueza das vinhas e o subdesenvolvimento, entre a beleza da paisagem e a falta de regras urbanísticas”. O coordenador da candidatura acrescenta ainda que “quem visita o Douro depara-se a cada passo com autênticas lixeiras à beira das estradas e mamarachos que estão completamente desenquadrados em relação à paisagem”.

Como exemplo, Bianchi de Aguiar destaca a antiga fábrica Milnorte, localizada junto à Barragem de Bagaúste que, afirmou, “deverá ser objecto de uma implosão”. Mas as más construções não ficam por aqui, e segundo este responsável também a escola EB 2,3 do Pinhão deverá ser objecto de requalificação, pois está “completamente desenquadrada em relação ao resto da paisagem que a envolve”.

Para colmatar estas deficiências, serão promovidas obras de recuperação e valorização do património. 

Gerir e salvaguardar o património 

Bianchi de Aguiar adianta que a UNESCO exige a criação de organismos que assegurem a salvaguarda, gestão e valorização da paisagem cultural. Nesse contexto, foi elaborado o Plano Intermunicipal de Ordenamento do Território (PIOT), um instrumento de gestão territorial que prevê uma série de orientações estratégicas para os treze concelhos incluídos na zona a classificar. Para garantir os meios financeiros e técnicos necessários à concretização das acções previstas, o documento propõe a formalizaçãode um pacto de desenvolvimento entre as treze câmaras e os ministérios do Planeamento, do Ambiente, da Agricultura, da Economia e da Cultura.

O PIOT, que vai agora entrar na fase de discussão pública, prevê a criação de duas estruturas de apoio à gestão e salvaguarda da paisagem: o Gabinete Técnico Intermunicipal do Alto Douro Vinhateiro, com funções de ordenamento e gestão do território, ao qual se torna obrigatório pedir parecer para futuras intervenções nesta região; e a Associação Promotora do Alto Douro Vinhateiro, com funções consultivas, que agregará diversas entidades na recuperação de bens e na preservação, valorização e promoção da paisagem vitícola classificada.

O plano de gestão do Alto Douro Vinhateiro inclui ainda um programa intermunicipal de requalificação ambiental de áreas degradadas, em especial de zonas de deposição de lixos e entulho e de escombreiras, que neste momento constituem uma das maiores “nódoas negras” da paisagem.

Bianchi de Aguiar referiu ainda que serão criadas zonas específicas para a recepção de entulho oriundo da construção civil, ao mesmo tempo que se pretende desenvolver acções de sensibilização junto das escolas, das populações e dos empreiteiros para as questões da preservação da paisagem.

Promover a requalificação e a valorização das áreas agrícolas e apoiar a mitigação dos impactes negativos causados por adegas e outras construções industriais e agro-industriais não inseridas na paisagem são outros objectivos propostos no projecto de candidatura.

Segundo Bianchi de Aguiar, em 2003 terá de ser apresentado à UNESCO um relatório da situação do Alto Douro Vinhateiro, para averiguar se as condições impostas para a classificação foram cumpridas. E “se a paisagem cultural evolutiva viva do Alto Douro Vinhateiro não for bem gerida nem valorizada, a classificação de Património Mundial poderá ser retirada”, concluiu. 

Produto do homem e da natureza 

É da reunião das qualidades do solo, das características propícias do clima e do trabalho árduo do homem que se produz um bem único: o vinho do Porto. E é em Setembro, no momento da vindima, que o processo tem início, quando as uvas são transportadas pelos homens até aos modernos centros de vinificação ou até aos antigos lagares onde, através dos frutos da terra e do trabalho do homem, se faz o vinho.

Actualmente, o processo produtivo concilia as técnicas mais sofisticadas com séculos de rigorosa tradição. Apesar da maior parte dos vinhos serem obtidos em centros de vinificação que possuem um equipamento de tecnologia avançada, em que a pisa e a maceração são totalmente mecanizados, ainda se podem encontrar locais onde a vinificação é realizada segundo a técnica ancestral, em que o trabalho é feito exclusivamente através da pisa nos lagares.

O resultado final não é um Porto, mas vários Portos, com cores que vão do branco ao retinto e sabores muito variados, como por exemplo vinhos Vintage, Late Bottled Vintage, Colheita, com indicação de idade, Tawny e Ruby.  

Ordem para exportar 

Trezentos anos depois do Marquês de Pombal decretar a demarcação da primeira zona de produção de vinho do mundo, o Alto Douro continua a ser a região vitícola do país cuja exportação gera mais receitas.

Em 2000, o vinho do Porto representou 19 por cento das exportações agrícolas, atingindo valores na ordem dos 80 milhões de contos. Segundo dados do Instituto do Vinho do Porto (IVP), nesse mesmo ano foram exportados quase mil hectolitros de vinho, sendo a França o principal destino do néctar português, já que absorveu 30 por cento do total das vendas. Entre Janeiro e Outubro de 2001, Portugal exportou 741 mil hectolitros de Vinho do Porto, um negócio que envolveu 64 milhões de contos.

A França, seguida da Bélgica, Holanda, Reino Unido, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos da América, são os países que mais consumem o vinho produzido nas encostas durienses. Na última década as exportações de vinho do Porto subiram 18 por cento.

Ricos mas pobres 

O sociólogo António Barreto, no seu livro “Douro”, classificou a região e a sua viticultura como “um dos mais importantes pólos de modernização da economia e da administração pública”. Mas hoje, esta região, que já foi a mais moderna zona agrícola do país, está envelhecida e isolada.

A desertificação das freguesias ribeirinhas do Douro e o consequente envelhecimento da população são problemas graves que caracterizam a realidade da região. Só nas últimas duas décadas, os 13 concelhos que integram o Alto Douro Vinhateiro, agora classificado, perderam quinze por cento dos seus habitantes, ficando reduzidos a pouco mais de 180 mil pessoas. Apesar de todos os esforços, tem sido difícil travar a deslocação das pessoas para o estrangeiro ou para o litoral. E para combater a falta de mão-de-obra, muitos proprietários rurais recorreram ao trabalho de imigrantes. Trezentos anos depois de os espanhóis terem ajudado a erguer os socalcos do Douro, são os ucranianos e moldavos que ajudam a extrair das entranhas da região o precioso néctar.

Embora no Douro se produza um bem que é a principal exportação do sector primário - o vinho do Porto e os vinhos de mesa Douro -, esta é também uma das regiões menos desenvolvidas do país. Mais de 90 por cento dos trabalhadores da região duriense são pequenos agricultores, que vivem apenas da vinha e do vinho.

Na zona vinhateira, onde se encontram alguns dos concelhos mais pobres e atrasados de toda a União Europeia, nomeadamente Cinfães, Resende, Armamar, Sabrosa, Tabuaço e Carrazeda de Ansiães, o poder de compra dos habitantes é de 40 por cento da média nacional. 

Turismo de qualidade: fonte de receitas 

Numa região onde o vinho domina as actividades económicas, tem-se verificado ao longo dos últimos anos um crescimento de algumas actividades paralelas e complementares à viticultura, como o turismo e o enoturismo.

Sónia Cabral, responsável pelo Gabinete Técnico da Associação Comercial e Industrial da Régua, Mesão Frio e Santa Marta de Penaguião (ACIR), destaca o “ritmo acelerado de crescimento que se tem registado a nível turístico na região duriense”. E na sua opinião “a atracção turística pode ser impulsionada pela aprovação da candidatura do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial da UNESCO”. Paralelamente, “a maior divulgação da região pode ainda ter como consequência o desenvolvimento de actividades paralelas, como o comércio local”, conclui.

Logo a seguir à produção de vinho, o turismo é uma das principais fontes de riqueza desta região. Anualmente são aos milhares as pessoas que visitam o Alto Douro Vinhateiro.

A tragédia da ponte de Entre-os-rios, a 4 de Março deste ano, teve um impacte negativo no sector, principalmente no turismo fluvial, que no primeiro semestre de 2001, em comparação com igual período do ano passado, teve um decréscimo de 43,3 por cento, uma redução justificada pelos operadores do sector com o “medo sentido pelos turistas, devido à falta de segurança que sentiam em navegar no Douro”.

Na região a aposta é no turismo de qualidade, mais direccionado para a classe média-alta, e por isso mesmo, ao longo dos últimos anos, muitas foram as quintas que se transformaram em empresas turísticas.

Construída à beira-rio, no Pinhão, uma antiga propriedade da empresa Taylor’s Fonseca foi convertida em 1998 no hotel de quatro estrelas “Vintage House”, que associa a decoração inglesa à tradição arquitectónica portuguesa e ao néctar produzido nas encostas do Douro.

O director da Vintage House, Manuel Marques, disse ao Semanário TRANSMONTANO que se pretende “desenvolver cada vez mais um padrão de qualidade turística, numa zona que pode ganhar mais notoriedade com a classificação de património mundial e onde se poderá apostar num nicho de mercado como o enoturismo”. A Academia do Vinho, que junta uma loja de vinhos, um curso e provas daquele néctar, é uma das principais atracções do hotel.

Para Manuel Marques, a classificação como património da humanidade é “estrategicamente importante”, porque “vai transformar o Douro num mercado de qualidade, acautelar atentados ao ambiente e impedir um desenvolvimento pouco sustentado da região”.

“Durante muito tempo toda a riqueza produzida no Douro era exportada, por isso espero que a partir de agora se desenvolvam estruturas na região que contribuam para o seu desenvolvimento e ajudem a fixar a população” sublinhou.  

Tradição e modernidade 

Por norma, o turista que visita o Douro tem entre os 35 e os 65 anos e possui a carteira recheada. A grande maioria é constituída por portugueses. Mas as encostas durienses e o vale escarpado do rio atraem ainda muitos turistas provenientes de Espanha, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos da América.

No entanto, grande parte prefere passar apenas um dia na região, e são poucos os que decidem passar aqui mais alguns dias. Segundo Jorge Osório, presidente da Região de Turismo do Douro Sul, sediada em Lamego, o objectivo é convencer os turistas a permanecer durante três ou cinco dias, “uma forma de os levar a investir mais na região”.

Para além da rota do vinho, a região tem ainda muitos outros factores de atracção turística. As festas populares que em Julho atraem à Régua cerca de 40 mil pessoas para o lançamento do fogo-de-artifício do meio do rio Douro continuam a encantar os visitantes. Mas os turistas podem ainda optar por formas mais modernas de divertimento, como os desportos náuticos ou o festival de música electrónica “Dance In Douro”, que há quatro anos se realiza na cidade, nas margens do rio. 

Por terra, água ou ar 

Actualmente, quem quiser visitar o Douro poderá escolher via-jar por terra, água ou ar. A mais recente inovação vai chegar à região no dia 1 de Março do próximo ano, por intermédio da empresa Douro Azul, que disponibilizará viagens, a partir do heliporto de Massarelos, no Porto, de dez a sessenta minutos, a um preço que pode variar entre os oito e os 165 mil escudos. O proprietário da empresa, Mário Ferreira, referiu que através de um helicóptero, com lugar para seis pessoas, os turistas poderão ver “o esplendor do Douro” de uma forma única.

Nas margens do rio, o caminho de ferro foi construído por volta de 1870 e há dois anos que, entre os meses de Maio e Outubro, os comboios históricos regressam à Linha do Douro, entre a Régua e o Tua, e do Corgo, entre a Régua e Vila Real, num percurso turístico que visa fazer “regressar” os passageiros ao início do século.

O programa “Comboios Históricos do Douro” leva os passageiros, numa viagem a 30 quilómetros por hora, em comboios puxados por uma locomotiva a vapor. A bordo das composições a banda “Bagos Maduros” e uma equipa de quatro pessoas trajadas à época, ou seja, início do século XX, fazem a animação nas viagens.

Os comboios a vapor tiveram uma importância histórica determinante para o desenvolvimento da região do Douro, nomeadamente no escoamento do Vinho do Porto e na comunicação entre as localidades durienses. Aliados ao rio, aos barcos, à vinha e ao vinho, os comboios históricos pretendem afirmar-se como um dos produtos âncora da região. 

Paula Lima e Rita Paulino


Apesar da importância da classificação

População desconhece candidatura 

Alto Douro Património Mundial. “O que é isso?”. Esta é a principal questão colocada pela maior parte das pessoas que moram na área candidata a património mundial. Um desconhecimento que revela a distância dos durienses em relação à importância e às consequências do novo título atribuído à região. 

Nas vésperas do anúncio do resultado oficial da candidatura do Alto Douro Vinhateiro a Património Mundial, a maior parte das pessoas que habitam no Douro não faz a mínima ideia do que se trata.

“Alto Douro Património Mundial? Isso tem alguma coisa a ver com a construção de novos prédios? O que temos de fazer?”, questionou Guilhermino de Lemos, de 72 anos, habitante na freguesia de Covelinhas, Peso da Régua. Sentado debaixo de um castanheiro, com a magia do Douro estampada no olhar, rio tantas vezes percorrido na juventude em noites de pescaria, Guilhermino Lemos surpreendeu-se com a revelação que a sua terra poderá ser classificada como património do mundo. “Não sei o que é, mas espero que possa trazer alguma coisa de bom para a nossa terra e valorizar mais o nosso vinho, que é nosso, mas é conhecido pelo mundo todo como sendo do Porto”, salientou. O ex-pescador, emigrante, agricultor e actualmente reformado, considera que o vinho rende pouco dinheiro aos pequenos agricultores e crítica o Governo porque, na sua opinião, os apoios “são dados aos ricos”.

Habituado a percorrer todas as aldeias daquele concelho, Cesisnando Gomes, com 54 anos e padeiro desde os onze, já ouviu falar da candidatura do Alto Douro Vinhateiro. “Não sei se foi na rádio, ou se li em algum jornal, mas não sei bem o que significa”. No entanto, pensa que “será bom para a nossa região”.

Reunidos em frente ao café da aldeia, alguns habitantes  de Covelinhas conversam sobre as vinhas, o vinho e os últimos acontecimentos no Afeganistão. “O futuro da nossa terra está a ser debatido lá no estrangeiro? Não sei de nada”, afirmou Joaquim Ventura, de 69 anos. “Às vezes vêm para aí muitas pessoas tirar fotografias e até pintar. Nós ajudamos sempre que podemos, mas não vemos nada, levam tudo para fora. O resto do mundo vê, mas aqui... aqui ninguém vê ou sabe alguma coisa”, acrescentou.

O grupo de idosos queixa-se também da falta de apoios para sobreviverem apenas do que a agricultura dá, pois vivem numa área de contrastes. Nas margens do rio produz-se a principal exportação portuguesa do sector primário, o vinho do Porto e os vinhos de mesa do Douro, mas nas mesmas margens estão localizadas algumas das zonas mais atrasadas e pobres do país e da União Europeia.

Um pouco mais acima, noutra aldeia localizada no alto de uma encosta, onde a principal atracção é o miradouro de São Leonardo, eternizado nos poemas de Miguel Torga, Francisco Pereira, de 21 anos, também desconhece o vento de mudança que pode soprar sobre o Douro. No entanto, pensa que “este é o sítio mais bonito do mundo e por isso mesmo deve ser valorizado. É isso que vão fazer, não é?”.

A trabalhar há cinco anos em França, porque na região do Douro não conseguia arranjar emprego, Francisco Pereira espera agora que esta possa ser a oportunidade para se colocar água canalizada nas casas da aldeia “e já agora”, também o saneamento. A inexistência de uma rede de abastecimento domiciliário de água é a principal preocupação da população da Galafura, pois aqueles que não possuem furos próprios têm de ir buscar água diariamente aos fontanários.

Dono de um restaurante, muito visitado aos fins-de-semana pelos turistas que gostam de se deliciar com a paisagem dos socalcos e vinhedos da mais antiga Região Demarcada do Mundo, Alberto Lebres sabe o que é a candidatura do Alto Douro Vinhateiro a Património Mundial. Uma maior procura turística e talvez um maior desenvolvimento para a região duriense podem ser, diz, consequências da classificação mundial.

Mesmo ali ao lado, Dina Soraia, de dez anos, e Ana Margarida e Cassiano, de onze, frequentam a escola primária de Galafura, mas ali também nunca ouviram falar no fenómeno que pode pôr o Douro nas bocas de todo o mundo. “Eu apenas quero para aqui um parque infantil com muitos baloiços para brincar”, salientou a pequena Ana Margarida, que como a Dina, acalenta o sonho de ir viver para uma grande cidade para conhecer um “mundo diferente”. Há quem queira sair,  mas também há quem queira ficar e ser tractorista, como o Cassiano, que deseja nunca ter de sair da região do Alto Douro Vinhateiro.  

Paula Lima

                                  Diário de Trás-os-Montes 13 de Dezembro 2001